31 março 2025

 




leituras  de  março
























:: notas :: 



súmula poética 

antónio barahona da fonseca

ed. averno

 

um resumo da (mais recente) matéria dada por um dos nossos poetas mais singulares.


 

les choses

georges perec

ed. juilliard

 

foi editada recentemente uma tradução portuguesa, mas quis reler o original destas “coisas”. novela-maravilha, sem enredo, sem moral, sem diálogos, quase até sem personagens (jérôme e sylvie não têm qualquer espessura), em que os objectos (e a sua posse, claro!) desempenham um papel central. sub-titulado como “uma história dos anos sessenta”, não é uma crítica à falsa felicidade do consumismo, está na verdade muito para além disso. perec disse um dia: “acho que há uma ligação entre as coisas do mundo moderno e um tipo de felicidade, mas os que pensam que estava a condenar a sociedade de consumo não perceberam nada do meu livro”.

 


lembro-me

joe brainard + georges perec

ed. cutelo

 

logo após “les choses”, mergulhei no “je me souviens”, uma espécie de autobiografia fragmentária e confessional (inspirada no “i remember” de brainard, que aproveitei para reler) - estando as duas obras aqui emparelhadas em mais uma bela edição da cutelo.

 

 

decidi falar de pássaros

vv. aa.

ed. língua morta

 

compilados por joão vasco rodrigues (que interpõe textos seus subordinados ao mesmo tema), aqui estão reunidos muitos poemas em que aves e pássaros são protagonistas. podia ser uma recolha leve e etérea, mas resulta ser muito mais do que isso.

 


museu do romance da eterna 

macedonio fernández

ed. antítese

 

este romance seminal da literatura argentina foi escrito no princípio do século xx, mas só viu uma primeira edição póstuma em 1967, quinze anos após a morte do autor. é impossível não o ver como antecedente da “rayuela” de cortázar, por exemplo. a história desenrola-se a partir de uma série (quase interminável) de prólogos, que precedem e anunciam uma história que nunca mais chega, porque macedonio percebera que o romance moderno se faz de desvios, possibilidades, digressões (ah, o borgesiano jardim dos caminhos que se bifurcam...). depois, temos a história de um homem viúvo que vai instalar-se numa estância campestre chamada “o romance” e...

 


ao puxar a culatra do longo silêncio

antónio amaral tavares

ed. do lado esquerdo

 

belíssima surpresa, a de um livro de um poeta amadurecido pela voz que emana da ausência de ruídos, do silêncio marinho que vem escrito no coração dos peixes, do silêncio de argila dos mortos. o poeta diz-nos que o silêncio não é fácil de encontrar, que o silêncio de deus é famoso, e letal o silêncio das serpentes, que pode ser ensurdecedor o silêncio das pedras e cheios de barulho os bolsos do silêncio. o poeta sabe que todo o poema é imperfeito (a morte nele convive com as palavras) e que não há vida para lá do poema, mas intui que é o medo do silêncio que conduz às margens da beleza. porque vale a pena puxar a culatra: o silêncio - mais que a cantiga - é uma arma.

 


tokyo express 

seicho matsumoto

ed. penguin

 

um clássico (japonês) da literatura policial.

 

 





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