17 dezembro 2018






Tinhas as bocas cosidas num sopro

Tinhas nas coxas,
no correr inflamado das ondas, a quebra
maleficente das ostras

Tinhas por dentes
linho, pérolas e fímbria
Por todo o corpo pintavam-te de Índia -

(o pano, dobrado,
unia ponta com ponta,
seios com sexo e boca)

Tinhas as duas bocas
abertas juntas na minha
opus nocturna




Andreia C. Faria





15 dezembro 2018





aqui (há mais de cinco anos) 
falei deste azul de jimmy reed.
mas esta cover dos mercury rev
com a voz da menina sandoval 
definitivamente é qualquer coisa












09 dezembro 2018





para  quem  quer  conciliar  religião  e  ciência  




quando eva passou a maçã a adão, este rodou-a,
elegendo uma porção esférica com casca ainda
intacta, para a trincar também. gostou daquele
contraste entre a textura adocicada e uma certa
acidez do sumo. mas logo no momento seguinte
pensou naquilo que acabara de fazer e sentiu um 
calafrio percorrer-lhe o corpo. e esse tremor deu
lugar a um desconforto envergonhado: ganhara
consciência do seu acto, cometera uma traição
e iriam ser os dois expulsos do paraíso celeste.
os seus dedos ficaram subitamente dormentes,
olhou para a mão e, num gesto de repugnância,
deixou cair o proibido fruto que afinal permitira.


numa trajectória vertical de aceleração numérica
igual a nove vírgula oito metros por segundo ao
quadrado, essa maçã exibindo duas dentadas foi
cair na cabeça de um senhor de apelido newton.





( lê-se melhor aqui )

07 dezembro 2018





[e.f.e.m.é.r.i.d.e]




festeja hoje sessenta e nove risonhas translações solares
o senhor waits. que contes muitas, thomas alan, de
preferência sempre no lado errado da estrada.










06 dezembro 2018





falta-lhe a nossa luz e a calçada tem outras cores.
mas é igualmente banhada por um rio e, quando o
dia é de sol, por vezes até parece que se assemelha...





[a room with a view]





02 dezembro 2018






Todos falam
do que encontraram no caminho.
Alguns falam também
do que não encontraram.
E uns tantos referem-se
ao que não é possível encontrar.


Mas há quem fale de um encontro
que surge de uma emboscada entre as mãos
como uma andorinha que nunca foi parte
de nenhum bando,
como um gesto secreto que recolha
a compaixão que falta nos encontros.


Todo o encontro nasce
como a água perante a sede.
O resto é uma miragem
que não chega sequer
a desconcertar o deserto.




Roberto Juarroz





29 novembro 2018





foi há mais de seis anos que falei nesta canção da minha vida
há dias voltei a ouvi-la, no excelente "later..." do jools holland
e é verdade, sentei-me ao pé de mim, e... old loves die hard











25 novembro 2018





O livro



Percorro livre o livro.
Não tenho cartilha. Bebo as letras.
Risco o livro. Leio em voz alta.
Liberto-me do livro e livre
atravesso as ruas. Mas ao livro
regresso e nele me deito.
A ternura das páginas íntimas.
O esboço de outro livro. Nos livros
soletro o que neles não está.




Eduardo Guerra Carneiro





13 novembro 2018





curriculum  vitæ





quando sem qualquer motivo aparente vim a este mundo,
da mais tenra idade e comprovado aspecto recém-nascido,
era na verdade já muito muito velho. a parteira soube-o de
imediato, pois em vez de chorar recitei um verso da ilíada,
e a minha certidão de nascimento, assente em pergaminho
enrugado, logo foi cuidadosamente depositada na torre do
tombo. o leite materno soube-me a vinho acre e a posterior
cerimónia de baptismo teve a solenidade da extrema-unção.
guarda-se em mim a imagem das primeiras letras ensinadas,
creio terem sido as últimas que esqueci. talvez isso explique
os espaços em branco neste meu lacónico curriculum vitæ.





06 novembro 2018





a cossoul pediu-me um cartaz
foi o que se conseguiu arranjar










[estão todos convidados. e fica agora na rua nova da piedade, 66.
é aquela rua que começa quase em frente à assembleia da república
e liga a rua de são bento à praça das flores. prometo falar de pedras.]






05 novembro 2018






No tempo em que eu cabia deitada
no banco de trás do carro,
eras tu ao volante,
óculos de sol,
a dividir a mão esquerda
entre o volante e a janela aberta
para livrar o cigarro da cinza,
a dividir a mão direita
entre o volante e manete das mudanças,
a dividir os pés
entre a embraiagem, o travão e o acelerador,
a dividir os olhos
entre a estrada, a mãe e o espelho retrovisor.




Raquel Serejo Martins





01 novembro 2018









[retrato do artista quando jovem]


prova em colódio húmido, envernizada, sobre folha de alumínio







27 outubro 2018





adivinhas


  

diz-me lá, qual é a coisa qual é ela que
quando se parte jamais se conserta mas
uma vez consertada nunca pode partir,
quem é que escreve essas tuas palavras
que passaram além da dor sem dobrar o
bojador, quantos poetas há dentro de ti,
que voz vem no som das ondas que não 
é a voz do mar, que canção entoaram as
sereias quando apenas ulisses as ouviu e
quais são os poemas que oculto em mim


porque o que eu queria mesmo era saber
qual é a cor do cavalo branco de napoleão
após o teres mergulhado em tinta invisível





23 outubro 2018





ontem preferi mostrar um livro
mas se aqui estivesses ontem
festejarias cinquenta anos








we were but stones... your light made us stars




22 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás




[6] :: ...e nasceu





19 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás





[5] :: a fábula náufraga esculpida em 36 pedras de calcário comum





17 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.




[4] :: prova de miolo





15 outubro 2018






Podia talvez esquecer algo que escrevi
e voltar a escrevê-lo da mesma maneira.

Podia escrever a vida que vivi
e voltar a vivê-la da mesma maneira.

Podia esquecer a morte que amanhã morrerei
e voltar a morrê-la da mesma maneira.

Mas há sempre um grão de poeira
a deter a engrenagem das repetições:

Podia esquecer algo que amei
mas não voltar a amá-lo da mesma maneira.



Roberto Juarroz





12 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.





[3] :: prova de capa





09 outubro 2018






Passei a tarde no supermercado,
os pêssegos em promoção,
as ameixas gordas,
três tristes figos abandonados,
lamentavelmente murchos os espargos,
o corredor dos congelados a pedir casaco,
não encontrei um único iogurte fora de prazo,
não encontrei nas caixas nenhum ovo partido,
não encontrei arroz basmati,
não encontrei chá de alcachofra,
não encontrei um único sorriso,
nem no rapaz da charcutaria
que enquanto avia clientes
fatia fiambre, fatias fininhas,
as pessoas gostam das fatias fininhas,
canta as canções da telefonia,
pergunto-me de onde lhe virá a alegria,
vim sem compras,
feliz por poder fugir à fila da caixa,
não precisava de víveres,
precisava sentir que vivia, há vidas assim.


  

Raquel Serejo Martins





08 outubro 2018





confesso que toda esta polémica sobre algum mobiliário indecoroso,
em que aparentemente se censuraram fotografias de maples torpes,
me trouxe à memória a decoração do famoso korova milk-bar...
sharpen you up and make you ready for a bit of the old ultra-violence










03 outubro 2018





Tenho tido deus de sobra.

Devo recortar os seus contornos
e recuperar a fala,
antes que se apaguem os meus limites.

Devo reconhecer uma vez mais o campo
e dizer-me três ou quatro palavras,
antes que tudo se unifique.

Devo transplantar o que amo
e assegurar-lhe pelo menos uma fonte,
antes que me vire de costas.

Devo salvar algumas coisas
ainda que não me salve,
antes que tudo se perca.

E para isso é preciso
que deus me vá faltando.




Roberto Juarroz




29 setembro 2018




o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.




[2] :: capa terminada





26 setembro 2018




o começo de um livro é precioso, 
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.




[1] :: paginação terminada





22 setembro 2018





na loja  da  poesia







é fácil, encontras-me quase sempre ao balcão na loja da poesia
sim, poderei estar ocupado a colocar etiquetas com o preço em
certas palavras mas prometo atender-te com um sorriso cúmplice,
posso mesmo garantir que ali encontrarás certamente esse poema 
que há tanto tempo procuras. se não me vires, toca à campainha,
por vezes estou sentado à secretária a redigir cartas comerciais ou
a verificar facturas, desculpa, infelizmente já nem a poesia é grátis







19 setembro 2018





deveria estar a acabar, mas não parece. e nestas noites cálidas recordo a visão
de max richter do verão de vivaldi. há um inerente 'descubra as sete diferenças'
mas, apesar das variações e recriações, aquela beleza permanece e está lá toda.






16 setembro 2018





Cais da estação




Preciso reunir condições de conforto para o Inverno.
Por mim passava o tempo a partir lenha,
mas não tenho onde guardá-la. Nem lenha tenho.


Podia passar o Inverno a reunir condições de conforto.
Por mim passava o tempo a partir lenha,
mas não tenho onde queimá-la. Nem lenha tenho.

O rio está seco mas o canavial é farto.
Talvez construa uma barca.





Marta Chaves



15 setembro 2018








i love the smell of salsa acabada de picar
in the morning. it smells like... victory!