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11 dezembro 2022


 


 

fábula  natalícia

 

 

 

 

 

os despertadores reuniram-se na madrugada anterior

e optaram pelo direito à greve. os mecânicos tentaram

ainda propor uma paralisação parcial, assegurando os

consagrados serviços mínimos, mas estavam em clara

minoria porque a maior parte das famílias adquirira

modelos eléctricos ou de quartzo. e assim, na noite

seguinte, foi esse mutismo generalizado dos relógios

o responsável por toda a gente ter ficado a dormir,

não estando desperta à meia-noite como mandava

a tradição, nesse instante final do dia vinte e quatro

de dezembro. graças a isso, no sonolento silêncio da

hora, nasceu o menino sozinho em palhas deitado,

confortado pelo bafo quente dos animais, esses sim

em vigília, e os seus pais só deram por ele de manhã,

acabrunhados pelo remorso. é o que dá não acordar

a horas quando se têm compromissos importantes.

 






14 novembro 2022

20 setembro 2022

 



 

fábula  para  ana  luísa  amaral

 

 

 

 

 

amavas mesmo esta língua de saliva feita palavras e

confessavas ter todos os sintomas dos navegantes no

desejo do mar, essa paixão antiga que não naufraga.

sabias que ficar a admirar as ondas é a mesma coisa

 

 

que encontrar o momento da leitura de um poema,

instantes ambos em que o tempo desacelera e tende

a parar, o ponteiro do relógio por fim amedrontado,

a lágrima que já não cai e, por cima de tudo, um céu

 

 

e nada mais, mesmo de pernas para o ar e virado do

avesso. alguns cantam o amor sem uma rima, outros

passam por um soneto sem o ver, acontece a quem

 

 

não ouve o som que os versos fazem ao abrir. porém

contigo nunca: procuravas o olhar diagonal das coisas

entre corpos, num horizonte vítima de golpes verticais.

 

 





23 agosto 2022

 



leitura

 


 

 

a leitura induz o mais pejorativo

solipsismo, de sermos os únicos

teólogos da nossa crença numa

biblioteca viva de que fomos os

criadores, magos infalíveis nessa

fantasia de inevitável extensão e

puro espelho do absurdo de ser.

 

 

com a leitura combato o olvido

de não ser quem talvez pudesse

ou até de ser quem nunca fui, e

todos os livros me confessam o 

mesmo: tudo aquilo que nunca

tiveste te é oferecido para logo

ser perdido, pois ler é esquecer.

 

 

na leitura sou o eu próprio e um

eu outro também, e ambos nos

sabemos leitores recíprocos. não

heróis imortais, apenas vagos e

laboriosos artesãos de um lema:

jamais amnésia e esquecimento

mas sim memória e recordação.

 






22 julho 2022

 


 

 

naqueles  filmes  a  preto  e  branco

 

 

 

 

 

não me sentia criança, lutava como um grumete que era herói

naqueles filmes a preto e branco projectados em cinemas que

só existem numa memória. o navio havia recebido pelo menos

dois torpedos e o imediato aparecera na balaustrada da ponte

anunciando a ordem de abandono. um dos salva-vidas estava

destruído e no outro jamais caberíamos todos. e já no convés

perigosamente inclinado alguém lembrara a prancha pousada

na proa. tínhamos conseguido lá chegar, por entre as rajadas

de balas com que os aviões nos brindavam, mesmo a tempo

de a empurrar borda fora e saltar. alguns não sabiam nadar,

ficávamos impotentes a vê-los perdidos no mar escuro e frio.

em seguida tentávamos aguentar-nos sobre aquela jangada, e

foi então que uma onda me derrubou. vi-me cercado por um

monstro líquido, debati-me, tentei lutar. mas era impossível,

faltavam as forças e começava a afogar-me. só depois ouvia a 

voz da minha mãe a dizer-me para não beber a água do banho,

que ainda ficaria mal da barriga. e no ecrã surgia a palavra fim. 

 

 

 

 

 



19 julho 2022



 



o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final também não lhe fica atrás














28 maio 2022

 



obituários

 

 


 

após terem contraído vícios eternos durante

a perpétua juventude, aos vinte e sete anos

desapareceram jim morrison, jimi hendrix,

kurt cobain, janis joplin, brian jones e amy

winehouse, de apelido adequado por sinal,

todos eles membros desse malfadado grupo.

 

 

mas há também o clube dos quarenta e seis,

a idade com que desapareceram alguns dos

escritores mais famosos, como albert camus,

oscar wilde, charles baudelaire, george orwell,

david foster wallace e gérard de nerval. outros

sócios são o senhor lovecraft e aquele coronel

lawrence da arábia. apenas georges perec terá

faltado, morto a quatro dias desse aniversário.

 

 

e lembrando que ditos a pedido do médico

muita gente era auscultada pela última vez,

aos trinta e três desapareceram jesus cristo e

alexandre magno. ora, segundo os registos de

uma conservatória, até eu contraí matrimónio,

tendo aí falecido um rapaz solteiro e promissor.

 

 





03 abril 2022



 


 

nova  fábula  de  pedro  e  o  lobo

 

 

 

  

era uma vez um rapaz chamado pedro e que era pastor.

o trabalho era aborrecido porque as ovelhas eram tristes

e caladas. como se sentia bastante só, resolveu gritar que

andava por ali um lobo feroz. na aldeia todos o ouviram

e logo acorreram para auxiliar pedro a salvar o rebanho.

porém, não havia lobo nenhum - apenas pedro a rir-se de

todos eles por os ter enganado. claro que na vez seguinte

pedro não soltou brados por ter visto um lobo, sabia bem

que ninguém acreditaria nisso. preferiu gritar que sentira

a presença de um furioso tigre e os aldeões foram de novo

ludibriados. uns dias depois clamou ter visto pegadas de

um enorme urso enraivecido mas, desta vez, ninguém da

aldeia o foi ajudar porque, mesmo ao longe, toda a gente

havia reconhecido o velho tyrannosaurus rex esfomeado.

 






07 março 2022

 


 

fábula  contra  a  odisseia

 

 


 

pensas que valeu de alguma coisa a tua penosa viagem,

diz-me, acreditas mesmo teres feito bem ao trocar essa

juventude eterna prometida pela bela calipso por um

estéril regresso a casa? não, não aconselhes estes teus

pobres homens a colocarem cera nos ouvidos, o canto

das sereias será por todos ouvido e é irresistível. julgas

  

ser possível haver poetas que cantem o teu regresso,

que uma aia te reconhecerá, que vingarás essa ilusão

com a ajuda da deusa atena? e não, não digas a esses

marinheiros que te prendam ao mastro com amarras

inúteis, esquece o que te disse circe. a tua fiel esposa

tornou-se a maior vendedora de sudários, ainda crês

  

que destecia durante a noite tudo aquilo que a viam

tecer de dia? fixa os teus olhos nos meus e di-lo, jura

sempre teres sabido que a aventura errante não te iria

tornar mais sábio, que os deuses são meras invenções

humanas e que, por mais batalhas ganhas ou perdidas, 

no fundo não partiste, nunca abandonaste a tua ítaca.


 





22 fevereiro 2022

 


 

a  morte  da  palavra

 

 


 

tal como certas palavras que nunca ouvimos antes

de alguém as pronunciar de modo certo, também

há poemas a que se chega necessariamente tarde.

por vezes tão tarde que os seus versos se tornaram

folhas secas caídas no chão frio do esquecimento

ou flores mortas no mármore inerte das campas. 

o meu mal é juntar palavras sobre o papel e julgar

que ali, escondidos entre linhas de letras, poderão

estar poemas inauditos. e o pior é que olhar para

as palavras escritas fere, talvez mortalmente, a sua

escrita. a morte da palavra mata sempre a palavra.

 

 

( a morte não tem qualquer importância, como se

sabe, mas importa muito a palavra que a nomeia )

 





28 janeiro 2022

 


 


fábula  para  john  steinbeck




bem sei que há ratos e homens a leste do paraíso

e pastagens do céu entre as amargas vinhas da ira

mas o que eu mais quero é saber dos paisanos de

tortilla flat e sentir-me um errante vagabundo em

cannery row. quem me dera vir a ser esse alguém

que escrevesse um ensaio erudito sobre os efeitos

morais, físicos e estéticos do ford modelo t sobre

a nação. porque é verdade, houve duas gerações

de americanos que conheciam melhor o sistema

planetário de engrenagens que o sistema solar, e

sabiam mais da bobina do ford t do que sobre o

clítoris. tal não impediu no entanto que grande

parte dos bebés desse período tivesse sido afinal

concebida dentro de um modelo t e não poucos

nascido nele até. foi ele quem abalou o alicerce

do conceito de propriedade privada. um alicate

deixou de ter dono e uma bomba para os pneus

passou a pertencer ao último que a tinha usado.

algo no individualismo ficou tão distorcido que

nunca mais recuperou. e após os teus livros uma

certa ideia da escrita, em bom rigor, também não. 

 




10 janeiro 2022


 


 

montes  de  tempo

 

 

  

 

temos montes de tempo, disse-me a funcionária

do arquivo, provavelmente consciente da minha

ansiedade perante a dimensão da busca e a cada

vez mais próxima hora de encerramento daquele

serviço. montes de tempo, repetiu, talvez com o

intuito de me tranquilizar. e eu pus-me a pensar

 

 

em montes feitos de tempo, imaginando breves

montículos de alguns segundos apenas, colinas

de várias horas, serras durando mesmo alguns

dias e cordilheiras ainda mais demoradas. não

sei se terei deixado escapar um sorriso, porque

a vi olhar para mim com repousada candura e

 

 

quase a ouvi murmurar que tinham himalaias

enquanto a pesquisa genealógica, pela minha

fértil imaginação afinal concluída bem dentro

do horário, revelava inesperados antepassados

tibetanos e até um monge budista para quem o

tempo jamais se medira com base na orografia.

 

 





06 dezembro 2021

 


 

razões  que  a  própria  razão  desconhece

 



 

pensou em começar de imediato com uma citação

e ocorreram-lhe os pensamentos de pascal, é sabido

que o velho blaise assegura sempre belos impactos.

não tanto a estafada frase do coração ter razões que

a própria razão desconhece mas, dado tratar-se de

uma comunicação a propósito da racionalidade no

momento da decisão, talvez aquela alegoria dúplice

dos dois excessos, excluir a razão e admitir apenas a

razão. sim, muito adequada ao tema. ou então, para

aliviar o ambiente geral da reunião, poderia ainda

optar por uma mera insinuação literária, recurso

infalível e garantido, evocando a frase de séneca

sobre o escutar da razão, abandonando tudo o que

seduz a multidão. ou mesmo declamar um só verso,

como aquele do pessoa: guia-me a só razão, não me

deram mais guia. ouviu entretanto anunciar o seu

nome, já deviam ser horas, sentiu que alguém ia

caminhando ao seu lado, conduzindo-o para um

estrado. e depois ouviu aplausos, abriu um pouco

a boca e, sem que nada o fizesse prever, soltou um

ligeiro e quase imperceptível bocejo. não de tédio

ou fome, apenas um sinal do corpo relembrando

que um desfile é tão mundano quão efémero e a

vaidade alvo de punição, pelo que deveria tentar

ocupar o resto da manhã a lamber-se ou farejar a

calçada, sabem como é, a ser apenas um sereno

basset, ouvindo as pedras, de orelhas pelo chão.

 







03 novembro 2021

 


 

 

pela  velha  estrada  do  sal

 

 

 

 

 

é um outono frio e seco em outubro de mil setecentos e cinco

no norte da alemanha. um jovem de vinte anos guarda as suas

roupas e objectos pessoais em dois sacos e, envolto pela névoa

da manhã, deixa a cidade de arnstadt, a pé pela velha estrada

do sal, em direcção a norte. o seu destino está a quase quatro

centenas de quilómetros, que vai percorrer caminhando com

alegria, animado por uma vontade resoluta. ninguém sabe se

conseguiu cumprir o objectivo de não demorar mais de duas

semanas no trajecto, mas é do conhecimento geral que num

domingo se sentou finalmente num banco da igreja de santa

maria em lübeck, para ouvir tocar um organista de sessenta e

oito anos, que não sabe que lhe resta pouco mais de um ano

de vida, nem quem é o jovem. gostava de ter inventado uma

história assim, nem era sequer necessário que o jovem fosse

johann sebastian bach e esse organista se chamasse dieterich

buxtehude. bastava-me tentar escrever sobre essa certeza que

alguns têm no seu próprio destino. que a genialidade não se 

alimenta de renúncias. e que o caminho se faz caminhando. 

 

 

 

 




10 outubro 2021

 



 

lição  de  imunologia

 

  

 

 

ficares para sempre imune a toda a poesia?

não te chega deixares de a ler, ou não mais

comprares livros cheios de poemas escritos

por outros. não. tens de conseguir ignorar

os versos ocultos na luz de lisboa quando

anoitece, repudiar árias sussurradas pelas

pedras da calçada, negar o sangue quente

que percorre as veias das letras. ou então

extrair o veneno de certas palavras e obter

um antídoto eficaz contra todas as outras.

 






13 setembro 2021

 


 


íamos  pelos  nossos  dedos




pois eu sou do tempo em que, uma vez por ano,

tocavam à campainha dois homens que vinham

trocar as listas telefónicas, que ainda eram dois

volumes pesados, um com páginas brancas e o

outro das saudosas amarelas, onde íamos pelos

nossos dedos, intrépidos exploradores absortos

em inesquecíveis viagens comerciais. depois, já

com a nova lista nas mãos, procurava a letra v

e voltava a confirmar a ausência de assinantes

lisboetas com o apelido vinho. havia imensos

vinhas, dois ou três vinha e um único vinhal,

porém nenhum vinho. por que razão perdia

tempo precioso em tão fútil inquérito, ouço

perguntar. pois bem, apenas porque da lista

constavam alguns senhores de apelido verde

e muitos mais de sobrenome branco e eu, na

minha juvenil condição de ignorante da rara

preciosidade do tempo, esbanjava-o a pensar

nos apelidos das crianças que poderiam um

dia nascer da união de uma senhora vinho

com um senhor verde ou branco. parvoíces.