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19 novembro 2015





Se tivesse carta





Se tivesse carta, faria sentido comprar um automóvel; poderia, então,
meter o sofrimento na mala e abandoná-lo num outeiro.






Miguel Martins







04 junho 2015





Escrevo




Escrevo para ajudar
o menino que serei
na minha próxima passagem por aqui.






Miguel Martins





09 maio 2015





Gosto de pessoas




Gosto de pessoas que aceleram
ante a inevitabilidade do precipício,
roubando assim alguns segundos
ao indecente gozo de Deus.






Miguel Martins






14 março 2015







E depois os pássaros começam a cair das árvores e com eles os meus olhos, cansados de desenhar pequenos símbolos no ar de sempre e nunca mais.
Chegou o tempo de varejá-los, olhos e símbolos, para que a terra adormeça de exaustão e a superfície não revele os segredos do mundo,
absurdos como uma gargalhada sem peito,
um vinho sem mestre,
uma pitada de sal no coração do medo.

Agora tudo é apenas uma pedra,
uma beatitude inconsolável,
a morte de uma lua-cheia.







Miguel Martins





31 janeiro 2015







são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres
sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver
sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária
sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral
sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas
sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa
eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa
sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos
eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque me achei só
eu a fugir de encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar
eu em cada vivo, em cada morto, em cada esquina da cidade
sou eu não conseguindo adormecer e, adormecendo, não dormindo
sou eu sem saber fugir a uma luxúria que jamais me faz feliz
eu a habitar um corpo doloroso, como semáforo amarelo
eu vendo outra coisa em cada coisa e em tudo palavras de papel
eu carregando o peso do passado sobre um futuro inexorável
eu mais mortal que os mortais e defrontando a imortalidade
sou eu com a cara e a alma à venda nos escaparates insensíveis
eu pedindo esmola a quem despreza o que lhe posso dar
sou eu rindo-me de mim para evitar chorar por tudo o mais
sou eu irremediavelmente sozinho para toda a eternidade
sou eu sem música de fundo, vendo-me num espelho desbotado
sou eu a fumar como se me defumasse para me poder comer
sou eu silenciando um grito por minuto e escrevendo no mel
eu vestindo toda esta nudez, só para só amar a verdade do amor

e se isto é difícil de entender, dizendo-te outra coisa não seria eu 







Miguel Martins






11 janeiro 2015






Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo uma cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede,
sonho-me a adormecer em Maio e acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.







Miguel Martins






29 outubro 2013









Não chorem





Não chorem com a tristeza dos meus poemas. 
Façam com que não os escreva.









Miguel Martins






13 junho 2013









Dizem que a vida me foi dada à borla.
Só eu sei quanto isso me custa.

Dizem que não penso nos outros.
Deus sabe o tempo que gasto a pensar nisso.

Dizem que tenho um ego agigantado.
É a única coisa que tenho.

Dizem que vou acabar sozinho.
Têm razão.









Miguel Martins








30 março 2013










Provavelmente, a próxima vez que ouvires falar de mim
será quando te disserem que morri
e que morri por minhas próprias mãos
(isso acontece).

Isso acontece do outro lado da ternura,
onde ela é demasiada e coisa rara,
vermelha e branca, ou seja, cor-de-rosa
quase transparente.

São coisas inexplicáveis e que não carecem de explicação
(já não),
como os incêndios, a fadiga extrema
ou o cheiro agreste da benzina.

São coisas da natureza dos comboios que passam
A alta velocidade
Sem se importarem com os ratos e as flores
Que nos carris fazem a sua lida.

É a morte,
Uma coisa que tudo simplifica.









Miguel Martins