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10 outubro 2023

 

 

 

 

A  minha  heroína

 

 


Quando a lebre está a cortar a linha de chegada,

a tartaruga pára mais uma vez

na berma,
desta vez para pôr o pescoço de fora

e mordiscar um pouco de erva adocicada,

contrariamente à vez anterior

em que foi distraída

por uma abelha a zumbir no coração de uma flor silvestre.

 

 



Billy Collins

 






09 fevereiro 2022

 

 

 

 


A  função  da  poesia

 

 


 

Levantei-me cedo numa terça-feira,

fiz uma cafeteira de café para mim,

depois conduzi até à aldeia,

parando na estação dos correios,

depois no banco onde depositei um cheque

de uma revista, e quando cheguei a casa

li um bocado de um jornal

começando pela secção científica

e tomei outra caneca de café e uma malga de cereais.



Logo depois, já era hora de almoço.

Não tinha fome nenhuma,

mas fiz uma pausa por um instante

para olhar pela janela grande da cozinha,

e foi então que me apercebi de que

a função da poesia é lembrar-me

que existe muito mais na vida

do que aquilo que habitualmente faço

quando não estou a ler ou escrever poesia.

 



 


Billy Collins

 

 




(tradução imperfeita minha)

12 julho 2020






introdução  à  poesia




pedi-lhes para tomarem um poema
e o erguerem contra a luz
como um slide a cores


ou encostarem um ouvido à sua colmeia.


disse-lhes larguem um rato num poema
e observem-no a sondar a sua saída,


ou caminhem dentro do quarto do poema
e procurem nas paredes um interruptor.


quero que pratiquem ski aquático
através da superfície de um poema
acenando ao nome do autor na costa.


mas tudo o que eles pretendem fazer
é amarrar o poema a uma cadeira e
torturá-lo até obterem uma confissão.


começam a bater-lhe com uma mangueira
para descobrir o que ele significa mesmo.




Billy Collins




(tradução minha) 

18 junho 2020

30 maio 2020






A  minha  heroína




No momento em que a lebre está a cortar a meta
a tartaruga voltou a parar de novo
à beira da estrada,
desta vez para esticar o pescoço
e mordiscar um pouco de relva doce,
ao contrário da última
em que foi distraída
por uma abelha zumbindo no coração de uma flor silvestre.




Billy Collins





(tradução minha)

10 maio 2020






Depois  de  amanhã




Se tivesse de escolher um favorito
dentre os quatro heterónimos de Fernando Pessoa,
teria de ser Álvaro de Campos,
escolhido para o papel de Sensacionista Cansado.

Esta manhã nada acontece de especial,
só a gata enrolando-se novamente numa cadeira
e a água para o chá a começar a ferver – 
uma cena que o Álvaro teria achado inteiramente suficiente,

ele que não começou nem terminou nada,
que prefere a janela
à porta, o amanhã ao hoje
ou melhor ainda, o depois de amanhã,

essa cidadela de quietude, intocada
pela ambição ou o trabalho, sem mácula sequer
de uma mão a aproximar a agulha de um disco
ou deslocando uma cadeira do pátio para o sol.

Sim, gosto do Pessoa sonhador
que evita os eléctricos e os mercados,
e que, como um floco de neve, quase nem existe,
mas isso não significa que não goste dos outros.

Agora mesmo, na janela das traseiras,
os quatro Pessoas perseguem-se uns aos outros
à volta de uma grande árvore, segurando os seus chapéus,
cada um deles vestido de forma mais extravagante

que o outro. Acima deles um céu pálido,
nuvens brancas como barcos à vela sobre Portugal.
Consigo ver tudo desde o meu sofá onde
toco algumas melodias tristes no flautim.

Entretanto, a água para o chá evaporou-se no ar,
e a coroa de chamas queima apenas a chaleira,
e a gata mudou de lugar.
Ela adora a cama por fazer, os lençóis montanhosos.





Billy Collins





[ trad. Ricardo Marques e Ricardo Vasconcelos ]
[ e lê-se melhor aqui 

10 março 2020

12 fevereiro 2020