19 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás





[5] :: a fábula náufraga esculpida em 36 pedras de calcário comum





17 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.




[4] :: prova de miolo





15 outubro 2018






Podia talvez esquecer algo que escrevi
e voltar a escrevê-lo da mesma maneira.

Podia escrever a vida que vivi
e voltar a vivê-la da mesma maneira.

Podia esquecer a morte que amanhã morrerei
e voltar a morrê-la da mesma maneira.

Mas há sempre um grão de poeira
a deter a engrenagem das repetições:

Podia esquecer algo que amei
mas não voltar a amá-lo da mesma maneira.



Roberto Juarroz





12 outubro 2018





o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.





[3] :: prova de capa





09 outubro 2018






Passei a tarde no supermercado,
os pêssegos em promoção,
as ameixas gordas,
três tristes figos abandonados,
lamentavelmente murchos os espargos,
o corredor dos congelados a pedir casaco,
não encontrei um único iogurte fora de prazo,
não encontrei nas caixas nenhum ovo partido,
não encontrei arroz basmati,
não encontrei chá de alcachofra,
não encontrei um único sorriso,
nem no rapaz da charcutaria
que enquanto avia clientes
fatia fiambre, fatias fininhas,
as pessoas gostam das fatias fininhas,
canta as canções da telefonia,
pergunto-me de onde lhe virá a alegria,
vim sem compras,
feliz por poder fugir à fila da caixa,
não precisava de víveres,
precisava sentir que vivia, há vidas assim.


  

Raquel Serejo Martins





08 outubro 2018





confesso que toda esta polémica sobre algum mobiliário indecoroso,
em que aparentemente se censuraram fotografias de maples torpes,
me trouxe à memória a decoração do famoso korova milk-bar...
sharpen you up and make you ready for a bit of the old ultra-violence










03 outubro 2018





Tenho tido deus de sobra.

Devo recortar os seus contornos
e recuperar a fala,
antes que se apaguem os meus limites.

Devo reconhecer uma vez mais o campo
e dizer-me três ou quatro palavras,
antes que tudo se unifique.

Devo transplantar o que amo
e assegurar-lhe pelo menos uma fonte,
antes que me vire de costas.

Devo salvar algumas coisas
ainda que não me salve,
antes que tudo se perca.

E para isso é preciso
que deus me vá faltando.




Roberto Juarroz




29 setembro 2018




o começo de um livro é precioso,
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.




[2] :: capa terminada





26 setembro 2018




o começo de um livro é precioso, 
dizia a llansol,
mas o final não lhe fica atrás.




[1] :: paginação terminada





22 setembro 2018





na loja  da  poesia







é fácil, encontras-me quase sempre ao balcão na loja da poesia
sim, poderei estar ocupado a colocar etiquetas com o preço em
certas palavras mas prometo atender-te com um sorriso cúmplice,
posso mesmo garantir que ali encontrarás certamente esse poema 
que há tanto tempo procuras. se não me vires, toca à campainha,
por vezes estou sentado à secretária a redigir cartas comerciais ou
a verificar facturas, desculpa, infelizmente já nem a poesia é grátis







19 setembro 2018





deveria estar a acabar, mas não parece. e nestas noites cálidas recordo a visão
de max richter do verão de vivaldi. há um inerente 'descubra as sete diferenças'
mas, apesar das variações e recriações, aquela beleza permanece e está lá toda.






16 setembro 2018





Cais da estação




Preciso reunir condições de conforto para o Inverno.
Por mim passava o tempo a partir lenha,
mas não tenho onde guardá-la. Nem lenha tenho.


Podia passar o Inverno a reunir condições de conforto.
Por mim passava o tempo a partir lenha,
mas não tenho onde queimá-la. Nem lenha tenho.

O rio está seco mas o canavial é farto.
Talvez construa uma barca.





Marta Chaves



15 setembro 2018








i love the smell of salsa acabada de picar
in the morning. it smells like... victory!





04 setembro 2018






Sou a mulher que se mata por amor a ti
e a mulher por amor de quem se morre
Sou o rapaz que há como uma água turva
na mulher por quem se morre
o bucal húmido do telefone onde ela expia
pensamentos violentos como plumas
Sou a pluma que lhe abre os lençóis
a lasca de madeira sobre a mesa
a lâmina à espera
que a nudez dê frutos
Sou aquilo que fere o rapaz
e a roupa que o tapa
Sou o brilho da janela onde a mulher
se balança




Andreia C. Faria





01 setembro 2018





setembro chegou e recordei hoje uma canção de kurt weill recriada por
lou reed. sabe sempre bem, ouvir um clássico pela voz de um imortal.









28 agosto 2018





nos primeiros dias de setembro vai nascer o 3º número da revista NERVO
que reúne poesia inédita de inúmeros bons autores, portugueses e outros. 
vale a pena, acreditem, apesar de conter alguns poemas escritos por mim.











27 agosto 2018





facto: não há novidade nas novas canções dos c.a.s.
mas por vezes é bom saber que o que é bom se mantém










21 agosto 2018





sobre  o  valor das  palavras





não me parece que o jacarandá queira saber em que estilo
literário é mais fielmente retratado ou, quando floresce, 
de quem é o poema que melhor revela o seu perfume lilás


nem seria educado interrogá-lo sobre o valor das palavras 
ou o que mais gostaria de ler sobre as recordações em nós 
implantadas desses momentos de serena paz à sua sombra


não creio que a emoção da lembrança, grata ou magoada, 
apenas ocorra após um distante afastamento, quando olho
para estas águas sei que o tejo me faz ter saudades de lisboa


nem é tão parvo quanto se pensa endereçar cartas a si próprio,
sempre recebemos, num envelope já conhecido, algumas linhas 
contendo exactamente as palavras que mais desejaríamos ler





19 agosto 2018





volta e meia acontecem-me coisas destas: 
andei a reouvir umas canções do senhor e
agora dois discos antigos dele tornaram-se
a incontornável banda sonora deste verão...









11 agosto 2018





Contra Remedia Amoris




Não sou desse género de mulheres
incapazes de amor e de ternura.
Odeio o sacrifício e repugna-me
a vaidade que nasce da violência,
mas sei o que é valor e o que é sangue.
Quero ser a mulher de um mercenário,
de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo.
Porque sei olhar nos olhos dos homens.
Conheço quem merece a minha ternura.





Amalia Bautista






03 agosto 2018






Prazer. Mais do que isso. A pureza de uma tarde de sol sem
humidade nem nuvens.
Deserto. Não propriamente deserto.
Mas o tumulto estático da areia infinita.

Corpo. Não propriamente um corpo.
Um elo. Um anel não fechado.

Um homem.
Não propriamente um homem.

Um deus.
Exactamente um deus.





Alberto de Lacerda




30 julho 2018





uma das coisas boas da net é o acesso fácil a entrevistas como estas
há tanta, tanta coisa que desconhecia sobre o apocalypse now
e, do nada, aparecem estas duas conversas fascinantes entre
o realizador e o argumentista e um dos actores principais
nunca mais a minha visão sobre o filme será a mesma












28 julho 2018





Eu gosto das palavras




Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança,
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dançe, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.




Manuel Resende





25 julho 2018





a recordar os king crimson revisitei esta pequena maravilha
dos crimson jazz trio, um nocturno mais-que-perfeito baseado
num velho e idolatrado tema do senhor fripp, de que já aqui falei











21 julho 2018






não escrever  nada  sobre ninguém


  


uma vez pediram-me que escrevesse um texto
sobre os heterónimos do fernando antónio,
o que não é coisa que se peça a uma pessoa.
mas lá me enchi de boa vontade, afiei o lápis
e decidi enfrentar a folha de papel em branco,
o desafio habitual. e agora, por onde começar,
perguntei-me, talvez pelo álvaro, sempre era
engenheiro, pensei, mas depois lembrei-me
de que o ricardo era melhor poeta. e estava
quase a citar uma ode quando me ocorreu
que o alberto era o mestre de todos, naquela
sua ingenuidade pastoril. pus-me a imaginar
um jardim de palavras quando recordei que
pensar é estar doente dos olhos, e esse vago
desassossego trouxe-me à memória o pobre
bernardo, o que guardava livros em vez de
rebanhos. foi então que me veio uma ideia
melhor, por que não escrever umas linhas 
sobre o próprio fernando antónio, afinal foi 
ele que imaginou os outros. mas logo então 
percebi que nesses irmãos todos faltariam 
sempre alguns, de tão inumeráveis que são, 
e por esse motivo acabei por pousar o lápis.
é melhor não escrever nada sobre ninguém.





08 julho 2018





encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar.




Renata Correia Botelho





30 junho 2018





Princípio da inércia




As coisas caem
de uma altura incalculável.
Antes fossem estantes de silêncio.

Livre de Newton,
separei para mim
um coração.




Marta Chaves






26 junho 2018





não vale sequer a pena pensar num "descubra as sete diferenças",
tal é o premeditado afastamento desta interpretação do conhecido
standard de gershwin. melhor será ouvir hiromi uehara e desfrutar.