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23 janeiro 2019





Ainda não encontrei o meu lugar,
os lugares imóveis, como as árvores,
como as janelas das casas,
apesar de abrirem e fecharem,
as pessoas móveis,
como uma cama, uma mesinha de cabeceira,
como um quadro pendurado na parede,
decorativas e tantas vezes sem valor,
como uma lâmpada,
que podemos desatarraxar e acender dentro de outro candeeiro,
Ainda não encontrei o meu lugar
mas tenho dois amantes,
foge-se da solidão como se pode.




Raquel Serejo Martins





05 novembro 2018






No tempo em que eu cabia deitada
no banco de trás do carro,
eras tu ao volante,
óculos de sol,
a dividir a mão esquerda
entre o volante e a janela aberta
para livrar o cigarro da cinza,
a dividir a mão direita
entre o volante e manete das mudanças,
a dividir os pés
entre a embraiagem, o travão e o acelerador,
a dividir os olhos
entre a estrada, a mãe e o espelho retrovisor.




Raquel Serejo Martins





09 outubro 2018






Passei a tarde no supermercado,
os pêssegos em promoção,
as ameixas gordas,
três tristes figos abandonados,
lamentavelmente murchos os espargos,
o corredor dos congelados a pedir casaco,
não encontrei um único iogurte fora de prazo,
não encontrei nas caixas nenhum ovo partido,
não encontrei arroz basmati,
não encontrei chá de alcachofra,
não encontrei um único sorriso,
nem no rapaz da charcutaria
que enquanto avia clientes
fatia fiambre, fatias fininhas,
as pessoas gostam das fatias fininhas,
canta as canções da telefonia,
pergunto-me de onde lhe virá a alegria,
vim sem compras,
feliz por poder fugir à fila da caixa,
não precisava de víveres,
precisava sentir que vivia, há vidas assim.


  

Raquel Serejo Martins





26 junho 2017






Depois do beijo inaugural
o ângulo agudo fica obtuso,
todas as palavras acentuadas e esdrúxulas.
Depois, o mundo do avesso,
sentes-te um menino travesso,
percebes que há coisas sem preço,
e escolhes sempre a doçura.




Raquel Serejo Martins







23 maio 2017






Deixei o meu coração no forno,
é só aqueceres e tens jantar.
O que sobrar dá ao gato.
Eu sempre gostei do gato.



Raquel Serejo Martins







09 abril 2017






O poeta tem muitas dúvidas
não sabe se o que faz é poesia.
O poeta lê muitos poetas,
por isso tem dúvidas.
O poeta sabe pouco,
só sabe que sabe
(lembra a Luísa a subir a calçada),
fazer bolo de chocolate,
receita herdada da bisavó materna.
Um bolo negro, fundente,
mais do que al dente!
Um bolo que põe os comensais
a lamber os dedos com volúpia
e com apetite a pedir mais.
E depois de uma fatia de bolo de chocolate,
o poeta gosta de fumar um cigarro,
e enquanto fuma o seu cigarro,
é sempre assaltado pelos mesmos pensamentos,
Faz bolo de chocolate, poeta;
Faz bolo de chocolate!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão bolo de chocolate.





Raquel Serejo Martins