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05 novembro 2014





...e ainda mais um clássico da banda do casaco…



cai o dia sai da noite cai sopa no mel
salvé maravilha coisa linda de alegria
toca a língua no teu céu
ensaliva lá em sonhos
céu da boca nem tem dó

cai o dia sai da noite sol a sol a sol
salvé maravilha vê meus olhos nascer dia
céu da boca é fronteira
do que é corpo e é ideia
céu da boca nem tem dó

toca a língua no teu céu
ensaliva lá em sonhos

cai o dia sai da noite cai sopa no mel
salvé maravilha coisa linda de alegria
céu da boca é fronteira
do que é corpo e é ideia
céu da boca nem tem dó

toca a língua no teu céu
ensaliva lá em sonhos







11 março 2014







ouço esta pérola da banda do casaco e, acreditem, falo a sério: se eu mandasse, só se ensinava a nadar. 
os professores iam até às novas oportunidades para aprenderem a ser instrutores de natação. 
as escolas eram todas fechadas e reconvertidas... as primárias em tanques de iniciação, os liceus em piscinas de vinte e cinco metros e as universidades em piscinas olímpicas (espero que apreciem a ironia inerente à manutenção de uma certa hierarquia hídrica). 
três ou quatro gerações depois já éramos quase todos analfabetos, mas garanto-vos – nunca iríamos ao fundo.



viemos do fundapique

passámos no tudasaque

não há mal que mal nos fique

nem há cu que não dê traque

mal a gente vem ao mundo

logo a gente vai ao fundo



andámos no malsalgado

brincámos no daceleste

e o escorbuto mal curado

com tratamento indigesto

mal a gente vem ao mundo

logo a gente vai ao fundo



natação obrigatória

na introdução à instrução primária

natação obrigatória

para a salvação é condição necessária

não há cu que não dê traque
 


pusemos a cachimónia

em papas de sarrabulho

e quando as noites são de insónia

damos voltas ao entulho

mal a gente vem ao mundo

logo a gente vai ao fundo



aprendizes da política

só na táctica do empocha

vem a tempestade mítica

e a cabeça dá na rocha

mal a gente vem ao mundo

logo a gente vai ao fundo









03 janeiro 2014









falei aqui há tempos na banda do casaco e nos últimos dias tenho recuperado esta canção (que tanto tanto ouvi na adolescência) pela sua inegável actualidade. nesses longínquos anos setenta, a quantidade de pessoas que não sabia ler nem escrever era a que se sabia (e não se dizia). 
quase quatro décadas depois, ao ler o que se escreve por aí, na blogolândia, no feissebuque, nos jornais e nos cadernos dos estudantes liceais de hoje, literatos incapazes de tecer um simples comentário escrito sobre um qualquer pequeno texto poético (por exemplo, um poema), resta-me esperar que a redução na taxa de analfabetismo oficial não tenha sido inversamente proporcional ao número de alfabetizados analfabetos funcionais entretanto gerado.



É triste não saber ler,
É triste não saber falar,
Não ver maneira de ser
Nem ver jeitos de acabar.
É triste um homem viver
Sem ter cama que fazer.

É triste ser-se tão triste,
Tão sem ninguém a quem amar
Nem ter asas de avoar.

É triste o entardecer,
Como é triste amadrugar,
É triste um homem morrer
Sem ter chegado a nascer.

É triste ser-se tão triste,
Tão sem ninguém a quem amar
Nem ter asas de avoar.











10 dezembro 2013







como alguém escreveu, nunca foram um projecto de estúdio nem uma banda ao vivo, e sim uma entidade do tipo mutante que nunca sabia para onde ia. mas não só criaram uma das mais extraordinárias discografias portuguesas como se tornaram, à sua medida, um daqueles mitos só nossos. que me lembre nunca aqui os referi, mas são deles algumas das canções da minha vida - e vou começar a recordar algumas. porque basta ouvir este barro iluminado para perceber que muita da nossa melhor música nos passou ao lado. é… é hora de voltar a amar a b.d.c.



Ela é feita de argila

feita de pedra

erva brava que mesmo sem água medra

ela não sabe nem do futuro

nem do passado

só sabe o que sente

pressente o presente cansado



Ela é feita de chuva

feita de vento

lua emancipada desde o início do tempo

ela não sabe nem do arcanjo

nem do diabo

só sabe o que sente

pressente o presente adiado



Ela é luz de negro

luz de luz de luz

ela é luz que cega

luz que nos seduz



Ela é feita de verde feita de sumo

maltratada ainda linda de aprumo

ela não sabe nem da mentira

nem da verdade

só sabe o que sente

pressente o presente parado