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07 novembro 2015








chamo-me penélope
dizem que passei muitas noites a tecer
é mentira
passei-as a fazer amor
com cada um dos meus pretendentes
e gozei de cada vez a valer
depois chegou o meu velho marido
dizem que não o reconheci
é mentira
ele é que não me conheceu

ítaca onde me deitei
deu-me todas as viagens que desejei







Bénédicte Houart








18 outubro 2015







fui aos perdidos e achados
minha senhora disse-me o polícia
sua o caraças senhora talvez
aqui não recolhemos objectos dessa natureza
tão pouco material
juraria ter ouvido comercial
vá antes à câmara municipal
serviço de saneamento básico
resíduos esgotos sarjetas
em suma, escoamentos
coisa que como podeis ler
não fiz nem farei
se ele se perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se deve contrariar um poema tão original








Bénédicte Houart







09 outubro 2015







as palavras fazem muitos estragos
partem coisas, quero dizer
se não as vemos despedaçadas
é defeito nosso, não delas
seja como for, é justo acrescentar
dão-se também cabo umas das outras
e ficam todas escavacadas
e seja palavras, seja coisas
tornam-se pó, tanto,
tal como nós, pouco







Bénédicte Houart







18 setembro 2014





algumas letras numa página
algumas páginas numa vida
algumas vidas numa morte
tantas mortes numa só vida

assim se compõe um livro







Bénédicte Houart





26 agosto 2014






falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida






Bénédicte Houart






01 junho 2014









são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia










Bénédicte Houart










13 abril 2014







pus-me a escrever um poema
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe









bénédicte houart






23 março 2014









com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e
de queixo bem lambuzado
como convém

cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros vêem comer)










Bénédicte Houart











[ para a ana cristina ]

20 dezembro 2013








dizem os meus pretendentes que sou linda
o que eles querem é ter-me por rainha
ulisses há-de vir decepar-lhes a cabeça e
fazer-lhes engolir as palavras que manejaram
para durante vinte anos em mim se insinuarem
declaro aqui como mulher que
muito bem me souberam e
num ápice passaram
com o meu rei, sabei, fui apenas parideira
com eles, carne de corpo inteiro










Bénédicte Houart












11 dezembro 2013








já penélope não sou







já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre












Bénédicte Houart













30 novembro 2013










hoje tive uma ideia na banheira, mas
por pouco tempo: infelizmente
não me apareceu no cérebro, como é habitual, mas
sim à tona da pele
de modo que a água do chuveiro a
levou ralo abaixo
dela restando apenas flocos de espuma e
outra ideia irresistível
quantas não andarão por aí mergulhadas
nos esgotos nas estações de tratamento de água
(algumas bem precisam de ser desinfectadas)
sem mencionar rios riachos ribeiros mares e
à conta de tudo isso
quantas ideias não bebemos num simples copo de água









Bénédicte Houart










[ para a alexandra ]

24 novembro 2013







no princípio era o verbo






no princípio era o verbo e
o verbo fez-se tu
carne que saboreio
ao acaso do tempo e
que nunca me sacia
ao acaso da vida









Bénédicte Houart









13 novembro 2013









portanto por vezes os afogados
voltam à tona de água
pois desejam de novo atirar-se
ainda não esgotaram o desespero
ainda não esperam completamente
ainda temem que nada chegue
não sabem ainda que já ninguém virá
que mesmo o mergulho foi em vão
que tudo a água lava, só a vida não








Bénédicte Houart