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17 dezembro 2015







Cidade





Do miradouro viam-se as minguantes luzes
da misericórdia – um simulacro de treva
no obscuro novembro da cidade. Um céu
longínquo respirava pelo grave vinco
dos telhados, por estreitas ruas
que guardam o eco das nossas vidas,
o incalculável regresso.

Será meu confidente o veleiro vento
vogando pela copa dos ulmeiros,
as mortas folhas de um suave novembro;
a poalha de cinza sobre o rio; três
ou quatro aves de que agora não saberei
dizer o nome, porque o muno muda
pelo cinzento requebro das suas asas.

Um requiem de sinos tece o emblema
deste dia – lábios que se perderam
na treva húmida dos jardins; um
relâmpago pelo imaginado novembro
do teu nome, quando a garoa lateja
à ilharga do sol-pôr acortinando
a ruiva despedida dos amantes.

Deixa-te findar sobre esta estendida
cadeira, pela tardia hora em que os búzios
se espalham por entre as mãos do negro,
na adivinhação do longínquo dia de amanhã.







José Luiz Tavares






26 novembro 2015






Lisbon blues





Apesar da ignorância da rota desses navios
que descem o tejo, da mulher que nos subúrbios
os vê passar tão rente à sua mágoa,
da moça tímida espiando o mundo
da janela que em breve o escuro virá selar,

ficam bem os sinos esvoaçando sobre a tarde
de inverno em que buscas a justa palavra
e não vê deus a tua aflição: o que cala,
o que finge, o que mente — agreste destino
que te cabe, tingido pelo clarão da dúvida.

Mas ficam bem, ficam bem as meretrizes
de rápido volteio, as matronas alvoroçando-se
para o chá, o aplicado médio funcionário
calculando o produto interno bruto, o amoroso
pagando diária corveia de soluços, os altos
dignitários recebendo honras e tributos.

Sobretudo fica bem a mulher gorda espremendo-se
num ginásio desfeita em suor e penitência.
Mas também ficam bem o contrafactor vigiado
pela lei, o usurário de sebo nos fundilhos,
o proxeneta de olhar felino e os desabrigados
desta rua (embora sobre eles caia o duro
gume do inverno, deles é o reino dos céus).

Ficam bem os poetas pobres que padecem
todo dia a fome da beleza, os críticos
impotentes ficam muito bem, os pretos desta praça
que são alegres e passam bem, o cívico
que ganha o dia de olho no parquímetro
fica bem apesar dos amáveis impropérios.

Ficam ainda bem os canídeos que defecam
nos passeios e as madames que os trazem
pelas trelas sempre prontas a pregar civilidades
a esses que falam alto e têm modos estrangeiros.
Mas que fiquem bem as raparigas de cabeças ocas
que têm como único tesouro a juventude
para que não seja a lamentação
o tributo dos vindouros dias.

Só eu não fico bem, senhor meu,
que aguardo toda a tarde pelo poema
que não vem, embora navios subam
o tejo aulindo através do nevoeiro.
Mas tudo está bem quando é o deus
quem assim o quer.







José Luiz Tavares