12 junho 2022

 



 

memória

 

 


 

e vinha a luz

e guardava-te

 

e eu guardava-te

também

 

em lugares mais seguros

que fotografias

ou poemas

 

 


 


gil  t.  sousa

 








31 maio 2022






leituras  de  maio






 


 


 


 


 


 





:: notas ::

 

em baixo

leonora carrington

ed. flop

 

depois de um período idílico em saint-martin d'ardéche e após a captura de max ernst, leonora carrington deixa a frança ocupada e parte para espanha. a tensão emocional, a guerra, a fuga e distúrbios alimentares precipitam um esgotamento nervoso, que tem lugar em madrid. é posteriormente internada numa clínica em santander e, vítima de delírios e comportamentos bizarros, sujeita a um tratamento com cardiazol, uma droga na altura ainda experimental, que induzia espasmos semelhantes aos dos electrochoques. este relato perturbador, ditado/escrito em poucos dias alguns anos depois dos acontecimentos reais, mistura realidade e fantasia e torna-se um texto que é ao mesmo tempo diário, descrição surrealista e relato esotérico - tudo numa prosa magnética. o paralelismo com "the bell jar" de sylvia plath tornou-se-me inevitável e, mesmo com todas as imprecisões de um texto baseado numa memória (até que ponto afectada pelas drogas?), nunca desaparece aquela sua ironia muito pessoal que já encontrara nos seus contos. é também impossível não pensar que estamos a seguir o guião de um filme, de enredo complexo, em que nunca se sabe quem são afinal os loucos.

 

 

the expedition

bea uusma

ed. head of zeus

 

há algo de mágico naquilo que foram as aventuras da exploração polar na transição entre os sécs. xix e xx, um tema para mim sempre fascinante. este é um livro raro - parte biografia, parte investigação, parte diário pessoal - escrito por alguém improvável: cem anos depois, uma médica sueca toma conhecimento da expedição andrée, em que 3 homens iriam sobrevoar o pólo norte transportados num balão de hidrogénio. partiram em 1897 e durante 33 anos não se soube deles, até serem encontrados os seus restos mortais numa pequena ilha deserta. a partir dos seus diários recuperados foi possível traçar o seu percurso, desde a avaria no balão até à interminável caminhada pelo gelo. quando morreram tinham comida, abrigo e armas... o que teria sucedido? a autora, na sua demanda pessoal, fornece algumas hipóteses, num relato perturbador e cativante. e passa a haver mais alguém interessado em visitar a solidão branca da white island.

 

 

elizabeth finch

julian barnes

ed. jonathan cape

 

mesmo quando barnes parece testar a paciência dos leitores - falo da segunda parte da novela, dedicada a uma espécie de biografia de juliano, o apóstata - a sua prosa mantém a assinatura pessoal. para mim é um dos grandes escritores vivos e esta narrativa da relação entre uma professora de 'cultura e civilização' e um seu aluno está ao nível do melhor que o autor já nos deu (penso sobretudo em "a sense of an ending"). a professora (elizabeth finch) entretanto falece e deixa os seus livros e apontamentos ao aluno (neil, o narrador); a referida segunda parte é no fundo um ensaio que este julga ter ficado a dever, uma homenagem ao espírito independente e livre de alguém para quem o ensino mais não era do que um incentivo para cada um começar a pensar - e pela sua cabeça.  

 

 

um diário de leituras

alberto manguel

ed. tinta da china

 

li o original (a reading diary) há uns bons anos, uma ideia curiosa e que funciona bem: durante um ano ler um livro por mês, e anotar tudo o que a sua leitura suscitou. esta edição nacional - em português são e escorreito, note-se - tem o atractivo de lhe ser incluído vinte anos depois um subsídio, literalmente um "décimo terceiro mês", dedicado a um livro da nossa literatura: o "viagens na minha terra". manguel e garrett, quem diria?

 

 

four lost cities

annalee newitz

ed. w. w. norton

 

como se perde uma cidade? este livro tenta responder analisando quatro delas, há muito desaparecidas: pompeia, çatalhöyük, angkor e cahokia. quanto à primeira sabe-se porquê: o vesúvio sepultou-a sob alguns metros de cinzas incandescentes no ano 79. mas as outras, aparentemente, eram aglomerações urbanas estáveis e prósperas e, assim sendo, por que razão as populações as teriam abandonado? pelas escavações, análises e inúmeros estudos realizados sabe-se que esse abandono foi gradual e prolongado, como se a vivência em grupo tivesse perdido atractivos e os habitantes optado por uma vida mais próxima da natureza, regressando ao nomadismo ou a pequenos grupos ou aldeias. mas seria essa a única causa?

 






28 maio 2022

 



obituários

 

 


 

após terem contraído vícios eternos durante

a perpétua juventude, aos vinte e sete anos

desapareceram jim morrison, jimi hendrix,

kurt cobain, janis joplin, brian jones e amy

winehouse, de apelido adequado por sinal,

todos eles membros desse malfadado grupo.

 

 

mas há também o clube dos quarenta e seis,

a idade com que desapareceram alguns dos

escritores mais famosos, como albert camus,

oscar wilde, charles baudelaire, george orwell,

david foster wallace e gérard de nerval. outros

sócios são o senhor lovecraft e aquele coronel

lawrence da arábia. apenas georges perec terá

faltado, morto a quatro dias desse aniversário.

 

 

e lembrando que ditos a pedido do médico

muita gente era auscultada pela última vez,

aos trinta e três desapareceram jesus cristo e

alexandre magno. ora, segundo os registos de

uma conservatória, até eu contraí matrimónio,

tendo aí falecido um rapaz solteiro e promissor.

 

 





16 maio 2022

 




Em  parte  incerta

 

 

 

 

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista

ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada

por um vento que soprasse às avessas.

 

Desde então tem estado

em parte incerta.

 

Mas pelo menos podia telefonar.

 

 

 



A. M. Pires Cabral







08 maio 2022







uma das minhas canções favoritas assinadas por kurt wagner
e seguramente uma das tais dez que levava para a ilha deserta




 







03 maio 2022

 


 

Soneto  menor  à  chegada  do  verão

 


 

 

Eis como o vento
chega de súbito,
com seus potros fulvos,
seus dentes miúdos,

seus múltiplos, longos
corredores de cal,
as paredes nuas,
a luz de metal,

seu dardo mais puro
cravado na terra,
cobras que despertam
no silêncio duro –

Eis como o verão
entra no poema.

 

 

 


 

Eugénio de Andrade

 






30 abril 2022

 





leituras  de  abril





 


 


 


 


 


 




:: notas ::

 

vivian maier : a photographer's life and afterlife 

pamela bannos

ed. univ. of chicago press

 

com mais de oitenta anos, vivian maier passava os dias sentada num banco de jardim de um subúrbio de chicago, a olhar o lago michigan. alguns residentes conheciam-na de vista, muitos julgavam tratar-se de uma sem-abrigo. a verdade é que nesse momento, sem que ela o soubesse, as suas espantosas fotografias começavam a aparecer em blogs, replicadas sem fim em sites e portais na internet - e tudo porque o seu espólio de dezenas de milhares de fotos, a maioria em rolos ainda por revelar, tinha ido a leilão por ela ter deixado de pagar a renda do armazém onde o guardava. miss maier faleceu pouco depois e, ao contrário do que se quis fazer crer na altura, não se tratava de uma nanny que se divertia a tirar fotografias mas sim de uma enorme fotógrafa que apenas procurou essa ocupação como meio de sustento. sem descendentes directos, o seu legado ainda hoje se vai discutindo em tribunais. nesta biografia fica a história de uma mulher que optou deliberadamente por não divulgar a sua obra, um mistério quase tão grande como o de cada um dos seus retratos, que me remetem sempre para a bela definição de diane arbus: uma fotografia é um segredo sobre um segredo; quanto mais nos diz, menos sabemos.

 


montaigne

stefan zweig

ed. pushkin press

 

no último ano da sua vida, já exilado no brasil, zweig (re)descobriu montaigne através de um exemplar dos seus "ensaios". e terá percebido de imediato, como acontece com qualquer leitor, que montaigne os escrevera directamente para si. todos aqueles pensamentos passados para o papel, na quietude do seu quarto na torre, não são lições sobre como viver a vida, mas induzem em nós a vontade de reflectir em como viver a nossa vida - e é nesse momento que percebemos que nada saberemos do mundo (a célebre pergunta "que sais-je?" que montaigne mandou gravar) enquanto não formos conhecedores do nosso eu mais íntimo, porque apenas quem pensa livremente em si e para si se torna verdadeiramente livre, sendo essa liberdade a base onde repousam os alicerces da felicidade e da plenitude de uma vida bem vivida. um zweig atormentado percebeu-o melhor do que ninguém e, talvez por isso, este ensaio biográfico seja tão brilhante, um marco inultrapassável no género. bela edição de bolso, com uma gravura de dalí na capa e uma excelente introdução de will stone.


 

klara and the sun

kazuo ishiguro

ed. faber & faber

 

num futuro próximo (e algo distópico) vendem-se amigos artificiais, criações robóticas alimentadas a energia solar, capazes de entreter e fazer companhia a jovens com problemas. narrada na primeira pessoa por uma dessas máquinas, de seu nome klara, esta é uma narrativa perturbadora e irresistível, em que cedo nos apercebemos da sua capacidade de observar, criar empatias e, tal como nós, tentar controlar emoções. desde a sua presença inicial na loja, à espera que alguma criança a queira, até ao posterior envolvimento com a família que a acolhe, klara pressente que os humanos são complicados e que as relações interpessoais são o mais difícil de entender - embora isso não a impeça de dar o seu melhor e fazer tudo para que a vida da criança que a escolheu seja mais feliz. no final, muitos anos depois, é abandonada num depósito de artigos obsoletos, à espera que o tempo de vida útil se esgote, enquanto as recordações guardadas na sua memória, lentamente se vão apagando... um ishiguro inesperado, mas ao seu melhor nível.


 

the library : a fragile history

andrew pettegree + arthur der weduwen

ed. profile books

 

o que é uma biblioteca? um conjunto de livros e documentos reunidos pelo gosto de os ver agrupados ou uma tentativa infrutífera de abarcar todo o conhecimento possível? uma vaidade de ricos e poderosos para exibir orgulhos pessoais ou uma nostalgia inconsolável pela reconhecida impossibilidade de replicar a desaparecida alexandria? um recurso evidente para satisfazer pelo acesso à leitura o desejo de uma comunidade ávida de educação e cultura ou um mero devaneio estéril onde se gasta de forma inútil o dinheiro dos contribuintes? este livro não dá respostas, mas ajuda a perceber a necessidade destas e muitas outras perguntas, num percurso fascinante pela frágil história da biblioteca.



 

 

 



03 abril 2022



 


 

nova  fábula  de  pedro  e  o  lobo

 

 

 

  

era uma vez um rapaz chamado pedro e que era pastor.

o trabalho era aborrecido porque as ovelhas eram tristes

e caladas. como se sentia bastante só, resolveu gritar que

andava por ali um lobo feroz. na aldeia todos o ouviram

e logo acorreram para auxiliar pedro a salvar o rebanho.

porém, não havia lobo nenhum - apenas pedro a rir-se de

todos eles por os ter enganado. claro que na vez seguinte

pedro não soltou brados por ter visto um lobo, sabia bem

que ninguém acreditaria nisso. preferiu gritar que sentira

a presença de um furioso tigre e os aldeões foram de novo

ludibriados. uns dias depois clamou ter visto pegadas de

um enorme urso enraivecido mas, desta vez, ninguém da

aldeia o foi ajudar porque, mesmo ao longe, toda a gente

havia reconhecido o velho tyrannosaurus rex esfomeado.

 






30 março 2022






leituras  de  março






 


 


 


 


 


 





:: notas ::



grief is the thing with feathers

max porter

ed. faber & faber

 

brilhante fábula sobre o sofrimento inerente ao luto. a resistência de um pai e dois filhos pequenos a lidar com a perda súbita da mãe é corporizada num corvo, que entra e se instala na casa. é negro e sombrio como a mágoa permanente que julgamos inultrapassável, mas ele veio para ajudar ("ficarei até que não precisem mais de mim"). e num texto genial, que se desenrola como uma peça teatral ou um longo poema em prosa, os meninos, o pai e o corvo aprendem a conviver e, por fim, a sublimar a dor. este texto disse-me imenso porque há uma dúzia de anos também passei por isso, quando perdi a mãe dos meus filhos. porém, o meu corvo - nesses momentos todos temos direito a um - foi antes algo líquido dentro de um grande tanque azul, a piscina onde o luto se foi por fim afogando.

 


 

14 poetas portuguesas escolhem inês

inês lourenço

ed. da lado esquerdo

 

saúda-se a edição desta bela recolha de poemas de inês lourenço (permanece uma das vozes mais sólidas da nossa poesia), escolhidos pela mão de 14 poetas portuguesas. o que eu mais gosto na sua poesia é a facilidade desarmante com que as palavras me evocam imagens e, talvez por isso, prefiro os textos que espelham o quotidiano de um modo vagamente irónico - por vezes até algo sarcástico - mas sempre elegante, numa escrita sóbria feita de palavras certeiras. alguns destes poemas (rua de camões, roteiro para um paraíso privado, carta de agosto, pequena voltagem, quebra-luz, verbi gratia, consoantes átonas e escrita criativa, por exemplo) são do melhor que a poesia portuguesa actual nos deu. ficou porém excluído um dos meus preferidos, da epistolografia, que à laia de vingança - servida fria como aquela célebre dobrada - segue em comentário.


 

 

ulysses

james joyce

ed. alma books

 

li o "ulisses" na velha edição da difel ainda nos anos oitenta. mas tive de espreitar esta edição, revista e anotada, para comemorar o centenário da publicação original, surgida em paris pela chancela da livraria shakespeare & co.. o prefácio de sam slote só tem o defeito de ser curto e, para quem gosta de questionar o paralelismo entre a odisseia de homero e o livro de joyce, lembro que o ulisses clássico cruza mares e aventuras para regressar a casa, onde uma esposa fidelíssima o aguarda. já leopold bloom, o ulisses de 16 de junho de 1904, é obrigado a percorrer em dublin a epopeia de uma errância voluntária e forçada, esperando o decurso das horas nesse dia infinito para voltar a casa o mais tarde possível, precisamente por saber que molly, a sua penélope, o está a trair. o que me leva sempre a uma velha interrogação, se cada um tem ou não a ítaca que merece.

 

 

 

madhouse at the end of the world

julian sancton

ed. penguin

 

bem (d)escrito e documentado, este é o relato empolgante da aventura trágico-marítima do "belgica", o navio protagonista da primeira grande exploração à antártida, e que ficou preso no gelo no inverno de 1898, apenas conseguindo libertar-se um ano depois. o drama dos problemas psíquicos de uma tripulação confinada durante uma noite que durou meses (um manicómio no fim do mundo), agravado pelo aparecimento do escorbuto, só foi superado graças à tenacidade de alguns - com destaque para o médico frederick cook e um tripulante norueguês chamado roald amundsen, precisamente o homem que alguns anos mais tarde seria o primeiro a atingir o pólo sul.