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16 novembro 2020

 

 

 

 

 

A verdadeira mão que o poeta estende

não tem dedos:

é um gesto que se perde

no próprio acto de dar-se

 

 

O poeta desaparece

na verdade da sua ausência

dissolve-se no biombo da escrita

 

 

O poema é

a única

a verdadeira mão que o poeta estende

 

 

E quando o poema é bom

não te aperta a mão:

aperta-te a garganta

 

 

 

 

 

Ana Hatherly

 

 



13 janeiro 2016

20 setembro 2015






Tisana 29




Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição. Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.





Ana Hatherly




10 setembro 2015





Tisana 28



Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.






Ana Hatherly






06 agosto 2015







Um calculador de improbabilidades




O poeta é
um calculador de improbabilidades limita
a informação quantitativa fornecendo
reforçada informação estésica.
É uma máquina eta-erótica em que as discrepâncias
são a fulgurância da máquina.
A crueldade elegante da máquina resulta da
competição pirotécnica da circulação íntima
e fulgurante do seu maquinismo erótico.
A psicologia do maquinal sabe que basta
que se crie um pólo positivo para que o pólo
negativo surja
ou vice-versa
e as evoluções telecinéticas pela força
das catástrofes desenvolvem suas faculdades
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve
as águas variáveis dos humores
que transforma em polaridade.
O maquinal eta-erótico está em astrogação
curso hipnótico dos polímeros.
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal
circula em sua hiperesfera da maneira mais
excêntrica.
Digo e garanto:
o maquinal absolutamente absorve suas águas
variáveis e isso é o seu amplexo.
O maquinal eta-erótico é tu-eu.
O maquinal tu-eu
cuja tarefa árdua não é
definir a verdade está no meio da profusão
dos objectos
e considera o consumo a verdade deslocada
deslocação de grande tonelagem
laboriosa alfaiataria de eros
constante moribunda
e esse opróbrio dispersivo e vexável
indifere a vida esponjosa.
A história agrega a dificuldade essencial
das variáveis e o ensejo das coisas
prática difícil
está para o maquinal como uma indústria apócrifa






Ana Hatherly
(1929-2015…(







10 junho 2015







Balada do país que dói




O barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o corpo cai
o corpo dói

português vai
português cai

o barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o país cai
o país dói

o tempo vai
o tempo dói

português cai
português vai
português sai
português dói







Ana Hatherly





08 janeiro 2015





Tisana 69



. a história é infinita. podemos interceptá-la em qualquer ponto. era uma vez uma cidade onde os habitantes sabiam tanto do sofrimento humano que quando acordavam deitavam-se logo.





Ana Hatherly






02 novembro 2014






O poeta caminha por palavras

bate em duros muros

com um surdo rumor

enterra-se no pó da língua






Ana Hatherly





17 março 2014







As palavras dirigem-se umas às outras





As palavras dirigem-se umas às outras:
dormentes nos dias cinzentos
acordam-nos dos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes

O seu alcance é
a vastidão erma do sentido

À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia








Ana Hatherly








12 março 2014









d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :







entre estes dois pastores de palavras...







a)



Olá, guardador de rebanhos,
aí à beira da estrada,
que te diz o vento que passa?

Que é vento, e que passa,
e que já passou antes,
e que passará depois.
E a ti o que te diz?

Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
e de cousas que nunca foram.

Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
e a mentira está em ti.






Alberto Caeiro







b)


Quase écloga



ao Mestre Caeiro


Olha:
também eu
sou pastor de rebanhos
e
iguais às tuas
as minhas ovelhas
também são palavras

Como sempre acontece
levamo-nos:
mutuamente nos apascentamos
numa contemplação
onde cintila a semelhança

Porém:
onde é que
de facto
cintila a semelhança?

Os fantasmas
dos heróicos cantores
jazem agora
no além-mistério
onde vive
o dragão-lobo
que nenhum cão detém






Ana Hatherly









09 fevereiro 2014









O terceiro corvo






Oh Lisboa
como eu gostava de ser
o terceiro corvo do teu emblema
estar implícita na tua bandeira
negra e branca
como tinta e papel
como escrita e espaço!

Ser teu desenho
tua nova lenda
invenção deste século
que já não inventa
e se interroga:
donde vieram estes corvos?

Como tu, Vicente,
eu também não sou de cá
não sou daqui
não pertenço a esta terra
e talvez nem sequer a este mundo...

Porém estou aqui
nesta dolorosa praia lusitana
cheia de um tumulto inútil
que enegrece as tuas areias
e polui o ventre do rio
que os golfinhos há muito desertaram

E olhando as nuvens dedilhadas pelo vento
sentindo a terna dor do teu sentir sentido
peço-te, Lisboa:
surge de novo bela
reinventa
a santidade perdida do teu emblema










Ana Hatherly










17 outubro 2013









A varanda de Julieta







Em Verona
a casa da Julieta
é pequena, escura, insignificante.
O edifício está enegrecido
só a varanda de pedra foi limpa:
destaca-se como um grito branco
numa boca escura.

Tudo é um pouco de menos
nesta fachada demasiado obscura
agora brutalmente iluminada
pela luz fluorescente
duma loja de design
colocada mesmo em frente
no mesmo pátio
no mesmo átrio mítico.

Fui procurar
a memória da história
e encontrei a tecnologia
gritando
contra o endurecido mito
do sentimento
petrificado no tempo.

Tinha esquecido que o amor
é coisa mental
e que na superfície do real
é como um grito branco
numa boca escura.

  







Ana Hatherly











26 abril 2013










Tisana 16





Era uma vez uma palavra que estava sentada à porta de casa quando passou um rato. Bela palavra diz o rato. Como ia com muita pressa deu-lhe umas dentadas e engoliu-a. Mal. A palavra ficou-lhe atravessada na garganta. Então os dentes começaram-lhe a crescer para dentro.








Ana Hatherly