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22 novembro 2020

 




Paisagem  com  corvos





Van Gogh
atirava pedras aos corvos
para os esmagar contra o céu
dos seus quadros







José Manuel de Vasconcelos





08 julho 2020





O  soldado  na  praça  Tianamen



Olha em frente um ponto cego
um rumor que não tem pressa de ser som
nada sente nem procura
perde-se hirto no vazio
a areia do tempo cai-lhe corpo abaixo
caule sem seiva nem ramos
a cabeça indiferente numa espera inútil
flutua no verde azeitona da farda larga e triste
que a brisa solta da tarde levemente sacode
como um poste seco no deserto




José Manuel de Vasconcelos





22 dezembro 2013








Território








Um céu de sombras
vermelho por dentro
clareira solta
sobre o mar
O sonho como um galo branco
iluminando a noite
para que os ossos da névoa
ganhem contornos de pele
Um pássaro vibrando
na solidão de cada ferida
O granítico ódio
destas ruas sem rostos
deste pranto sem corpo
de país castigado











José Manuel de Vasconcelos










06 agosto 2013









O odor das alfavacas






Meu pai falava do odor das alfavacas
e eu corria ao dicionário («Planta labiada, semelhante
ao manjericão…»), logo decepcionado
Imaginava uma vaca primordial
depositária de bíblicos segredos
capaz de mudar o curso das coisas
de ser fundamental, talvez, na minha vida
mas nada disso: havia-as de caboclo, de cobra, dos montes,
do campo, de cheiro (certamente as do meu pai)
e nenhuma referência à cornuda que apascentava
a minha imaginação
Aprendi assim a desconfiar das palavras
e da realidade
a ver como ambas nos enganam
sem qualquer piedade









José Manuel de Vasconcelos









07 janeiro 2013










Janeiro






agora a tua canção sonha no meu sal
atravessa a luz das mulheres que tive
como uma faca inocente
perfumando o rosto

desvendamos às escuras
o claustro onde sozinha te resguardas
onde vejo florir as tuas coxas
como árvores na minha pobreza
em serenos pátios a caminho do dia

deixo enfim respirar
a floresta do mundo nessa água branca
e retiro-me para a minha insónia errante

hoje porém acendi de novo o lume
no meu sangue,
acordei-te
e a minha chuva fustigou toda a noite
a tua janela escura








José Manuel de Vasconcelos








31 dezembro 2012










dezembro





este é um mês para as cidades
e assim a minha vida passa...

neste idioma de cabelos e quartos de hotel
vejo a tirania cega da paixão
o seu lamento ferido
feliz como um pássaro melodioso
atravessando os olhos

bebo-te velozmente antes que seja tarde
mas com a doçura calma de quem desfruta um vinho

colheita tardia esta, meu amor
os teus mamilos como sangue novo
nos meus dentes presos da melancolia








José Manuel de Vasconcelos








17 junho 2012




Os desertos






Compraste comigo um livro sobre o nomadismo
sem te dares conta que era a voz do deserto
o que naquele fim de tarde se confiava a nós
na suavidade angulosa das nossas palavras
em que nem o vento nem a luz rude e triste já cadente
deixava pressentir nada de bom

há muito que vivíamos num oásis
de momentos e de arados
remexendo os nossos mundos mais perdidos
mas as areias nasciam em pleno dia
sobre a nudez das coisas arrasadas

a paisagem ia-se tornando mais árida, anunciando
a ilusão das dunas, a erosão dos trilhos
e o meu sofrimento era muito antigo
fundido na vertigem funda nunca terminada

quando me despedi de ti pressionando-te o braço
pensava em canela e outras especiarias
mas era a solidão pesada e errante do deserto
o que ardia a meus pés





José Manuel de Vasconcelos