19 janeiro 2022

 



quando me perguntam o que é o trabalho de encenação
numa ópera, lembro-me sempre deste belo exemplo:











13 janeiro 2022

 




revi há dias este velho thriller de brian de palma.
o tema da banda sonora permanece imaculado...












10 janeiro 2022


 


 

montes  de  tempo

 

 

  

 

temos montes de tempo, disse-me a funcionária

do arquivo, provavelmente consciente da minha

ansiedade perante a dimensão da busca e a cada

vez mais próxima hora de encerramento daquele

serviço. montes de tempo, repetiu, talvez com o

intuito de me tranquilizar. e eu pus-me a pensar

 

 

em montes feitos de tempo, imaginando breves

montículos de alguns segundos apenas, colinas

de várias horas, serras durando mesmo alguns

dias e cordilheiras ainda mais demoradas. não

sei se terei deixado escapar um sorriso, porque

a vi olhar para mim com repousada candura e

 

 

quase a ouvi murmurar que tinham himalaias

enquanto a pesquisa genealógica, pela minha

fértil imaginação afinal concluída bem dentro

do horário, revelava inesperados antepassados

tibetanos e até um monge budista para quem o

tempo jamais se medira com base na orografia.

 

 





05 janeiro 2022

 



uma boa surpresa no final do ano passado, o novo dos happy mess
(aqui num clip que rouba imagens de "week-end" de jean-luc godard)











01 janeiro 2022

 


 

 


As  visões  de  Hildegarda  de  Bingen

 

 

 


Até aos quarenta anos

insistiram em dar-me óculos para ver ao longe.
Depois dos quarenta anos,

insistiram em dar-me óculos para ver ao perto.

Vi mal metade da minha vida.

A outra metade? Também.

A paisagens enevoadas

sucederam-se ensonadas letras:
chovia entre mim e a realidade,

como se fosse Inverno sempre

e fosse o Norte sempre mais além.

 

Agora fecho os olhos, abatida,

e pergunto-me se saberei passar

do olhar à visão.

 

 

 


Gemma Gorga

 

 






29 dezembro 2021

 





leituras  de  dezembro





 


 


 


 




:: notas ::


the cat who saved books

sosuke natsukawa

ed. picador

 

um adolescente acaba de perder o seu avô, o dono de uma livraria especial. herdeiro sem rumo encontra um gato que lhe propõe a resolução de alguns labirintos onde há sempre livros em perigo. e, com a ajuda de uma colega, embarcam os três numa jornada de aventura e mistério, rumo a uma solução aparentemente distante mas que esteve sempre bem próxima. bela fábula sobre o poder dos livros e a descoberta de um eu interior.

  


 

poetas de dante (visita ao inferno)

vv. aa.

ed. tinta-da-china

 

ideia ovo-de-colombo de alberto manguel: convidar trinta e quatro poetas portugueses (consagrados e recém-chegados) para ecoar e recriar em poemas originais as suas visões pessoais dos trinta e quatro cantos do inferno de la divina commedia. setecentos anos após a morte de dante alighieri o resultado da visita é necessariamente desigual - até porque nunca todos poderiam abordar o tema da mesma forma -  mas o conjunto nunca desilude, havendo mesmo algumas surpresas, inesperadas e bem conseguidas.

 

 

 

the madman's library

edward brooke-hitchings

ed. simon & schuster

 

para um bibliófilo como eu, nada melhor do que um livro sobre livros. ora imagine-se uma biblioteca coligida por um louco, alguém que apenas deseja coleccionar livros bizarros... pois muitos deles são revelados nesta belíssima edição, profusamente ilustrada, de uma ideia genial e brilhante: reunir livros mágicos, livros que matam, livros escritos a sangue, encadernados com pele humana, livros invisíveis, com títulos estranhos, livros minúsculos, outros gigantescos, livros falsos e muitos repletos de enigmas. como não desejar saboreá-los todos?

 

 

 



:: ::


num balanço final, dizer ainda que, graças aos confinamentos impostos e voluntários,
este ano repetiu muito o anterior: foi decerto um daqueles em que mais li, e fui apontando
os livros no goodreads. faltam alguns, por vezes os melhores, uma vez que muitos editores
independentes rejeitam (e bem) o isbn e as suas obras não integram as bases de dados.
como sempre, voluntariamente não comprei nenhum dos escritos/traduzidos em acordês.

de referir que novelas e poesia tiveram a parte de leão, com cerca de quarenta títulos cada;
e quase trinta de autores japoneses. nas inevitáveis resoluções para o ano que se segue:
repetir a poesia como sempre - e novelas, contos, teatro, etc.. mas desta vez vou tentar ler
mais biografias e, sobretudo, alguns daqueles clássicos intemporais que muitas vezes
sinto terem ficado preteridos ou mesmo esquecidos na minha incompletável bucket list.







14 dezembro 2021

 




 

o poema

não é

uma esfinge

à espera
de ser interrogada

é um campo de batalha

que deve ser conquistado

e todos os métodos

são legítimos

 

 

 



José Pedro Moreira

 

 






06 dezembro 2021

 


 

razões  que  a  própria  razão  desconhece

 



 

pensou em começar de imediato com uma citação

e ocorreram-lhe os pensamentos de pascal, é sabido

que o velho blaise assegura sempre belos impactos.

não tanto a estafada frase do coração ter razões que

a própria razão desconhece mas, dado tratar-se de

uma comunicação a propósito da racionalidade no

momento da decisão, talvez aquela alegoria dúplice

dos dois excessos, excluir a razão e admitir apenas a

razão. sim, muito adequada ao tema. ou então, para

aliviar o ambiente geral da reunião, poderia ainda

optar por uma mera insinuação literária, recurso

infalível e garantido, evocando a frase de séneca

sobre o escutar da razão, abandonando tudo o que

seduz a multidão. ou mesmo declamar um só verso,

como aquele do pessoa: guia-me a só razão, não me

deram mais guia. ouviu entretanto anunciar o seu

nome, já deviam ser horas, sentiu que alguém ia

caminhando ao seu lado, conduzindo-o para um

estrado. e depois ouviu aplausos, abriu um pouco

a boca e, sem que nada o fizesse prever, soltou um

ligeiro e quase imperceptível bocejo. não de tédio

ou fome, apenas um sinal do corpo relembrando

que um desfile é tão mundano quão efémero e a

vaidade alvo de punição, pelo que deveria tentar

ocupar o resto da manhã a lamber-se ou farejar a

calçada, sabem como é, a ser apenas um sereno

basset, ouvindo as pedras, de orelhas pelo chão.

 







30 novembro 2021

 

 



leituras  de  novembro






 


  


 


 


 






:: notas ::

 

red comet

heather clark

ed. vintage

 

monumental biografia, bem escrita e detalhada, inspirada pela vida poética e trágica de sylvia plath. ao contrário de outras tentativas, mais ocupadas em vasculhar os conflitos com ted hughes e a ver neles a explicação para o seu suicídio, aqui seguimos apenas um percurso da vida atribulada e nunca linear, complexa e fértil, de uma mulher frágil com um enorme talento para a escrita, mostrando as suas forças e fraquezas e tornando-a mais humanda. e, mesmo conhecendo o final, lê-se com avidez e surpresa.

 


 

kokuro

natsume sōseki

ed. penguin

 

um clássico da literatura japonesa, na transição da era meiji para o século xx. um jovem universitário conhece um homem mais velho, a quem trata por sensei. fica a saber que este faz visitas periódicas à campa de alguém muito importante no seu passado. o jovem termina os estudos, é obrigado a ajudar o seu pai moribundo e recebe por fim uma longa carta, uma espécie de testamento póstumo deixado pelo seu amigo sensei. e descobre por fim que este se suicidou por não poder suportar mais o desgosto e o permanente sentimento de culpa por ter sido o causador de uma outra morte auto-infligida. cem anos depois, não perdeu brilho nem actualidade.

 


 

the books of jacob

olga tokarczuk

ed. fitzcarraldo

 

felizmente, o maior do ano (novecentas páginas) é também um dos melhores. foi o livro que deu a conhecer a futura prémio nobel, uma incursão no romance histórico com uma versão literária do que foi esse estranho movimento chamado frankismo. em meados do séc. xviii o jovem judeu jakub lejbowicz chega a uma cidade da polónia e, vítima de êxtases e outros delírios místicos, muda de nome e inventa uma persona, jacob frank, que vai renegar o talmude e reinterpretar o zorah e a kabala, obtendo um número crescente de seguidores fanáticos. acusado de traição pelos rabis, vai refugiar-se na turquia, converte-se ao islão e logo depois regressa, abraçando o cristianismo. alguns tomam-no por messias, outros por um mero arrivista, desonesto e dado a práticas imorais. sempre considerada herética pelas várias religiões que adopta, a sua seita vai ser perseguida até à extinção. pelo meio, e como lhe é habitual, a autora narra-nos inúmeros episódios familiares e políticos paralelos, num retrato fascinante de uma europa em mudança acelerada.

 








14 novembro 2021

 



 

Penélope  escreve  a  Ulisses

 

 



e se quando regressares

o mundo já não

existir?

 

 

 

 



José Carlos Barros

 






03 novembro 2021

 


 

 

pela  velha  estrada  do  sal

 

 

 

 

 

é um outono frio e seco em outubro de mil setecentos e cinco

no norte da alemanha. um jovem de vinte anos guarda as suas

roupas e objectos pessoais em dois sacos e, envolto pela névoa

da manhã, deixa a cidade de arnstadt, a pé pela velha estrada

do sal, em direcção a norte. o seu destino está a quase quatro

centenas de quilómetros, que vai percorrer caminhando com

alegria, animado por uma vontade resoluta. ninguém sabe se

conseguiu cumprir o objectivo de não demorar mais de duas

semanas no trajecto, mas é do conhecimento geral que num

domingo se sentou finalmente num banco da igreja de santa

maria em lübeck, para ouvir tocar um organista de sessenta e

oito anos, que não sabe que lhe resta pouco mais de um ano

de vida, nem quem é o jovem. gostava de ter inventado uma

história assim, nem era sequer necessário que o jovem fosse

johann sebastian bach e esse organista se chamasse dieterich

buxtehude. bastava-me tentar escrever sobre essa certeza que

alguns têm no seu próprio destino. que a genialidade não se 

alimenta de renúncias. e que o caminho se faz caminhando. 

 

 

 

 




28 outubro 2021

 
 



leituras  de  outubro






 


 


 


   


 





 passo a deixar algumas notas de leitura, que habitualmente incluo nos meus comentários
no goodreads. e repeti o processo para todos os meses já passados deste ano.




:: notas ::


regras para a direcção do espírito 

pedro eiras

ed. flop

 

mesmo furtando o cartesiano título, nunca a célebre frase de mallarmé, "le monde est fait pour aboutir à un beau livre", foi tão exacta. no caso presente, o velho stéphane terminou-o e vai mostrar o manuscrito ao seu amigo schrödinger. porém tropeça no seu incerto e não menos famoso gato e as folhas espalham-se pelo chão. conseguirá ele ordená-las de novo? a resposta sim ou não conduz a enredos diversos, que se vão ramificando numa sequência 1,2,4,8,16 - o que remete para o conto de jorge luis borges "el jardín de senderos que se bifurcan" e para a arbitrariedade da sequência narrativa em "rayuela" de julio cortázar (ambos, por sinal, personagens presentes nos textos, tal como outros conhecidos escritores, filósofos, compositores, e tantos outros, todos comentando a ordem do livro perante a desordem do mundo). no final temos 16 histórias possíveis - e muitas mais impossíveis - narradas em 31 episódios, aqui reproduzidos como cartas de um baralho gigante, ilustrado por pedro proença e corporizando um objecto gráfico de labiríntica beleza. um dos livros do ano.

 

 

uma cadeira à neve 

jane hirshfield

ed. do lado esquerdo

 

cartão de visita de uma das maiores poetas americanas actuais. muitos dos poemas aqui presentes, numa edição bilingue, provêm do seu livro "ledger". esta é uma palavra que tanto significa registro contabilístico como pedra lisa sobre uma campa e, só por isso, se nota desde logo o cuidado que a autora empresta à escolha das palavras, incertas e multivalentes, e de como por vezes é difícil vertê-las para outras línguas. mas, por outro lado, e como se lê num dos poemas, as palavras são leais e permanecem ao lado do que nomeiam - e também isso contribui para o seu mistério. esta é uma poesia densa na sua fluidez: mesmo quando o sentido parece linear, numa segunda abordagem deparamos com uma dimensão quase filosófica escondida nas palavras. sempre elas. 

 

 

the death of francis bacon

max porter

ed. faber&faber

 

madrid, maio de 1992. num quarto de hospital gerido por religiosas, o grande pintor está a morrer: a asma que sempre o afligiu deu origem a uma insuficiência respiratória progressiva e fatal. imobilizado, bacon sabe que o fim está próximo, mas isso não impede o artista criador de pintar mentalmente. e são os pensamentos alusivos a essas últimas telas, já toldados pela medicação e ditados por uma inevitável agonia, que max porter transcreve num livrinho magistral sobre a criatividade e a imaginação.