18 junho 2019






Não, isto não é o cais das colunas
não, aqui não há índias nem brasis para encontrar.
Não, isto aqui não é o "Ca d'Oro" 
da longínqua e sumptuosa Veneza
que enriqueceu com as especiarias.
Aqui falamos banalmente
de sargos e enguias.
E na maré baixa,
quando muito baixa,
de lodo.




Fernando Gandra




10 junho 2019






ó  pátria


  

entre as brumas da memória
ó pátria, confessa que já não 
sabes lá muito bem quem és
dou-te um conselho gratuito
toma memofante, pequena,
toma memofante ou gingko
biloba ou magnésio ou uma
vitamina do vasto complexo 
bê ou até extracto de ginseng
caso não queiras tratamentos
com fosfatidilserina, os velhos
ácido fólico ou pregnenolona
depois, ó pátria sente-se a voz
mas muito rouca e nota-se a
garganta inflamada, dás por
ti dependente de pastilhas e
xaropes, descrente no futuro
desanimada, cada vez menos
valente, cada vez mais mortal





09 junho 2019





pus-me a recordar velhos discos dos elbow, 
dei com isto e agora não me sai da cabeça...










07 junho 2019






Entrar em casa, ligar o portátil
e a impressora, rasgar
o que não se aproveita, pegar de novo
no que pode ter alternativa, carregar
de um lado para o outro, do corpo
para o papel e do papel
para o corpo, esmagar uma revolta e propagar
a respectiva contra-revolta, vingar os mortos
e os feridos de ambos os partidos,
jogar o corpo fora, estragar papel.





José Ricardo Nunes




03 junho 2019






fábula  da  ilha  dos  amores 





também de pouco serviu ter-me alimentado de
poesia, bebido os versos até me sentir inebriado,
procurar a aura mágica no espanto das palavras.
e, sem o querer ou ansiar, acabei por memorizar
inúmeros poemas, muitos sem saber até porquê,
saboreando sons, recitando-os de cor para mim.
e reuni na memória um acervo tal que nenhuma
editora desdenharia transformar em colectânea,
talvez crente em que essas imagens poéticas dos
outros pudessem ilustrar as minhas, e desejando
convencer-me de que a leitura de paixões alheias
iria tornar ainda mais perfeita a que sentia por ti.


depois, quando partiste e me abandonaste nesta
ilha dos amores só nossa, tratei de esquecer essas
noventa e cinco estrofes em oitavas decassilábicas
que perfazem o canto nono de uma epopeia menor.






28 maio 2019





d e s c u b r a
a s
s e t e
d i f e r e n ç a s :





let's waste time chasing cars around our heads









if i just lay here would you lie with me and just forget the world?







25 maio 2019






o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.




Manuel Gusmão





20 maio 2019

15 maio 2019





Ordem de despejo




Deu-me ordem de despejo
o senhorio do meu coração,
o que me fornece água e luz,
diz que gasto muito,
é um preço caro a pagar,
e que deixo a casa fechada
entristecer
ele quer janelas abertas
o riso solto das mulheres
em voo picado
assustado vaguearei pedindo água
luz não
que não quero ver
não quero saber
o que vai ele fazer
com a casa onde me enterrei
sobre mim deixei crescer uma árvore





Ana Paula Inácio







11 maio 2019






ainda hoje um dos hinos da minha geração
[que (ou)viu nascer o punk e o que se lhe seguiu]


anger is an energy - but i could be wrong






08 maio 2019






catedral  em chamas




ignoras o lamento de quem observa uma
catedral em chamas porque te reconheces 
invencível, feita da única matéria que um 
fogo jamais poderá consumir: a memória.
penso naqueles homens que durante anos
viveram em casas provisórias à tua sombra
e todas as manhãs, assim que despertavam,
a primeira coisa que viam era aquele grupo
de pedras empilhadas na torre a ser erigida.
invejo-os imenso, eles que souberam antes
dos outros que havia algo além das simples
três dimensões de um volume, eles felizes
por ajudarem o tempo a ser esse luminoso
escultor, eles a bordo de um sereno veleiro
onde repicavam sinos nos mastros calcários,
eles afortunados que puderam ler em cada
pedra muda uma letra do seu próprio nome.







01 maio 2019






Proposta  de  epitáfio




Em criança fui imortal. Em adolescente
rebelei-me contra o que agora sou.
Em jovem fui selvagem. Fiz sofrer
e sofri muito mais do que quis.
Pouco a pouco a morte (era semente
e parecia alheia) foi crescendo
dentro de mim, feliz, recuperando
o que era seu e eu soube de que era feia
a vida já bem tarde. Na velhice
beijava a água e abraçava o ar
como o doente abraça a esperança
ou o náufrago a espera. Nunca o mundo
foi tão belo como antes de partir.
Agora já não existe. Agora sonho
que o que já não sou volta a nascer.





Juan Vicente Piqueras




28 abril 2019




[auto-retrato alheio]



há palavras que nos beijam como se tivessem boca, confessava o o'neill.
e há palavras que são sombras de árvores ou um bálsamo da terra,
um pressentimento de espuma, um incêndio do tacto, uma reverência
ao desconhecido, admitia o ramos rosa. eu sou bem mais prosaico.
para mim (perdoa-me, mãe), com três letrinhas apenas se escrevem
algumas das palavras maiores que o mundo tem. e entre essas há 
aquelas que nos obrigam a elevar o olhar, admirando-as com 
reverência no plano superior em que se encontram. corações ao alto.




( fotografia de vitorino coragem )






26 abril 2019






borges  e  as  rosas




sonhou as rosas, rosas de ninguém
de substâncias de sombras evanescentes,
e na roda das pétalas ausentes
ficou o olhar perdido, no vaivém

das brisas no jardim do esquecimento.
tinham carne de noite e de perfume
e tacteou-as devagar, o gume
afiou-se num macio desalento

de lhes ter dado o nome: rosas, rosas
factícias alastrando o seu vermelho
de golfadas de sangue ao vão do espelho
das águas e das luas ardilosas.

e soube que o real era essa imagem
devolvida no espelho, de passagem.






Vasco Graça Moura






20 abril 2019







A casa do pobre é como um tabernáculo
onde o eterno se transforma em alimento,
e quando vem à noite ela entra calmamente
em si mesma, em largos círculos,
e, lenta, em si se recolhe, plena de ecos.

A casa do pobre é como um tabernáculo.

A casa do pobre é como a mão da criança,
que não agarra o que os adultos mandam;
apenas um escaravelho de tenazes atraentes,
um seixo redondo transportado pelo ribeiro,
a areia fluida, os búzios sonantes;
suspensa como uma balança,
ela acusa o mais leve peso
com os seus pratos oscilando longamente.

A casa do pobre é como a mão da criança.

E, como a terra, assim é a casa do pobre:
o fragmento de um cristal futuro,
ora claro, ora escuro, em sua queda,
pobre como a pobreza quente de um estábulo - 
e todavia noites há em que ela é tudo
e todas as estrelas saem dela.





Rainer Maria Rilke






14 abril 2019





há mais de cinco anos falei aqui deste clássico instantâneo
assinado por herbie hancock. gostei de o ver/ouvir recriado
pelo sr. goldblum, cada vez menos actor e mais pianista.










09 abril 2019






o  que quero  fazer  contigo




o pablo neruda diz: quero fazer contigo
o que a primavera faz às cerejeiras. mas
depois chega a elvira sastre e diz: quero
fazer contigo tudo o que a poesia ainda
não escreveu. queridos escritores, peço-
-vos encarecidamente: por favor, vejam
lá se conseguem chegar a um acordo. é
que eu tenho esta mania de ir procurar
inspiração em versos alheios e, perante
tal disparidade lida nos vossos poemas,
assim fico bastante confuso e sem saber
exactamente o que quero fazer contigo.