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03 setembro 2016
O embuste global
Um nariz aquilino é tão bom como um nariz arrebitado para atingir os orgasmos tântricos. Desde que a pessoa não esteja muito constipada, qualquer nariz serve. Mas as manhas do Dianho são muitas e muito manhosas. E as pessoas andam convencidas de que, se não tiverem um nariz XPTO, vá-se lá saber o que isso seja!, não arranjam namorado e isto, em grande medida, é mesmo assim. Mais vale não ter namorado do que andar a aparar o nariz e a dar dinheiro a médicos gangsters. Como se dizia antigamente: que vão roubar prà estrada.
Adília Lopes
13 setembro 2015
Dinheiro e
Literatura
A viúva do
escritor
pedia esmola
à minha avó
a título de
viúva
do escritor
*
Não percebo
nada
de
literatura
a personagem
principal
é a tia
Emiliana
porque é
quem tem o
dinheiro
*
O livro
inédito
do tio
escritor
havia de
fazer
a fortuna
das
herdeiras
mas o editor
pagou pouco
ou a prima
Berta mentiu
Adília Lopes
03 setembro 2015
A cura
1
O poema
é mais
emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a
mesma
lesma é o
meu lema
2
O poema não
é
forma de
bolo
é barca de
tolo
(o tolo
saúda o velho mar
a seguir
despede-se ou despe-se)
3
O poema é
esconjuro do
escuro
ao meio-dia
coisa de
Kepler
e de bruxas
(eclipses e
elipses)
4
Vão-se os
poemas
fique o
poeta
por muito
pateta
para bater
na neta
5
A ira
pôs-me a
dançar
o vira
(só a
coitada
fica
sentada)
Adília Lopes
21 agosto 2015
30 abril 2015
18 abril 2015
Louvor do lixo
para a Amra
Alirejsovic
(quem não
viu Sevilha não viu maravilha)
É preciso
desentropiar
a casa
todos os
dias
para adiar o
Kaos
a poetisa é
a mulher-a-dias
arruma o
poema
como arruma
a casa
que o
terramoto ameaça
a entropia
de cada dia
nos dai hoje
o pó e o
amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão
come-se
ou deita-se
fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar
o lixo)
o poema
desentropia
o pó
deposita-se no poema
o poema
cantava o amor
graças ao
amor
e ao poema
o puzzle que
eu era
resolveu-se
mas é
preciso agradecer o pó
o pó que
torna o livro
ilegível
como o tigre
o amor não
se gasta
os livros
sim
a mesa cai
à passagem
do cão
e o puzzle
fica por fazer
no chão
Adília Lopes
02 abril 2015
Memórias
Quando tinha
12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens,
escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas.
Estava apaixonada e não era correspondida.
escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas.
Estava apaixonada e não era correspondida.
Adília Lopes
[para miss nashe]
12 março 2015
A minha
bisavó
Tive uma
bisavó que deu tantos beijinhos a uma imagem do Menino Jesus que o Menino Jesus
sumiu.
É uma placa com a reprodução de um quadro de Correggio, Nossa Senhora de mãos inclinadas a adorar
o Menino nas palhinhas. Agora Nossa Senhora parece que está a aquecer as mãos numa fogueira.
Não quero parecer irreverente.
É uma placa com a reprodução de um quadro de Correggio, Nossa Senhora de mãos inclinadas a adorar
o Menino nas palhinhas. Agora Nossa Senhora parece que está a aquecer as mãos numa fogueira.
Não quero parecer irreverente.
Adília Lopes
27 fevereiro 2015
20 novembro 2014
06 junho 2014
04 maio 2014
Para um vil criminoso
Fizeste-me
mil maldades
e uma
maldade muito grande
que não se
faz
acho que
devo ter sido a pessoa
a quem
fizeste mais maldades
nem deves
ter feito a ninguém
uma maldade
tão grande
como a que
me fizeste a mim
não sei se
tens remorsos
tu dizes
que não tens remorsos nenhuns
porque
dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também
sou uma vil criminosa
mas não
para ti
desconfio
que tens o remorso
de ter
alguns remorsos
por me
teres feito mil maldades
e uma maldade
muito grande
a maldade
muito grande está feita
e não se
faz
acho que
essa maldade muito grande
nos
aproximou um do outro
em vez de
nos afastar
mas para
mim é um drôle de chemin
e para ti
também deve ser
mas com um
vil criminoso nunca se sabe
Adília
Lopes
28 agosto 2013
Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!
Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!
Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!
Se tu amas por causa da inteligência, então não me ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios
Matemáticos da Filosofia Natural!
Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!
Adília Lopes
30 julho 2013
Não
gosto tanto
de
livros
como
Mallarmé
parece
que gostava
eu
não sou um livro
e
quando me dizem
gosto
muito dos seus livros
gostava
de poder dizer
como
o poeta Cesariny
olha
eu
gostava
é
que tu gostasses de mim
os
livros não são feitos
de
carne e osso
e
quando tenho
vontade
de chorar
abrir
um livro
não
me chega
preciso
de um abraço
mas
graças a Deus
o
mundo não é um livro
e
o acaso não existe
no
entanto gosto muito
de
livros
e
acredito na Ressurreição
dos
livros
e
acredito que no Céu
haja
bibliotecas
e
se possa ler e escrever
Adília
Lopes
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