30 novembro 2021

 

 



leituras  de  novembro






 


  


 


 


 






:: notas ::

 

red comet

heather clark

ed. vintage

 

monumental biografia, bem escrita e detalhada, inspirada pela vida poética e trágica de sylvia plath. ao contrário de outras tentativas, mais ocupadas em vasculhar os conflitos com ted hughes e a ver neles a explicação para o seu suicídio, aqui seguimos apenas um percurso da vida atribulada e nunca linear, complexa e fértil, de uma mulher frágil com um enorme talento para a escrita, mostrando as suas forças e fraquezas e tornando-a mais humanda. e, mesmo conhecendo o final, lê-se com avidez e surpresa.

 


 

kokuro

natsume sōseki

ed. penguin

 

um clássico da literatura japonesa, na transição da era meiji para o século xx. um jovem universitário conhece um homem mais velho, a quem trata por sensei. fica a saber que este faz visitas periódicas à campa de alguém muito importante no seu passado. o jovem termina os estudos, é obrigado a ajudar o seu pai moribundo e recebe por fim uma longa carta, uma espécie de testamento póstumo deixado pelo seu amigo sensei. e descobre por fim que este se suicidou por não poder suportar mais o desgosto e o permanente sentimento de culpa por ter sido o causador de uma outra morte auto-infligida. cem anos depois, não perdeu brilho nem actualidade.

 


 

the books of jacob

olga tokarczuk

ed. fitzcarraldo

 

felizmente, o maior do ano (novecentas páginas) é também um dos melhores. foi o livro que deu a conhecer a futura prémio nobel, uma incursão no romance histórico com uma versão literária do que foi esse estranho movimento chamado frankismo. em meados do séc. xviii o jovem judeu jakub lejbowicz chega a uma cidade da polónia e, vítima de êxtases e outros delírios místicos, muda de nome e inventa uma persona, jacob frank, que vai renegar o talmude e reinterpretar o zorah e a kabala, obtendo um número crescente de seguidores fanáticos. acusado de traição pelos rabis, vai refugiar-se na turquia, converte-se ao islão e logo depois regressa, abraçando o cristianismo. alguns tomam-no por messias, outros por um mero arrivista, desonesto e dado a práticas imorais. sempre considerada herética pelas várias religiões que adopta, a sua seita vai ser perseguida até à extinção. pelo meio, e como lhe é habitual, a autora narra-nos inúmeros episódios familiares e políticos paralelos, num retrato fascinante de uma europa em mudança acelerada.

 








14 novembro 2021

 



 

Penélope  escreve  a  Ulisses

 

 



e se quando regressares

o mundo já não

existir?

 

 

 

 



José Carlos Barros

 






03 novembro 2021

 


 

 

pela  velha  estrada  do  sal

 

 

 

 

 

é um outono frio e seco em outubro de mil setecentos e cinco

no norte da alemanha. um jovem de vinte anos guarda as suas

roupas e objectos pessoais em dois sacos e, envolto pela névoa

da manhã, deixa a cidade de arnstadt, a pé pela velha estrada

do sal, em direcção a norte. o seu destino está a quase quatro

centenas de quilómetros, que vai percorrer caminhando com

alegria, animado por uma vontade resoluta. ninguém sabe se

conseguiu cumprir o objectivo de não demorar mais de duas

semanas no trajecto, mas é do conhecimento geral que num

domingo se sentou finalmente num banco da igreja de santa

maria em lübeck, para ouvir tocar um organista de sessenta e

oito anos, que não sabe que lhe resta pouco mais de um ano

de vida, nem quem é o jovem. gostava de ter inventado uma

história assim, nem era sequer necessário que o jovem fosse

johann sebastian bach e esse organista se chamasse dieterich

buxtehude. bastava-me tentar escrever sobre essa certeza que

alguns têm no seu próprio destino. que a genialidade não se 

alimenta de renúncias. e que o caminho se faz caminhando.