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02 março 2013










Quartos






passaram alguns meses depois de ter decorado o teu rosto
passaram alguns dias depois de saber o teu nome,
passaram algumas horas depois de deixar o teu quarto.
do meu quarto ao teu quarto o tempo é um corredor sombrio
que  flutua na margem das imagens.
encontro-me deitada sobre o manto suave da espera, encontro os meandros 
de um academismo fétido
um manto suave ruidoso que me consome a espera, que me arde pela espera, 
embora não esteja à espera de nada, concretamente, a não ser, talvez, 
de mais espera.
por dentro atravessa -me uma canalização fragilizada pelos anos.
a pele do medo faz-me escorrer pelo quarto
ou serão estas paredes rachadas pela humidade que me inundam as ideias?
na voz sinto o peso dos móveis e o peso de todas 
as impressões digitais de todos os outros estudantes que como eu os utilizaram.
na boca, a memória salgada de ti,  ou a memória salgada 
daquilo que penso que sejas,
daquilo que eu gostaria que fosses,
daquilo que eu gostaria de ser com aquilo que eu gostaria que fosses.
o medo a contrariar a idade, o elogio do pessimismo pousado sobre a cómoda
e já passaram alguns minutos depois de te começar a odiar.









Sara F. Costa










22 fevereiro 2013










Ego







vou procurar-te em toda a extensão do meu corpo,
sei que me habitas,
sepultado algures no meu ego.
se não estás aqui, estás nas entranhas das estrelas e é igual,
é a língua de um filme que achaste medíocre por ser abstracto,
é o leque cromático da gramática
que me impinges,
são os nervos exaltados que gritam com o poema
e é o poema que grita 
e as palavras que estremecem até aos tendões.
cravo cada letra até à mais profunda solidão
e as folhas lamentam o peso das sílabas.









Sara F. Costa