17 fevereiro 2024

 


 

 

Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do chão.

 

 

 


Daniel  Faria

 

 

 


 



31 janeiro 2024






leituras  de  janeiro




 


 


 


 


  


 




:: notas ::

 

let me tell you

shirley jackson

ed. penguin

 

coligido e editado por dois dos seus filhos, este livro-memória funciona como uma homenagem a shirley jackson. inclui histórias e ensaios (muitos eram inéditos) e ainda desenhos e outras confissões da autora sobre a arte da escrita e a vida familiar. alguns dos textos são brilhantes.

 


the analog sea review - number two

vv. aa.

ed. analog sea

 

neste segundo número - repleto de ensaios, trechos e poemas de diversos autores - destacam-se temas como a representação na escrita, o processo criativo e a solidão. estes pequenos volumes da analog sea (de capa, paginação e acabamento primorosos) são dos livros mais apetitosos ao tacto e ao olfacto dos últimos tempos.

 


the shell collector

anthony doerr

ed. fourth estate

 

reunião de contos e “histórias curtas”. a escrita de doerr tem sempre algo de mágico e magnético. 

 


nervo nº 20

vv. aa.

ed. nervo

 

parabéns! chegou ao número vinte esta revista de poesia, uma obstinação vitoriosa da editora maria f. roldão, que em dois dos números ousou mesmo incluir poemas meus.

 


grandes esperanças

charles dickens

ed. e-primatur

 

mais um capítulo no saboroso regresso a dickens...


 

the lost bookshop

evie woods

ed. onemorechapter

 

uma trama com piada. uma livraria aparentemente desaparecida entre dois edifícios, e que apenas consegue ser vista vista por alguns. e a primeira livreira (que aprendeu o ofício com sylvia beach, da famosa shakespeare and co.) tem uma história para contar...


 

vivian maier developed

ann marks

ed. atria books 

 

apesar desta excelente biografia, vivian maier permanece envolta em mistério. como foi possível a esta ama tirar mais de cem mil fotografias ao longo de quase quatro décadas, quase todas nunca reveladas durante a sua vida. o que torna esta uma fotógrafa única é que esses instantâneos não foram obtidos por encomenda, nem com o intuito de serem expostos ou publicados, em busca dos expectáveis reconhecimento artístico e retorno financeiro. as suas imagens são testemunhos silenciosos da sua visão, empática e espontânea, da vida quotidiana de pessoas de todas as idades e classes sociais, captando retratos e panoramas em enquadramentos inesperados e sempre geniais.

 

 






30 dezembro 2023

 
 


o único balanço anual que verdadeiramente
me interessa pode ser consultado aqui.
porém, em resumo e a meu favor, posso dizer que mantive
uma boa média mensal e li cerca de quarenta livros de poesia.




leituras  de  dezembro
























:: notas ::

 

musical tables

billy collins

ed. random house

 

trata-se da mais recente recolha de poesia de collins, dedicada a “poemas curtos” (o que quer que isso seja...). mesmo a menor extensão não apaga nos textos os traços da sua assinatura: temas peculiares, postura coloquial, o poder das imagens sugeridas e sempre aquele algo inesperado que parecia escondido.


 

a festa acabou

vv. aa.

ed. shinigami

 

recolha de 91 haikus “finais”, isto é, os últimos que terão sido escritos por igual número de poetas e monges japoneses ao longo dos últimos cinco séculos. em alguns a noção de morte está presente, mas em quase todos permanece a beleza da existência e tudo o que de maravilhoso a natureza abarca.

 


the analog sea review - number one

vv. aa.

ed. analog sea

 

trata-se de uma revista literária off-line porque cabe no bolso mas não te acorda de noite. é feita de árvores, linho e óleo - e as imagens que contém não aparecem num ecrã. tem capa dura, acabamento primoroso, cheiro e textura. é uma selecção de textos, imagens e poemas subordinados a um ou vários temas, nunca mencionados (neste número destaco a solidão criativa e o desapego ao virtual). só é distribuída em livrarias independentes (em lisboa, na snob), não há sites nem vendas directas ou on-line. e, com 4 números já publicados, é seguramente um dos projectos editoriais mais bonitos e fascinantes de sempre.


 

quatro reencarnações

max ritvo

ed. cutelo

 

max ritvo faz-me recordar daniel faria - há chamas brilhantes que se extinguem muito cedo, cedo demais.


 

paris : une anthologie littéraire

vv. aa

ed. parigramme

 

livro de cabeceira: mais de mil páginas e trechos de quase duzentos autores não chegam para cronologicamente evocar a cidade mais representada na literatura. há os óbvios (rabelais, montaigne, voltaire, dumas, hugo, balzac, nerval, flaubert, proust, vian, queneau, modiano...), mas também os inesperados e surpreendentes (casanova, heine, james, strindberg, rilke, zweig, kafka, hemingway, cortázar...). fascinante.



dickens at christmas

charles dickens

ed. vintage

 

mais uma prenda para a mesa de cabeceira: tudo o que dickens secreveu sobre o natal, incluindo os famosos cinco contos (com o do senhor scrooge à cabeça), as histórias que publicou em jornais e revistas e excertos “natalícios” dos cadernos de pickwick. jingle bells, etc...


 

a frágil reparação da minha morte

eduarda chiote

ed. officium lectionis

 

com selecção e notas de maria f. roldão, eis uma óptima abordagem à poesia de eduarda chiote, essa lúcida “poeta de afectos ácidos”, para quem “se um livro é escrito e um poeta morre, não se perde grande coisa”.



the madman’s gallery

edward brooke-hitching

ed. simon & schuster

 

imaginem que um milionário louco e excêntrico se dispunha a reunir numa colecção particular mais de uma centena de pinturas, gravuras, ilustrações e até esculturas, e cada obra escolhida segundo critérios de beleza indesmentível e pela história incrivelmente bizarra por trás da sua criação. é essa a galeria que este livro maravilhoso nos dá a conhecer. 

 

 

 

 



30 novembro 2023

 




leituras  de  novembro







 














:: notas ::

  

aliss at the fire

jon fosse

ed. fitzcarraldo

 

escrito no começo do milénio, este belíssimo texto constitui uma primeiras incursões de fosse na novela curta, após alguns anos mais dedicados ao teatro. numa narrativa contínua, quase onírica, ficamos a saber que uma mulher ainda espera pelo homem, mais de vinte anos após o seu desaparecimento nas águas de um fiorde. e nessa espera , em que a memória do homem continua activa, ficamos a saber a história da sua trisavó, do seu tio avô que também se afogou quando era criança e da presença do legado familiar no imenso peso da solidão.

 


we have always lived in the castle

shirley jackson

ed. penguin

 

cheguei tarde a miss jackson? provavelmente. e procurei uma edição nacional, mas só encontrei uma versão em acordês, novilíngua que não domino. e foi assim que dei com a merricat blackwood... a par do holden caulfield do salinger, passa a ser uma teenager do coração.

 


a casa sombria

charles dickens

ed. e-primatur

 

em conjunto com os cadernos de pickwick, mais um capítulo no saboroso regresso ao universo de dickens...

 


the lottery and other stories

shirley jackson

ed. penguin

 

belíssima e divertidíssima recolha de contos. não apenas pela bizarra distopia inerente a “the lottery”, mas sobretudo por autênticas pérolas como “the daemon lover” e “my life with r. h. macy”, três exemplos do que deve ser um conto e que merecem incorporar qualquer antologia.

 

 




12 novembro 2023

 



 

Sei que soa igual

 

a análise
sintáctica

ou a de urina

ou a morfológica

ou a de sangue

oferecem resultados idênticos

 

mas não te enganes:

tu e eu já não falamos o mesmo idioma.

 

 

 



José María Zonta

 





31 outubro 2023

  




leituras  de  outubro





 


 


 


 


 


 




:: notas ::

 

the collected writings of

joe brainard

ed. library of america

 

diários, entrevistas, textos avulsos e “i remember” relembrado.

 


a aranha irlandesa

billy collins

ed. do lado esquerdo

 

bela tradução desta antologia de poemas de collins recolhidos a partir de diversos livros, um bom cartão de visita para quem ainda o não conhece. para mim, um poema de collins é um convite a tomar parte numa conversa. claro que, como leitor, sei que vou ouvir mais do que falar, mas não deixa de ser um diálogo. um bom poeta sabe de cor como funciona esta armadilha, o modo de tornar irresistível esse convite - e depois cada poema fala mesmo connosco. quando collins emprega uma linguagem mais coloquial e parece confessar nada de especial ter a dizer, as suas palavras conduzem-nos a lugares inesperados onde a melancolia da memória se funde com a surpresa da realidade, sempre com pitadas de humor e ironia que tornam os poemas ainda mais sumarentos do que poderíamos imaginar.

 


love in a time of hate

florian illies

ed. profile books

 

os loucos anos vinte estão a acabar e a década seguinte promete... marlene dietrich, após uma noite no teatro, beija o marido e a filha e vai explorar os ousados cabarets berlinenses. jean-paul sartre marca um primeiro encontro com simone de beauvoir, porém a menina bem comportada não aparece. thomas e klaus mann, pai e filho, voltam a discutir, nem sabem bem por que razão, embora a homosexualidade inconfessada esteja sempre presente. pablo picasso pinta marie-thérèse walter mais uma vez e depois despede-se para ir jantar com a esposa e a filha. josephine baker anuncia o casamento com um obscuro conde italiano e lee miller chega a paris, anunciando a um atónito man ray que vai ser sua discípula. annemarie schwarzenbach apaixona-se perdidamente por erika, a filha de thomas mann, enquanto scott e zelda fitzgerald começam a zangar-se com frequência. entretanto, ludwig wittgenstein encontra marguerite respinger e percebe que a lógica nunca está presente quando o amor acontece...



tempos difíceis

charles dickens

ed. e-primatur

 

juntamente com “oliver twist”, mais um capítulo no saboroso regresso ao universo de dickens...

 


a noite canta os seus cantos

jon fosse

ed. artistas unidos

 

uma das primeiras peças de fosse, onde a sua temática do desespero irremediável está mais bem retratada. o ritmo dos diálogos, quase sempre numa oscilação entre o repetitivo e o encantatório, é uma antevisão de algo muito presente na sua prosa mais actual.

 


notas sobre a melodia das coisas

rainer maria rilke

ed. averno

 

se o mundo é um palco - para além dos actores óbvios - deveríamos ouvir as vozes que não falam, o canto oculto que liga a vida humana à natureza. quem não sabe ouvir a melodia das coisas nunca compreenderá a beleza do mundo. um grande texto de um jovem rilke, aprimorado por um posfácio do tradutor joão barrento.

 


dickens

peter ackroyd

ed. vintage

 

versão condensada (e mesmo assim com seiscentas páginas) desta biografia de dickens, um exemplo maior do que deve ser um relato baseado na relação “vida-obra”.