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27 junho 2013









As coisas em imagens







Cortam-me o cabelo à tigela. 
Sentam-me no banco do jardim 
sem flores, só cabos que ligam máquinas 
como órgãos: o coração aos pulmões, o estômago ao útero.

Devia ter escrito: «Entre as coisas em palavras e as coisas 
em imagens há uma distância longa como um túnel em forma de cone.
No vértice, eu, despida do teu nome – coisas, palavras, imagens.»

O vento incomoda as árvores 
enquanto procuro o caminho de casa.









Inês Fonseca Santos








04 junho 2013









As coisas lentas






Fumo demasiado depressa 
o meu cigarro apagado. 
Os cigarros fumam-se lentamente 
ao espelho fixando um único dos nossos rostos. 
Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se 
entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se, 
observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole. 
Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro 
por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender 
um cigarro. Na casa onde tu fumavas 
cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava 
os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície 
do espelho, o teu vagar respondia-me 
até ao esquecimento de nós. 
Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes 
que me chegue aos lábios.

Está frio neste lugar. A boca abre-se 
como uma coisa lenta em forma de espanto.










Inês Fonseca Santos











16 novembro 2012










As coisas escritas






Tenho as coisas escritas
no peito, o teu nome. Nada tem que ver
com o coração, muito menos com sentimentos.
O teu nome está-me escrito nos sinais, sobre a pele.
A tinta, desenhos de círculos castanhos
assinalando lugares.

O meu mapa genético tem uma única localidade.
Dizer o nome dela é chamar-te.
Chamar-te é encontrar a minha morada.









Inês Fonseca Santos









03 novembro 2012










As coisas livres






Havia várias formas de chamar-te.
Chamar-te não era apenas dizer o teu nome.
Muito menos fazer-te virar a cabeça na direcção da casa.
Era conhecer-te o rosto – dedicado, disponível, raro.


As coisas livres ficaram escritas no chão.










Inês Fonseca Santos











01 agosto 2012










As coisas recuperadas







Colo-as. Mesmo aos pedaços
demasiado pequenos. Com sílabas
de palavras caídas em desuso
o teu nome volta a formar-se.
As coisas recuperadas seguem-no. Partem-se de novo
por raramente resistir a pronunciá-lo.
Dizê-lo é uma espécie de vitória.









Inês Fonseca Santos







24 abril 2012





As coisas




São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas.





Inês Fonseca Santos