26 junho 2019






no final do ano passado elaborei a habitual e fatídica lista de livros, e
formulei o desejo de ler mais, sobretudo poesia. não sei bem explicar
como tal foi possível mas tenho-o feito e, chegados a meio do ano, lá
me convenci a deixar aqui apenas uma breve lista dos livros de poesia
que de algum modo mais me entusiasmaram ao longo destes seis meses.





collected poems - ron padgett - coffee house press


os cães ladram facas - charles bukowski - alfaguara


todos los poemas - joan margarit - austral


da poesia - hilda hilst - companhia das letras


fuera de campo - pablo garcía casado - visor


o livro da pobreza e da morte - rainer maria rilke - snob


cuaderno de campo - maría sánchez - la bella varsovia


the cinnamon peeler - michael ondaatje - vintage


arca e usura - marcos foz - ed. de autor


ya nadie baila - elvira sastre - valparaíso


a garganta inflamada - vv. aa. - companhia das ilhas


a arte da fuga - andré tecedeiro - do lado esquerdo


complete poems (1904-1962) - e.e.cummings - liveright


alegria para o fim do mundo - andreia c. faria - porto editora


o sangue a ranger nas curvas apertadas do coração - rui caeiro - maldoror







24 junho 2019






Avis  rara



Dizem que é do clima, que o tempo está a mudar.
O ovo entristece a andorinha.
O corvo já é só um emblema. Lá em cima
os aviões transportam toda a carne
outrora cobiçada pela águia-real.

E o que é que as aves têm que ver com isto?
Nenhuma é rara, se lhe perguntam.
Nenhuma, como eu, acólita
do vento em não-lugares.




Andreia C. Faria





18 junho 2019






Não, isto não é o cais das colunas
não, aqui não há índias nem brasis para encontrar.
Não, isto aqui não é o "Ca d'Oro" 
da longínqua e sumptuosa Veneza
que enriqueceu com as especiarias.
Aqui falamos banalmente
de sargos e enguias.
E na maré baixa,
quando muito baixa,
de lodo.




Fernando Gandra




10 junho 2019






ó  pátria


  

entre as brumas da memória
ó pátria, confessa que já não 
sabes lá muito bem quem és
dou-te um conselho gratuito
toma memofante, pequena,
toma memofante ou gingko
biloba ou magnésio ou uma
vitamina do vasto complexo 
bê ou até extracto de ginseng
caso não queiras tratamentos
com fosfatidilserina, os velhos
ácido fólico ou pregnenolona
depois, ó pátria sente-se a voz
mas muito rouca e nota-se a
garganta inflamada, dás por
ti dependente de pastilhas e
xaropes, descrente no futuro
desanimada, cada vez menos
valente, cada vez mais mortal





09 junho 2019





pus-me a recordar velhos discos dos elbow, 
dei com isto e agora não me sai da cabeça...










07 junho 2019






Entrar em casa, ligar o portátil
e a impressora, rasgar
o que não se aproveita, pegar de novo
no que pode ter alternativa, carregar
de um lado para o outro, do corpo
para o papel e do papel
para o corpo, esmagar uma revolta e propagar
a respectiva contra-revolta, vingar os mortos
e os feridos de ambos os partidos,
jogar o corpo fora, estragar papel.





José Ricardo Nunes




03 junho 2019






fábula  da  ilha  dos  amores 





também de pouco serviu ter-me alimentado de
poesia, bebido os versos até me sentir inebriado,
procurar a aura mágica no espanto das palavras.
e, sem o querer ou ansiar, acabei por memorizar
inúmeros poemas, muitos sem saber até porquê,
saboreando sons, recitando-os de cor para mim.


reuni na memória um acervo tal que nenhuma
editora desdenharia transformar em colectânea,
talvez crente em que essas imagens poéticas dos
outros pudessem ilustrar as minhas, e desejando
convencer-me de que a leitura de paixões alheias
iria tornar ainda mais perfeita a que sentia por ti.


depois, quando partiste e me abandonaste nesta
ilha dos amores só nossa, tratei de esquecer essas
noventa e cinco estrofes em oitavas decassilábicas
que perfazem o canto nono de uma epopeia menor.