16 fevereiro 2019





quando acordas e o teu dia parece ir ser do pior que há
já sabes, só tens de clicar no clip e cantar o foux da fa fa










11 fevereiro 2019






se um dia tivesse que reduzir a minha biblioteca a 3 livros, quais seriam?
olha, feissebuque, isso é tão impossível que vou desconversar e nomear:





já agora, fica também com a banda sonora a condizer
- por sinal o meu ringtone há não sei quantos anos... 








08 fevereiro 2019






A navalha



as palavras são lixo
armas gastas pelo uso inofensivas

como uma navalha de papel de alumínio





Pablo García Casado




30 janeiro 2019






fábula  para  rui  caeiro





também eu não sei para onde foram os malucos
que vinham pousar-te na mão, calculo que sintam
a tua falta, pairando em círculos e olhando para
baixo, tentando adivinhar para onde terias ido.
isto de nascer com algo a mais desconcerta toda
a gente que não sabe voar. e aqueles malucos só
desciam para se cruzarem contigo sem te verem.
talvez gostassem de pousar numa mão estendida
e apenas tu reconhecesses a sua solidão esquiva,
ou talvez esses loucos se deleitassem no voo, aves
fugindo de gaiolas alheias, sabendo que o pior é
já não poderem enlouquecer, ali parados no ar.
dizias que se morre de muita coisa, na realidade
um pouco todos os dias, sempre muito afinal, é
verdade, mas vive-se de pouca coisa, o essencial,
algo que soubeste o que era antes de todos nós.
agora e na hora da tua morte até eu me sinto um
maluco a pousar-te na mão. deixa-me ficar assim.





26 janeiro 2019






uma confissão após ter revisto com emoção "la grande bellezza":
não sou e nunca fui grande cinéfilo - há meses que não vou ao cinema -
mas devo a este filme, e a esta cena em particular, a coragem final para ter
decidido há cinco anos mandar o emprego à fava, apertar o cinto e mudar de
vida radicalmente - mas durante o percurso descobrir que podemos deixar de ser
infelizes pagando um preço afinal módico. como diz o meu querido jep gambardella:
"a descoberta mais consistente que fiz poucos dias após ter completado 65 anos,
é que não posso mais perder tempo a fazer coisas que não me apetece fazer".









23 janeiro 2019





Ainda não encontrei o meu lugar,
os lugares imóveis, como as árvores,
como as janelas das casas,
apesar de abrirem e fecharem,
as pessoas móveis,
como uma cama, uma mesinha de cabeceira,
como um quadro pendurado na parede,
decorativas e tantas vezes sem valor,
como uma lâmpada,
que podemos desatarraxar e acender dentro de outro candeeiro,
Ainda não encontrei o meu lugar
mas tenho dois amantes,
foge-se da solidão como se pode.




Raquel Serejo Martins





20 janeiro 2019





não, não são demasiado belas as colagens da beta band,
um daqueles grupos que revisito sem saber bem porquê.









15 janeiro 2019




Conselho  amigável  a  imensos  jovens  adultos



Vai ao Tibete.
Anda de camelo.
Lê a Bíblia.
Tinge os sapatos de azul.
Deixa crescer a barba.
Dá a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assina o Saturday Evening Post.
Mastiga com o lado esquerdo da boca apenas.
Casa-te com uma mulher com uma perna e faz a barba com uma navalha de barbear.
E grava o teu nome no braço dela.

Escova os dentes com gasolina.
Dorme todo o dia e trepa às árvores à noite.
Sê um monge e bebe buckshot e cerveja.
Mete a cabeça debaixo de água e toca violino.
Faz dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mata o teu cão.
Concorre a Presidente da Câmara.
Vive num barril.
Parte a cabeça com um machado.
Planta túlipas à chuva.

Mas não escrevas poesia.




Charles Bukowski




09 janeiro 2019






volta e meia regresso aos temas instrumentais de frank zappa. este, um instant classic de virtuosismo, foi gravado ao vivo num concerto no londrino hammersmith odeon em 1979 e, sabendo da sua ironia constante, todos adivinhamos quem serão os cretinos traiçoeiros... em termos técnicos o que tem piada, além daquele inimitável crescendo que começa aos 3:33, é que, a par da sua guitarra, há mais dois instrumentos num solo permanente: o baixo de patrick o'hearn e toda a percussão, a cargo de vinnie colaiuta,
provavelmente o melhor baterista que alguma vez ouvi tocar.










29 dezembro 2018






Cicatriz



A cicatriz das tuas derrotas
é o tapete que te leva
ao prado onde floresce
o jacinto azul





José Tolentino Mendonça




25 dezembro 2018






no ano passado consegui listar todos os livros lidos. 
este ano não o fiz mas registei as leituras no goodreads.
em resumo, o balanço final aponta para 44 ocorrências,
onde noto 15 de poesia e 9 de japoneses, no seguimento
de um propósito anterior. vontades para o ano que vem?
se possível: ler pelo menos 40 livros, aumentar a quota 
de poesia e dedicar-me aos contistas norte-americanos.







entretanto, disponível logo em janeiro, estará a nervo /4
contém belíssima poesia, apesar da minha participação







21 dezembro 2018






Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.

Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.

Sais de ti: o que é que entra?

Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?





Carlos Poças Falcão





17 dezembro 2018






Tinhas as bocas cosidas num sopro

Tinhas nas coxas,
no correr inflamado das ondas, a quebra
maleficente das ostras

Tinhas por dentes
linho, pérolas e fímbria
Por todo o corpo pintavam-te de Índia -

(o pano, dobrado,
unia ponta com ponta,
seios com sexo e boca)

Tinhas as duas bocas
abertas juntas na minha
opus nocturna




Andreia C. Faria





15 dezembro 2018





aqui (há mais de cinco anos) 
falei deste azul de jimmy reed.
mas esta cover dos mercury rev
com a voz da menina sandoval 
definitivamente é qualquer coisa












09 dezembro 2018





para  quem  quer  conciliar  religião  e  ciência  




quando eva passou a maçã a adão, este rodou-a,
elegendo uma porção esférica com casca ainda
intacta, para a trincar também. gostou daquele
contraste entre a textura adocicada e uma certa
acidez do sumo. mas logo no momento seguinte
pensou naquilo que acabara de fazer e sentiu um 
calafrio percorrer-lhe o corpo. e esse tremor deu
lugar a um desconforto envergonhado: ganhara
consciência do seu acto, cometera uma traição
e iriam ser os dois expulsos do paraíso celeste.
os seus dedos ficaram subitamente dormentes,
olhou para a mão e, num gesto de repugnância,
deixou cair o proibido fruto que afinal permitira.


numa trajectória vertical de aceleração numérica
igual a nove vírgula oito metros por segundo ao
quadrado, essa maçã exibindo duas dentadas foi
cair na cabeça de um senhor de apelido newton.





( lê-se melhor aqui )

07 dezembro 2018





[e.f.e.m.é.r.i.d.e]




festeja hoje sessenta e nove risonhas translações solares
o senhor waits. que contes muitas, thomas alan, de
preferência sempre no lado errado da estrada.










06 dezembro 2018





falta-lhe a nossa luz e a calçada tem outras cores.
mas é igualmente banhada por um rio e, quando o
dia é de sol, por vezes até parece que se assemelha...





[a room with a view]





02 dezembro 2018






Todos falam
do que encontraram no caminho.
Alguns falam também
do que não encontraram.
E uns tantos referem-se
ao que não é possível encontrar.


Mas há quem fale de um encontro
que surge de uma emboscada entre as mãos
como uma andorinha que nunca foi parte
de nenhum bando,
como um gesto secreto que recolha
a compaixão que falta nos encontros.


Todo o encontro nasce
como a água perante a sede.
O resto é uma miragem
que não chega sequer
a desconcertar o deserto.




Roberto Juarroz





29 novembro 2018





foi há mais de seis anos que falei nesta canção da minha vida
há dias voltei a ouvi-la, no excelente "later..." do jools holland
e é verdade, sentei-me ao pé de mim, e... old loves die hard











25 novembro 2018





O livro



Percorro livre o livro.
Não tenho cartilha. Bebo as letras.
Risco o livro. Leio em voz alta.
Liberto-me do livro e livre
atravesso as ruas. Mas ao livro
regresso e nele me deito.
A ternura das páginas íntimas.
O esboço de outro livro. Nos livros
soletro o que neles não está.




Eduardo Guerra Carneiro





13 novembro 2018





curriculum  vitæ





quando sem qualquer motivo aparente vim a este mundo,
da mais tenra idade e comprovado aspecto recém-nascido,
era na verdade já muito muito velho. a parteira soube-o de
imediato, pois em vez de chorar recitei um verso da ilíada,
e a minha certidão de nascimento, assente em pergaminho
enrugado, logo foi cuidadosamente depositada na torre do
tombo. o leite materno soube-me a vinho acre e a posterior
cerimónia de baptismo teve a solenidade da extrema-unção.
guarda-se em mim a imagem das primeiras letras ensinadas,
creio terem sido as últimas que esqueci. talvez isso explique
os espaços em branco neste meu lacónico curriculum vitæ.