[memória de alcainça]
23 julho 2016
21 julho 2016
fábula dos jogos de palavras sem graça
a
primeira vez que fui à alemanha procurei beber água de colónia,
comer uma bola em berlim e, claro, encontrar um pastor alemão:
comer uma bola em berlim e, claro, encontrar um pastor alemão:
muitos
campos percorri até encontrar um rebanho com esse pastor,
depois
pareceu-me que a água de colónia sabia indecentemente a cloro
e,
pelos vistos, já desconfiava, não existem bolas de berlim nessa cidade.
após
estas desilusões, desisti de procurar alguma podridão na dinamarca
e
deixei de tentar provar determinadas couves em bruxelas e na galiza,
mas
estes jogos de palavras sem graça não me fazem esquecer os livros.
é que, se eu mandasse, livros seria a única prenda que se poderia oferecer.
e se eu
mandasse mesmo muito, creio que teriam de ser livros de poesia.
13 julho 2016
26 maio 2016
03 maio 2016
30 abril 2016
"A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma
espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está
um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida,
não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e
nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim
do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré
da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada
aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de
que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à
beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a
conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do
falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em
permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que
consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os
canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da
Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede,
o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto
a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu
preciso."
(excerto de "Morrer é mais difícil do que parece")
Paulo Varela Gomes (1952-2016…(
25 abril 2016
para mim este príncipe foi sempre "sua alteza". recriou o funk
e a pop de um modo único e era um raro talento multidisciplinar: tocava
guitarra, piano, bateria e não sei quantos mais instrumentos, cantava e
dançava, para além de escrever as letras e a música das suas canções e ainda
oferecer músicas para outros. foi também um dos meus heróis simbólicos nos anos
oitenta e acompanhei-o sempre, mesmo quando deixou de estar na moda. uma vez
estava em londres e pude vê-lo ao vivo, na lovesexy tour – e ocorreu uma revelação.
talvez só o grande alfredo mercúrio tivesse o mesmo tipo de presença sobre um palco. há uns quatro anos voltou a reinventar-se, rodeando-se de três princesas e regressando
ao formato nuclear do quarteto rock (duas guitarras, baixo e bateria), assumindo
essa herança de hendrix no seu virtuosismo como solista. quem ocupa
agora este lugar?
soube-se entretanto que nas últimas actuações que deu recentemente
se apresentara sozinho, cantando apenas acompanhado por si ao piano,
possivelmente uma nova experiência que estaria a explorar. gostava de o ter
ouvido e de ver como teria adaptado a sua música a um piano solo. mas tive ainda
a sorte de o voltar a reencontrar há três anos, naquela noite mágica no coliseu
de lisboa. o concerto abriu exactamente com esta canção, revisitando num modo rock um seu êxito antigo, e é isso o que me magoa mais no seu desaparecimento:
não podermos a partir de agora voltar a ser com ele assim doidos.
24 abril 2016
02 março 2016
[ podia dizer que a escrita neste mural chegou hoje ao fim e
encerrar o belogue, mas não o vou fazer. até porque pode
suceder que daqui a
algum tempo volte a sentir motivação para grafitar novamente esta parede
branca. até lá, adeus. ]
I vow that it's goodbye
I vow that it's goodbye and God bless
Why did we have to assume
We're exactly the same?
O no, talking about yourself
I vow that it's goodbye to the old ways
Those stories were a good read
They were dumb as well
I could never be seen
Falling down on my knees crawling
O no, talk about a sell
O as the heavens shudder baby
I belong to you
O they said you get what you deserve
And all they said was true
So is this what it's come to?
Am I cold or just a little bit warm?
O well
Just give me an easy life and a peaceful death
01 março 2016
em "palace", um dos meus cornell favoritos, joseph recolheu ramos da árvore que havia nas traseiras da sua casa em 3708 utopia parkway e colocou-os a servir de fundo a uma fachada de um grande edifício, encerrando posteriormente o conjunto numa das suas caixas mais icónicas. em bom rigor, a mim parece-me mais um hotel que um palácio, mas existe um pequeno pormenor que faz toda a diferença: quando nos aproximamos e tentamos olhar para o interior daquelas janelas entreabertas, descobrimos com surpresa que está alguém a olhar para nós, como se os hóspedes do hotel nos observassem numa muda interrogação. e é então que percebemos que existem ali, abrigadas pelas pequenas persianas, superfícies espelhadas: são os nossos olhos que nos olham - e não é uma visão de viajantes a pernoitar num quarto alugado, são os senhores do palácio que nos reprovam a curiosidade, com um olhar de enfado pela nossa imprudente ousadia.
palace
joseph cornell
última fábula:
a morte à beira-rio
se eu morrer à
beira-rio embrulha o meu corpo num tronco de árvore
deita-o na água
e deixa-o flutuar e despede-te e deixa-me partir assim
não chores
triste e fica apenas a ver se a corrente me leva tejo abaixo
segue-me pela
margem e vais ver que é fácil e que a foz está ali perto
já só tens de
fazer mais esse esforço de tentar distinguir-me ao longe
então
se observares bem vais ver uma caravela sem mastro nem vela
e acredita que
vou dar a volta ao mundo e me lembrarei sempre de ti
que os mares são
só sete e que talvez um dia quem sabe até regresse
28 fevereiro 2016
26 fevereiro 2016
Oferta
Até aqui a
rosa. Para além
fica a
imagem que nos traz o dia,
a mesma
sombra, a curva que contém
tudo o que
nela aumenta e não havia.
Um frémito,
um vestígio como a renda
que nasce
com os gestos, o tecido
em que as
mãos (já unidas) são a senda
que nos leva
ao limite pressentido:
uma outra
rosa, aquela que habitava
nas sementes
de tudo o que te dava.
Fernando
Guimarães
24 fevereiro 2016
[ leituras ]
“quartos alugados”
alexandre andrade
alexandre andrade
ed. exclamação
ando muito viciado em livros de contos, é verdade, e tive a
sorte de encontrar este pequeno tesouro escrito em português. trata-se de um
conjunto de histórias que gira à volta de uma ideia-tronco comum: a de um tempo
do corpo no espaço que é um quarto.
há histórias para todos os gostos: em quartos alugados,
quartos escuros, quartos esquecidos, quartos estrangeiros, quartos revisitados,
quartos sonhados e, pelo meio, há literatura e uma prosa rica em mil e uma
referências: proust, beckett e borges (o conto “sul” é uma revisitação quase perfeita de “o aleph”), discussões filosóficas, gastronomia, música, e uma
geografia dos quartos que vai de lisboa a paris, passando por coimbra, tondela,
braga e outras cidades (em) que (se) abrigam os quartos.
a maior surpresa, para além da riqueza da narrativa, foi
para mim o estilo: uma prosa limpa, com um ritmo peculiar e uma escolha de
palavras e adjectivos sem mácula. em português – e não acordês. o facto de ser
professor universitário (e de física, note-se) ainda mais sublinha a originalidade
desta escrita de um autor que, desconfio, não quer(eria) de todo ser um
escritor.
23 fevereiro 2016
marear na tua carta
agora que a
primeira onda invade o convés desta nossa caravela nua
só queria mesmo afundar-me contigo e salgar-me nas praias
do teu amar,
flutuar sem temor no secreto compasso que adivinho em
cada maré tua:
lendas de gigantes, musas da nossa canção, cabos ainda
por dobrar.
agora que a última
onda submergiu esta nau que se afundou em ti
já nem sequer posso içar âncora e marear na tua carta de
marear,
desvendar os longínquos reinos que afinal sempre
estiveram aqui:
mistérios do teu corpo, oceanos de alva névoa, sete mares
por navegar.
22 fevereiro 2016
este azul já por aqui apareceu, mas hoje recordei-o, pela voz incomparável da grande ella.
My mama done tol' me when I was in pigtails
My mama done tol' me, "Hon,
A man's gonna sweet talk and give ya the big eye
But when the sweet talkin's done
A man is a two-face
A worrisome thing who'll leave ya to sing
The blues in the night"
Now the rain's a-fallin'
Hear the train's a callin', whooee
My mama done tol' me
Hear that lonesome whistle
Blowin' 'cross the trestle, whooee!
My mama done tol' me, a-whooee-ah-whooee
Ol' clickety-clack's a-echoin'
Back th' blues in the night
The evenin' breeze'll start the trees to cryin'
And the moon'll hide it's light
When you get the blues in the night
Take my word, the mockingbird'll sing
The saddest kind o' song
He knows things are wrong
And he's right
From Natchez to Mobile, from Memphis to St. Joe
Wherever the four winds blow
I been to some big towns an' heard me some big talk
But there is one thing I know
That a man's a two-face
A worrisome thing who'll leave ya to sing
The blues in the night
21 fevereiro 2016
Chega-te
devagar aos meus domínios;
que
teus dedos tacteiem o espaço
cegamente,
a escuridão que envolve
meu
corpo; que abram um caminho
e
cheguem até mim através do véu
espesso e
taciturno das sombras.
Salva-me com
a luz que há em teus dedos
ao tocar-me,
conjura a desídia,
acende-me
ou abrasa-me no tacto
esplendoroso
e claro de tuas mãos.
Como a
borboleta nocturna,
lançar-me-ei
à chama que tu convocas,
antes
queimar-me que estar às escuras.
Josefa
Parra
20 fevereiro 2016
acabado de chegar de um daqueles concertos para mais tarde
recordar: uma inesquecível viagem de inverno na gulbenkian (grande auditório
esgotado) pela mão do meu barítono preferido na actualidade e markus
hinterhäuser (no piano), com uma maravilhosa criação visual, encenação e vídeo
de william kentridge. matthias goerne é para mim o herdeiro natural de
fischer-dieskau como intérprete superlativo de lieder e a sua voz ainda me
pareceu mais aveludada que na gravação em disco. e, como aliás já esperava,
este ciclo de canções de schubert voltou a ter algo que me pareceu ouvir pela
primeira vez.
19 fevereiro 2016
um
dos enormes atractivos do mundo de joseph cornell é esse: o das viagens
fictícias e a associada saudade de lugares onde afinal nunca se esteve. apesar de
nunca ter saído da área de nova-iorque, através dos livros que leu, objectos
que coleccionou e contactos que manteve, acabou por interiorizar memórias de
uma europa do século xix (uma das suas paixões, a par do ballet) que nem os
europeus já tinham – ou poderiam ter tido. quando em 1933 encontrou pela
primeira vez marcel duchamp – num episódio que se tornou lendário – a propósito
de uma exposição dedicada ao surrealismo, falaram em francês e começaram a
trocar impressões sobre paris, a vida nos cafés e nos boulevards, o que tinha
acontecido na ópera, alguns quadros vistos no louvre e os últimos bailados levados
à cena. no final da conversa, quando cornell por fim confessou nunca ter
visitado a capital francesa, consta que duchamp ficou longos segundos
literalmente de boca aberta.
duchamp dossier
joseph cornell
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