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28 setembro 2014





Deus podes ser silêncio…




Deus podes ser silêncio mas eu uso palavras
faço amor contigo com advérbios
e às vezes violento-te com as frases
que me sussurravas antes
da tua seiva manhã
quando te encosto a mim e tu água
e crias outra e outra língua






Pedro Sena-Lino





12 fevereiro 2014







todas as cidades estão ancoradas...






todas as cidades estão ancoradas num verso
que alguém deixou aceso na boca de um morto
há pedaços de sol que o deitam à distância
de um coração instável sugando a cada passo
a morte e as suas levíssimas esquinas
constatações ruínas de estar vivo

fiz do livro um corpo bíblico de mim
e do Deus vulgar por minha causa
penetrei o corpo à esquina do calvário
e Jerusalém nem por isso ficou presa à minha língua










Pedro Sena-Lino







22 março 2013










as pessoas morrem nunca partem de nós, eu separei-te
de mim, cortei-te-me. em cinemas imaginários filmados por
mãos iluminadas usei teu corpo. coloquei o deserto do teu
coração rente à minha boca. lavaram-me o desespero as
lágrimas que choravas no escuro. parti-te.
estou a fazer-te luto. desejei-te tanto. discuti-te tanto
contigo. agora percebo que te atirei demais contra tantos
poemas. agora encontramo-nos. eu tenho de colar-te os restos
para conseguir ver-te para além do que trago molhado nos
olhos, acabou o passeio no meu jardim interior, pleno de
estátuas quebradas, as noites acabo sempre assim, abraçado ao
rosto restos da pedra, agradecendo-lhe as imagens.









Pedro Sena-Lino









20 novembro 2012











[cantigo colorido]







ela diz sujeito
ele diz complemento


ela diz nós
ele diz eu


ela diz amor
ele diz cama


ela diz sempre
ele diz hoje


ela diz eu caso
ele diz um caso


ela escreve
ele rasura


ela sente
ele cala


ele é ele
ela é ambos


mas por isso é que só ela se multiplica










Pedro Sena-Lino










21 outubro 2012













chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia
era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos


chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita


chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço











Pedro Sena-Lino















14 julho 2012











podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue


podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois


daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido


não é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites


as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca


podes levar os dias que trouxeste











Pedro Sena-Lino