13 abril 2021





 

desenhar  caminhos  que  se  bifurcam

 

 

 

 

 

este tempo incréu foi incapaz de matar deuses

ei-los incandescentes na beleza de uma só frase

que o coração tenta validar repetindo palavras

essas que não foram feitas de tinta ou de letras 

e sim do sangue seco de ateus que nelas crêem

 

 

exercício de simplicidade e ritual de paciência

escrever é desenhar caminhos que se bifurcam

 






07 abril 2021

 



tive mais um sonho bizarro em que entrava o mark sandman:
desta vez estava-se numa esplanada, algures numa pequena vila
mexicana. ele aparecia vindo do nada e sentava-se na mesa onde
eu palrava com amigos. depois pegava numa garrafa de corona ali
pousada, dava duas grandes goladas, sorria e dizia-me: buena, buena












01 abril 2021

 









fábula  de  aurélia  e  albrecht

 



era primeiro de abril. pôs-se a imaginar uma história

de amor, toda ela passada no interior de um museu:

aurélia e albrecht, em paredes opostas da última sala,

olhavam-se fixamente, sem pestanejar, concentrados

e alheios a toda a gente que neles reparava. qualquer

visitante que ali passava sabia instintivamente haver

entre eles um amor impossível de pôr em palavras, e

por essa razão nada mais há a dizer sobre o assunto.

além disso era primeiro de abril, talvez fosse mentira.








29 março 2021

 



Exercício


 

 

Primeiro esquece que horas são

durante uma hora

fá-lo regularmente todos os dias

 

depois esquece qual é o dia da semana

faz isto regularmente durante uma semana
depois esquece em que país estás

e pratica fazendo-o em companhia

durante uma semana

depois fá-los em conjunto

durante uma semana

com o mínimo de pausas possível

 

a seguir a estes esquece como somar

ou subtrair

não há diferença

podes trocá-los

após uma semana

ambos irão ajudar-te mais tarde

a esquecer como contar

 

esquece como contar

a começar pela tua própria idade

a começar pelo contar para trás

a começar pelos números pares

a começar pelos algarismos romanos

a começar por fracções de algarismos romanos

a começar pelo velho calendário

seguindo para o velho alfabeto

seguindo para o alfabeto

até tudo ser contínuo de novo

 

continua a esquecer elementos

a começar pela água

prosseguindo para a terra

erguendo-se em fogo

 

esquece o fogo

 

 




W. S. Merwin

(tradução imperfeita minha)





24 março 2021

 


 

Bravura

 

 

 

Sentindo-se maduro

 

                   o limão,

 

atira-se sem medo,

deixando um novo hematoma
no chão do quintal.

 

 


 

Maria F. Roldão

 





19 março 2021

 



 

 

it's enough to be your lover
sings someone in a song,

making it sound so easy

 

 

 


Machi Tawara

 







17 março 2021

11 março 2021

 



[e.f.e.m.é.r.i.d.e]


festeja hoje cem risonhas translações solares
o meu querido piazzolla, o único que me fez
desejar ser capaz de um dia dançar um tango



 






04 março 2021

 


 

Pasatiempo

 



 

Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta

un charco era un océano

la muerte lisa y llana

no existía

 

luego cuando muchachos

los viejos eran gente de cuarenta

un estanque era océano

la muerte solamente

una palabra

 

ya cuando nos casamos

los ancianos estaban en cinquenta

un lago era un océano

la muerte era la muerte

de los otros

 

ahora veteranos

ya le dimos alcance a la verdad

el océano es por fin el océano

pero la muerte empieza a ser

la nuestra

 

 

 



Mario Benedetti







25 fevereiro 2021

 




d e s c u b r a
a s 
s e t e
d i f e r e n ç a s :



entre estas duas interpretações de uma canção a propósito de algo mais do que isto



a) a original, de cinco maníacos


 
b) a cópia, de dez mil maníacos








23 fevereiro 2021




 

escadas  rolantes

 

 

 

 

em cinquenta e nove, o ano em que nasci, foram inauguradas

as primeiras escadas rolantes em portugal, nos desaparecidos

armazéns grandella. e desde então tem sido sempre a descer.

 







11 fevereiro 2021

 



Separação

 

 

 

A tua ausência atravessou-me

Qual linha por uma agulha.

Tudo o que faço está costurado com a sua cor.

 

 

 


W. S. Merwin






06 fevereiro 2021

 



quarto  crescente

 

 

 


 

mas um tempo houve em que dois corpos inseparáveis

se uniam e despiam a noite num quarto adormecido

 

 

lutavas contra o mar que bebias na água salgada das

línguas enquanto diminuía a lua de espuma lá fora

 

 

e os meus dedos cegos percorriam os caminhos da tua

pele nesse quarto minguante que não parava de crescer

 





23 janeiro 2021

 


 

 

‹‹ A morte de Emine atirou-me de cabeça para um vazio, como se o ramo a que estava agarrado se tivesse partido de repente. Esta perda abalou-me tanto, que nos primeiros tempos me pareceu uma coisa absolutamente sem sentido. Também não consegui perceber quão profundamente aquela morte me afectara. Tudo o que sentia era um peso terrível, negro, dentro de mim. Mas havia ainda outra coisa – uma sensação de libertação. A provação chegara ao fim. Emine não voltaria a morrer; não teria de voltar a passar por mais nenhuma doença. Na minha mente, ela iria permanecer como era. Sem dúvida que me esperavam outros terrores, que haveria outras catástrofes à minha espera. Mas o meu pior medo – o de perder Emine – desaparecera. Nunca mais tornaria a ver o mundo pelo prisma da sua doença ou da sua dor; nunca mais o medo subiria em mim ao ponto de asfixiar todo o meu ser.

O nosso lar fora destruído; deixado sozinho com dois filhos, perdi a vontade de trabalhar e, pior ainda, perdi toda a minha fé. Mas já não tinha medo. O pior que podia ter acontecido já acontecera. Agora era livre. ››


  

Ahmet Hamdi Tanpinar, in O instituto para o acerto dos relógios

 



(é tão estranho constatar estes feitiços do tempo: como um livro fabuloso escrito em meados do século passado tem o poder de,
ao ser lido agora, conseguir retratar com total precisão o que era a minha vida há uma década)

17 janeiro 2021




 

 

Ítaca

 


 

 

O amado não precisa
de viver. O amado

vive na cabeça. O tear

é para os pretendentes, encordoado

como uma harpa com fio de sudário branco.


 

Ele era duas pessoas.

Ele era o corpo e a voz, o fácil

magnetismo de um homem vivo, e depois

o sonho ou imagem que se desenrola

moldado pela mulher manobrando o tear,

ali sentada na sala cheia

de homens sem imaginação.


 

Como lamentas

o mar enganado que tentou

levá-lo para sempre

e apenas levou o primeiro,

o actual esposo, tens de lamentar

estes homens: eles não sabem

para o que estão a olhar;

eles não sabem que quando alguém ama assim

o sudário se torna um vestido de noiva.

 

 

 



Louise Glück






(tradução imperfeita minha)