21 março 2019





Aí está a morte. Não aquela cujo aceno
magicamente os tocou na infância, -
mas só a pequena morte que aí se alcança;
a sua própria morte está neles como um fruto
verde e sem açúcar que não vai amadurecer.


Senhor, dá a cada um a sua própria morte.
Uma morte saída dessa mesma vida
em que ele teve amor, miséria e sentido.




Rainer Maria Rilke






18 março 2019






d e s c u b r a
a s 
s e t e
d i f e r e n ç a s :



não me interpretem mal, mas gosto de qualquer cover desta canção
- um original dos pretenders - desde que cantada no feminino. 
como é o caso de




a) miss hynde



b) miss nash









15 março 2019





Trato de escribir en la oscuridad tu nombre


Trato de escribir en la oscuridad tu nombre.
Trato de escribir que te amo.
Trato de decir a oscuras todo esto.
No quiero que nadie se entere,
que nadie me mire a las tres de la mañana
paseando de un lado a otro de la estancia,
loco, lleno de ti, enamorado.
Iluminado, ciego, lleno de ti, derramándote.
Digo tu nombre con todo el silencio de la noche,
lo grita mi corazón amordazado.
Repito tu nombre, vuelvo a decirlo,
lo digo incansablemente,
y estoy seguro que habrá de amanecer.



Jaime Sabines




06 março 2019






Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Há no caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?



Hilda Hilst




04 março 2019





d e s c u b r a
a s 
s e t e
d i f e r e n ç a s :



esta é uma das baladas mais simples alguma vez escritas. o seu autor foi o já desaparecido chris squire, membro fundador dos yes. quase quarenta anos depois, mark kozelek recriou-a para a banda sonora de um filme de sorrentino.




a) onward, mark



b) onward, yes







26 fevereiro 2019






aqui não há ninguém

o quarto é um pedaço de espelho
com uma mulher a um canto
nada mais que um reflexo

de que cor será o dia
quando fechar as janelas?




Maria Sousa





23 fevereiro 2019






adoro esta canção, do primeiro disco de lloyd cole após os commotions,
e acho loveless... full of love. nunca percebi a razão de gostar tanto de
canções tristes - e de estas me porem alegre quando as ouço. neste caso
penso que será também pelo grande poema escondido na letra.






you lie in the heat of a summer haze
and turn it into a winter's tale
you pull down the blinds and shut out the sky
and do what you can to turn the whole thing grey
you're crying and pleading and you're hell just to be with
and you're everything that i'll ever need
so why do you say you love me when you don't?
you fall back into the english way
of feeling only guilt 'cause you feel no pain
you sit and you stare at the empty page
and then you fill it with verse, make the whole thing worse
you lie and you cheat your own mind to believing
that you don't need anything or anyone
so why do you say you love me when you don't?
and why should i feel blue when i do? why?
you lie in the heat of a summer haze
and turn it into a winter's tale
you fall back into the english way
of feeling only guilt 'cause you feel no pain
you're crying and pleading and you're hell just to be with
and you're everything that i'll ever need
so why do you say you love me when you don't?
why should i feel... and who's gonna love the loveless if not you?
why? why?





19 fevereiro 2019





veia  poética

  


a minha musa, se existe alguma que se interesse por aquilo
que escrevo, deve ser a mais reservada de todas as que há,
pensava eu quando era novo, porque durante muitos anos
jamais se dignou aparecer sem convite ou comparecer nos
raros momentos em que foi invocada. mas devo dizer que
um tempo houve em que a sua presença, apesar de fugaz,
se notou e foi nesses raros momentos que me apercebi de
quão dissimulada gostava de ser. a última vez que dei por
ela estava disfarçada de veia poética, um saliente fio azul
no meu antebraço. nunca mais me apareceu, razão pela
qual estou cada vez mais convencido de que foi furtada
e desde então nunca mais dei sangue, nem para análises.






16 fevereiro 2019





quando acordas e o teu dia parece ir ser do pior que há
já sabes, só tens de clicar no clip e cantar o foux da fa fa










11 fevereiro 2019






se um dia tivesse que reduzir a minha biblioteca a 3 livros, quais seriam?
olha, feissebuque, isso é tão impossível que vou desconversar e nomear:





já agora, fica também com a banda sonora a condizer
- por sinal o meu ringtone há não sei quantos anos... 








08 fevereiro 2019






A navalha



as palavras são lixo
armas gastas pelo uso inofensivas

como uma navalha de papel de alumínio





Pablo García Casado




30 janeiro 2019






fábula  para  rui  caeiro





também eu não sei para onde foram os malucos
que vinham pousar-te na mão, calculo que sintam
a tua falta, pairando em círculos e olhando para
baixo, tentando adivinhar para onde terias ido.
isto de nascer com algo a mais desconcerta toda
a gente que não sabe voar. e aqueles malucos só
desciam para se cruzarem contigo sem te verem.
talvez gostassem de pousar numa mão estendida
e apenas tu reconhecesses a sua solidão esquiva,
ou talvez esses loucos se deleitassem no voo, aves
fugindo de gaiolas alheias, sabendo que o pior é
já não poderem enlouquecer, ali parados no ar.
dizias que se morre de muita coisa, na realidade
um pouco todos os dias, sempre muito afinal, é
verdade, mas vive-se de pouca coisa, o essencial,
algo que soubeste o que era antes de todos nós.
agora e na hora da tua morte até eu me sinto um
maluco a pousar-te na mão. deixa-me ficar assim.





26 janeiro 2019






uma confissão após ter revisto com emoção "la grande bellezza":
não sou e nunca fui grande cinéfilo - há meses que não vou ao cinema -
mas devo a este filme, e a esta cena em particular, a coragem final para ter
decidido há cinco anos mandar o emprego à fava, apertar o cinto e mudar de
vida radicalmente - mas durante o percurso descobrir que podemos deixar de ser
infelizes pagando um preço afinal módico. como diz o meu querido jep gambardella:
"a descoberta mais consistente que fiz poucos dias após ter completado 65 anos,
é que não posso mais perder tempo a fazer coisas que não me apetece fazer".









23 janeiro 2019





Ainda não encontrei o meu lugar,
os lugares imóveis, como as árvores,
como as janelas das casas,
apesar de abrirem e fecharem,
as pessoas móveis,
como uma cama, uma mesinha de cabeceira,
como um quadro pendurado na parede,
decorativas e tantas vezes sem valor,
como uma lâmpada,
que podemos desatarraxar e acender dentro de outro candeeiro,
Ainda não encontrei o meu lugar
mas tenho dois amantes,
foge-se da solidão como se pode.




Raquel Serejo Martins





20 janeiro 2019





não, não são demasiado belas as colagens da beta band,
um daqueles grupos que revisito sem saber bem porquê.









15 janeiro 2019




Conselho  amigável  a  imensos  jovens  adultos



Vai ao Tibete.
Anda de camelo.
Lê a Bíblia.
Tinge os sapatos de azul.
Deixa crescer a barba.
Dá a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assina o Saturday Evening Post.
Mastiga com o lado esquerdo da boca apenas.
Casa-te com uma mulher com uma perna e faz a barba com uma navalha de barbear.
E grava o teu nome no braço dela.

Escova os dentes com gasolina.
Dorme todo o dia e trepa às árvores à noite.
Sê um monge e bebe buckshot e cerveja.
Mete a cabeça debaixo de água e toca violino.
Faz dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mata o teu cão.
Concorre a Presidente da Câmara.
Vive num barril.
Parte a cabeça com um machado.
Planta túlipas à chuva.

Mas não escrevas poesia.




Charles Bukowski




09 janeiro 2019






volta e meia regresso aos temas instrumentais de frank zappa. este, um instant classic de virtuosismo, foi gravado ao vivo num concerto no londrino hammersmith odeon em 1979 e, sabendo da sua ironia constante, todos adivinhamos quem serão os cretinos traiçoeiros... em termos técnicos o que tem piada, além daquele inimitável crescendo que começa aos 3:33, é que, a par da sua guitarra, há mais dois instrumentos num solo permanente: o baixo de patrick o'hearn e toda a percussão, a cargo de vinnie colaiuta,
provavelmente o melhor baterista que alguma vez ouvi tocar.










29 dezembro 2018






Cicatriz



A cicatriz das tuas derrotas
é o tapete que te leva
ao prado onde floresce
o jacinto azul





José Tolentino Mendonça




25 dezembro 2018






no ano passado consegui listar todos os livros lidos. 
este ano não o fiz mas registei as leituras no goodreads.
em resumo, o balanço final aponta para 44 ocorrências,
onde noto 15 de poesia e 9 de japoneses, no seguimento
de um propósito anterior. vontades para o ano que vem?
se possível: ler pelo menos 40 livros, aumentar a quota 
de poesia e dedicar-me aos contistas norte-americanos.







entretanto, disponível logo em janeiro, estará a nervo /4
contém belíssima poesia, apesar da minha participação







21 dezembro 2018






Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.

Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.

Sais de ti: o que é que entra?

Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?





Carlos Poças Falcão





17 dezembro 2018






Tinhas as bocas cosidas num sopro

Tinhas nas coxas,
no correr inflamado das ondas, a quebra
maleficente das ostras

Tinhas por dentes
linho, pérolas e fímbria
Por todo o corpo pintavam-te de Índia -

(o pano, dobrado,
unia ponta com ponta,
seios com sexo e boca)

Tinhas as duas bocas
abertas juntas na minha
opus nocturna




Andreia C. Faria