ouço esta pérola da banda do casaco e, acreditem, falo a
sério: se eu mandasse, só se ensinava a nadar. os professores iam até às novas
oportunidades para aprenderem a ser instrutores de natação. as escolas eram
todas fechadas e reconvertidas... as primárias em tanques de iniciação, os
liceus em piscinas de vinte e cinco metros e as universidades em piscinas
olímpicas (espero que apreciem a ironia inerente à manutenção de uma certa
hierarquia hídrica). três ou quatro gerações depois já éramos quase todos analfabetos,
mas garanto-vos – nunca iríamos ao fundo.
viemos do
fundapique
passámos no
tudasaque
não há mal
que mal nos fique
nem há cu
que não dê traque
mal a gente
vem ao mundo
logo a gente
vai ao fundo
andámos no
malsalgado
brincámos no
daceleste
e o
escorbuto mal curado
com
tratamento indigesto
mal a gente
vem ao mundo
logo a gente
vai ao fundo
natação
obrigatória
na
introdução à instrução primária
natação
obrigatória
para a
salvação é condição necessária
não há cu
que não dê traque
pusemos a
cachimónia
em papas de
sarrabulho
e quando as
noites são de insónia
damos voltas
ao entulho
mal a gente
vem ao mundo
logo a gente
vai ao fundo
aprendizes
da política
só na táctica
do empocha
vem a
tempestade mítica
e a cabeça
dá na rocha
mal a gente
vem ao mundo logo a gente
vai ao fundo
03 janeiro 2014
falei aqui há tempos na banda do casaco e nos últimos dias tenho recuperado esta canção (que tanto tanto ouvi na adolescência) pela sua inegável actualidade. nesses longínquos anos setenta, a quantidade de pessoas que não sabia ler nem escrever era a que se sabia (e não se dizia). quase quatro décadas depois, ao ler o que se escreve por aí, na blogolândia, no feissebuque, nos jornais e nos cadernos dos estudantes liceais de hoje, literatos incapazes de tecer um simples comentário escrito sobre um qualquer pequeno texto poético (por exemplo, um poema), resta-me esperar que a redução na taxa de analfabetismo oficial não tenha sido inversamente proporcional ao número de alfabetizados analfabetos funcionais entretanto gerado.
É triste não saber
ler,
É triste não saber
falar,
Não ver maneira de
ser
Nem ver jeitos de
acabar.
É triste um homem
viver
Sem ter cama que
fazer.
É triste ser-se
tão triste,
Tão sem ninguém a
quem amar
Nem ter asas de
avoar.
É triste o
entardecer,
Como é triste
amadrugar,
É triste um homem
morrer
Sem ter chegado a
nascer.
É triste ser-se
tão triste,
Tão sem ninguém a
quem amar
Nem ter asas de
avoar.
10 dezembro 2013
como
alguém escreveu, nunca foram um projecto de estúdio nem uma banda ao vivo, e sim uma entidade do tipo mutante que nunca sabia para onde ia. mas
não só criaram uma das mais extraordinárias discografias portuguesas como se tornaram,
à sua medida, um daqueles mitos só nossos. que
me lembre nunca aqui os referi, mas são deles algumas das canções da minha vida
- e vou começar a recordar algumas. porque
basta ouvir este barro iluminado para perceber que muita da nossa melhor música
nos passou ao lado. é…
é hora de voltar a amar a b.d.c.