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11 janeiro 2018





Quem somos




Quem somos, senão o que imperfeitamente 
sabemos de um passado de vultos
 
mal recortados na neblina opaca,
 
imprecisos rostos mentidos nas páginas
 
antigas de tomos cujas palavras
 

não são, de certo, as proferidas,
 
ou reproduzem sequer actos e gestos
 
cometidos. Ergue-se a lâmina:
 
metal e terra conhecem o sangue
 
em fronteiras e destinos pouco
 

a pouco corrigidos na memória
 
indecifrável das areias.
 
A lápide, que nomeia, não descreve
 
e a história que o historia,
 
eco vário e distorcido, é já
 

diversa e a si própria se entretece
 
na mortalha de conjecturados perfis.
 
Amanhã seremos outros. Por ora
 
nada somos senão o imperfeito
 
limbo da legenda que seremos.
 




Rui Knopfli




14 dezembro 2017






O Escriba Acocorado




Sentado na pedra de ti próprio, 
não tens rosto, senão o que,
 
de anónimo, a ela afeiçoou
 
a mão que assim te quis. Do resto,
 
do que de individualidade, porventura,
 

em ti existiria, se encarregou
 
a persistente erosão dos dias. De vago,
 
neutro olhar sem órbitas, permaneces
 
hirto, fitando sempre mais além
 
da morna penumbra que te envolve
 

no halo intemporal que é, do tempo,
 
o nexo único. Nesse olhar
 
de não ver tudo se inscreve,
 
repensa e adivinha: teus limites
 
e, ainda, o que excederia tua humana
 

estatura. Sem contornos, em sombra
 
e sono te diluis no que, de ti,
 
nunca saberemos. Porém, límpida
 
e escorreita, até nós chega a laboriosa
 
escrita que no papiro ias lavrando.
 




Rui Knopfli






21 outubro 2017







A melhor das distracções





Hoje fui grão-senhor
- marajá, bey, khan,
um nababo qualquer desses com poderes
de Vida e Morte.
Recusei com desdém
oitenta camelos carregados de sedas, ouro,
pedrarias, - o costume.
Afastei enfadado
as inomináveis iguarias que me foram servidas
e nem sequer me dignei
olhar as dezasseis virgens sortidas,
fruto do último saque.
Onde me diverti a valer,
foi com as línguas que mandei cortar.






Rui Knopfli






03 setembro 2017






Mania do suicídio




Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.





Rui Knopfli






30 julho 2017






Amor das palavras





Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor de teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.





Rui Knopfli






26 março 2015





Uniforme de poeta





Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu

chapéu de coco em fibra sintética,

sacudi a densa poeira das asas encardidas

e, dependurada a lira a tiracolo,

saio para a rua

em grande uniforme de poeta.

Tremei guardas-marinhas,

alferes do activo em

situação de disponibilidade:

meu ridículo hoje suplanta

o vosso e nele se enleia e perturba

o suspiro longo das meninas

romântico-calculistas.







Rui Knopfli