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04 setembro 2014






Rua do Alecrim





Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.








Matilde Campilho






23 julho 2014






Avarandado





Quarta nota para
a manhã infinita:

Afinal o grande amor
Não garante nada mais
Do que as 12 graças
Desdobradas pelos
Corredores do mundo
Agora isso é mais
Do que suficiente
E apesar dos bofetões
Do tempo invertido
Apesar das visitas
Breves do pavor
A beleza é tudo
O que permanece








Matilde Campilho






10 julho 2014






Príncipe no roseiral





Escute lá

isto é um poema

não fala de amor

não fala de cachecóis

azuis sobre os ombros

do cantor que suspende

os calcanhares

na berma do rochedo

Não fala do rolex

nem da bandeirola

da federação uruguaia

de esgrima

Não fala do lago drenado

na floresta americana

Não diz nada sobre

a confeitaria fedorenta

que recebe os notívagos

para o café da manhã

quando o dia já virou

Isto é um poema

não fala de comoções

na missa das sete

nem fala da percentagem

de mulheres que se espantam

com a imagem do marido

aparando a barba no ocaso

Não fala de tratores quebrados

na floresta americana

não fala da ideia de norte

na cidade dos revolucionários

Não fala de choro

não fala de virgens confusas

não fala de publicitários

de cotovelos gastos

Nem de manadas de cervos

Escute só

isto é um poema

não vai alinhar conceitos

do tipo liberdade igualdade e fé

Não vai ajeitar o cabelo

da menina que trabalha

com afinco na caixa registadora

do supermercado

Não vai melhorar

Não vai melhorar

isto é um poema

escute só

não fala de amor

não fala de santos

não fala de Deus

e nem fala do lavrador

que dedicou 38 anos

a descobrir uma visão

quase mística

do homem que canta

e atravessa

a estrada nacional 117

para chegar a casa

ou a algum lugar

próximo de casa.







Matilde Campilho






26 junho 2014





Descrição da cidade de Lisboa





A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer
cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo
no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados,
rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler
jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no
vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapa-
riga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga
a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada
na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em
Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de
Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos
e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo qua-
renta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena.
Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na
moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que ofe-
rece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapa-
riga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga
de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da
frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapa-
riga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em
copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da
nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na
cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de
rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de com-
promissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a
assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga
no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo
azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapa-
riga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar,
rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma
ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno,
rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser
homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapa-
riga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga
a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda
amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa
esquina.







Matilde Campilho







14 junho 2014









O último poema do último príncipe







Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.










Matilde Campilho