16 setembro 2019





in memoriam :: richard theodore otcasek


uma das coisas que tinha piada nos cars, no meio da profusão de bandas do pós-punk, era
aquela capacidade de colar tudo o que eram riffs, coros & outros clichés do rock'n'roll mais
puro e conseguir, ainda assim, ser cool e original. see you ric, watch out the speed limit up there.










14 setembro 2019





La celebrante



Primitiva participas del rito de la palabra
como si fuera un juego
ceremonia de bacantes ebrias
Balbuceas los nombres de los dioses más secretos
con penetrante voz de hereje,
no de celebrante
y cuando cae la noche de los significados
bailas una danza macabra junto a los ídolos caídos.




Cristina Peri Rossi





11 setembro 2019





esta é para mim a melhor cover da icónica canção de bowie.
robert fripp uma vez mais com "aquela" guitarra (já estivera
na gravação original) e os king crimson heróis por um dia.










07 setembro 2019





Com unhas e dentes




Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces. 




Luís Filipe Parrado





02 setembro 2019






as  palavras dos  outros




dizia o o'neill que há palavras que nos beijam como se tivessem boca
acredito nelas, na sua sombra e na sua luz secreta, confessou o juarroz
a mademoiselle houart admitia que as palavras fazem muitos estragos
são anjos de argila, antiquíssimos arqueiros que disparam as flechas de 
erva sobre estrelas vivas, escreveu o ramos rosa, que desconfiava delas
amando muito muito ficamos sem palavras, reconhecia a ana hatherly
eu, mais prosaico, só queria que as palavras dos outros fossem minhas





27 agosto 2019





Dedicatoria



La literatura nos separó: todo lo que supe de ti
lo aprendí en los libros
y a lo que faltaba,
yo le puse palabras.




Cristina Peri Rossi





23 agosto 2019






Contra  a  interpretação




Foi por causa do soneto treze de Shakespeare
que Victoria Ocampo não quis ter filhos. Ao descobrir,
algures entre o quarto e o sétimo verso, que poderia
dar consigo nos braços de quem deixara
de conhecer, como se o amor nascesse
de alguma semelhança de si com outrem, preferiu
não se entregar a ninguém. Corrijo, porém: o poema
tem rimas que compensam a falta de amor; e a alguns
se entregou, na sua vida, de quem podemos
felicitá-la por não os ter ajudado a ficar com
descendência; outros, por essa ou outra razão,
deixaram-na para ir fazer filhos, a gosto ou contragosto,
noutras bandas, e noutros braços. Em conclusão: se
lerem o soneto treze, de Shakespeare, não
liguem à lição; e, se puderem, leiam antes
uma tradução, onde tudo pode sair ao contrário,
e até um recém-nascido do fundo do ovário.





Nuno Júdice






19 agosto 2019






Musa  de  braço ao  peito



 
A minha musa anda de braço ao peito.
Tropeçou numa metáfora imprevista,
estatelou-se, fracturou um braço.
Por azar, o direito.

O que quer dizer
que terá de passar a masturbar-me
com a mão esquerda.

O que não sei se será a mesma coisa.

Um azar do caraças.





A. M. Pires Cabral






17 agosto 2019

15 agosto 2019





primeiro: o coração



primeiro: o coração. se calhar dois (um para quando se morre outro para
a espera do milagre)
e o teu sorriso icónico
já perto de desaparecer:
há coisas que só depois percebemos que devíamos
ter roubado –
e mais tarde o que me
fica nas mãos,
demasiado íntimo
para carregar comigo enquanto faço as rotinas
na loja do costume e perguntam
como vai? e sei por
dentro que o teu sexo me ficou no cheiro,
por isso sorrio e genuinamente
respondo que
muito bem, cá se vai
andando
e sorrio de novo
no meu corpo o teu rasto
o arrepio de só há pouco
teres saído:
volta, estou tão perto
(se todas as noites me visitasses seria tão fácil morrer)
enquanto por dentro falo
calada
a dizer tanto
e o corpo, o corpo e o sorriso
que não voltei a ver,
o sexo
a namorada que guardas na gaveta
lá de casa quando apareço: mas primeiro sorrio primeiro faço as compras
da loja
do costume sorrio de novo
os morangos estão fora de época
o teu sexo numa estufa
as laranjas enormes,
com uma cor de encher
os olhos, mas primeiro,
o coração.
primeiro: o coração.




Francisca Camelo





13 agosto 2019






lembro-me como se tivesse sido ontem: havia um novo coppola em exibição
e lá fui, ao saudoso apolo 70, ver esse magnífico "one from the heart". 
a banda sonora é hoje um clássico - mas continuo a achar incrível que esta canção,
gravada para o filme, não tenha sido incluída no lp com a banda sonora original.





i don't care if she never comes back 
sing candy apple red 
i'll never fall in love again and that's for sure 
singing candy apple red 
i'm gonna drink just like a son of a bitch 
sing candy apple red 
and drive my car into a drainage ditch 
singing candy apple red.








11 agosto 2019






cartão  de  cidadão


  

já olhei, virei e revirei este rectângulo de plástico e
continuo sem encontrar o teu nome neste meu novo
cartão de cidadão. não sei por que tanto apregoam ser
prático ter todos os dados reunidos num só documento.






06 agosto 2019





Palabra




Leyendo el diccionario
he encontrado una palabra nueva:
con gusto, con sarcasmo la pronuncio;
la palpo, la apalabro, la manto, la calco, la pulso,
la digo, la encierro, la amo, la toco con la yema de los dedos,
le tomo el peso, la mojo, la entibio entre las manos,
la acaricio, le cuento cosas, la cerco, la acorralo,
le clavo un alfiler, la lleno de espuma,

después, como a una puta,
la echo de casa.




Cristina Peri Rossi





29 julho 2019





Ítaca  sem  gatos



Nenhum gato reconheceu Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato.




Inês Lourenço





25 julho 2019






Caligrafia




Mesmo agora, que degenera, a caligrafia
é o menos erótico dos desportos
É, como o ténis, capaz
de cindir um pulso, e discreta e melancólica
como a masturbação - na página
desmaia a breve tinta, o obtuso instante
em que a língua molha os lábios e pende
para a pressa ou para a abstracção

E exige ainda assim disciplina histórica,
fluência
entre a mão e o pensamento,
o bom entendimento de cada caracter
Quase já só a usam os velhos merceeiros
no vagar da penumbra, ou por capricho
os noivos em convites de casamento

Não, nem sequer é um desporto
Ninguém se adestra
numa prática de solidão





Andreia C. Faria





21 julho 2019






Não  inventes




Não venhas cá com merdas. Não inventes. 
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas. 
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas. 

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim: que tudo esquece; 
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece. 

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros, as esculturas em pau-santo,
os discos, os retratos, o bilhar. 

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor. 





José Carlos Barros






17 julho 2019






padecer  de  um  distúrbio




a música de bach, os jogos de cores de vermeer,
a mudez das pedras da calçada, o eco do mar
nos búzios, as fotografias a preto e branco, o
cheiro dos livros, tudo isso me enlouquece.


há uma vertigem, um desvario, quando ouço
miles davis ou inalo um perfume, quando
provo um vinho velho, ou toco nas estantes
de bibliotecas e vou admirar silenciosamente
os portulanos em velino que a cartografia nos
legou sem que deles fôssemos merecedores.


e sinto-me um demente indefeso perante certos
poemas, como aquele da cristina rossi em que
ela assegura não conhecer essa arte de navegar
quem nunca navegou no ventre de uma mulher
e naufragou e sobreviveu numa das suas praias, 
porque não é preciso ter escrito algumas cartas 
de marear para saber que é tudo tão verdade.


de ti não gosto, nem penso em ti. por isso não 
me parece sequer justo mencionar-te na mesma
página em que tentei enumerar tudo aquilo que 
mais me convence de padecer de um distúrbio.






13 julho 2019





Flúor



Agradeço-te, mãe, o flúor 
que até aos seis anos tomei em comprimidos
Serve de herança a melhor dentição
Deste-me as falhas, também 
o carácter, mero utensílio
da sorte com que encarar os dias
o silvar nas frinchas
da fala
as dores
e o ranger da criação

Se pela bica começasse
a alma a abrir-se e por tal paisagem
divisasse eu primeiro
a oclusão do céu deixando
intacta na terra
a geração dos vivos
poderia (e tu pela raiz)
salvar-me antes mesmo
de aprender a ler




Andreia C.  Faria