Mostrar mensagens com a etiqueta dédalo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dédalo. Mostrar todas as mensagens

23 dezembro 2016





{ excerto de um episódio :: a queda de ícaro }



()

e esse conceito, posteriormente tão propagado,
do jovem ícaro como vítima da arrogância humana,
talvez seja desproporcionado e esteja até errado,
porque a sua morte se sucedeu a um feito extraordinário,
uma aventura ímpar não mais repetida pelo homem:
porque para ícaro a fuga, apesar da consequência trágica,
terá sempre valido a pena, pois pagaria qualquer preço
por esse sentimento de vitória sobre os muros do labirinto.

e ícaro tornou-se realmente imortal, tendo ganho um lugar
eterno na nossa imaginação por ter sido o único a conseguir
o que toda a humanidade desde sempre desejara fazer
ao observar fascinada o voo livre e sem esforço das aves:
poder um dia simplesmente imitá-las.

porque, como refere o perspicaz ovídio,
se algum pescador empunhando a sua cana,
ou um lavrador manobrando o cabo do arado
ou até um pastor apoiado no seu cajado
tiver erguido os seus olhos naquele momento,
e estupefacto visto pai e filho a voar pelos céus,
terá decerto ficado a pensar que só poderiam
ser dois deuses a caminho do eterno olimpo.

inúmeros são os artistas que a seu modo tentam,
muitos séculos depois, captar nas cores de uma tela
esse dramático episódio que a todos continua a fascinar,
como joos de momper e a sua visão do preciso momento
da queda, em que imaginamos as gotas da cera derretida
a cair sobre a água, e carlo saraceni e peter paul rubens,
ambos com a terrível imagem da desagregação das asas,
enquanto antoon van dyck e frederick leighton optam
pelo retrato de dédalo a dar os últimos conselhos a ícaro
antes do fatídico voo. para herbert james draper o filho
de dédalo mais não é que um glorioso anjo caído e, para
henri matisse, um vulto negro de coração ao rubro,
que dança triunfante ao redor de estrelas cadentes.

mas o melhor retrato é para mim o de pieter bruegel,
o qual, quando pintou “a queda de ícaro” que lhe é atribuída,
colocou em primeiro plano o lavrador, o pastor e o pescador,
mas mostra-os no desempenho dos seus afazeres quotidianos, 
compenetrados e quase indiferentes à pequena figura secundária
de ícaro que, no canto inferior direito do quadro, desaparece
no mar, não nos deixando sequer ver as fantásticas asas,
somente uma mão que cai inerte como uma pena na água,
numa alegoria ao triunfo da nudez crua da realidade
sobre a fantasia dos antigos mitos e a presunção estéril
de transcendência que habita qualquer vã aspiração humana,
como se alguém numa tragédia o dissesse melhor do que nós:

coro:
funesta máquina, que puseste a voar o homem que somos.
a terra e o mar sucumbiram ao nosso poder: só restava o céu.
os deuses deram como prenda duas asas à genial ave,
e do brilho da plumagem e do voo nasce a sua alegria,
embora apenas as aves sejam companheiras das nuvens.
o imenso espaço azul, os fortes ventos e as aves coloridas
são todos da mesma raça. mas nós não: o nosso único
génio é o de criar deuses que gostaríamos de poder imitar.

()






de val van icarus
óleo sobre tela, atribuído com reserva a
pieter bruegel





{ excerto do final do livro :: morte de dédalo }




()

dédalo:
vejo que chegas com um macio manto azul
nas mãos, para me envolver no teu abraço.
parece-me que será nas margens deste rio
que farás o suave leito onde irei descansar.
e sinto que esta beleza e esta paz são ofertas tuas.

coro:
abram a porta. deixem-no entrar
assim que as memórias o abandonarem.

dédalo:
recordo ainda o fio que entreguei a ariadne,
vejo aquele homem infeliz com cabeça de touro
e as asas do meu filho a caírem sobre o mar.
relembro o incessante mar que em cada manhã
voltava a sulcar a areia das praias de creta,
mas já não me é possível, adorada náucrate,
antever a luz do teu rosto sobre o meu.

coro:
assim que das recordações se esqueça.

dédalo:
tenho em mim a memória das tuas mãos, meu filho,
tão pequenas e fechadas nas minhas quando nasceste.
ainda hoje sei de cor as tuas mãos, meu filho,
tão trémulas e resignadas quando não lhes pude valer.

coro:
assim que das recordações se esqueça.

dédalo:
não queria morrer na beleza desta tua terra,
e sim poder viver para sempre no teu peito.
queria apenas pensar na água em que te banhasses,
no fruto que abrisses e na flor que colhesses,
na túnica que vestisses e na canção que cantasses
mas o meu coração, se assim pudesse pensar, pararia.

coro:
assim que das recordações se esqueça.

dédalo:
pois neste palco de formas infinitas que é o mundo,
desempenhei o meu papel sem dele saber ser actor.

coro:
abram a porta, deixem-no entrar.

dédalo:
porta que sempre para mim estiveste aberta,
mesmo quando os olhos do céu pareciam fechados,
sei que o teu apelo solene nunca se silencia.
da semente à flor, da flor ao fruto e de novo
 do fruto à semente, por ti passa o caminho.
só quem não sabe o que há no teu interior
tem medo de te abrir e receia afinal entrar.

coro:
as coisas aconteceram assim no mundo:
nem dédalo nem os deuses podiam saber
que no fim do labirinto estava outro labirinto,
este invencível, que é o do tempo que jamais cessa,
pois num lugar já fixado o hades a todos espera.
o industrioso fio de ariadne perdeu-se no tempo
e nesse labirinto até o labirinto se perdeu também,
mas é nosso dever imaginar que há um labirinto e um fio
mesmo que jamais, nem em sonhos, encontremos algum.

(a luz da manhã desponta no horizonte. o corpo de dédalo jaz imóvel na cadeira.
e o seu espírito, enquanto vai caindo o pano, lentamente sai de cena.)





30 novembro 2016





e é verdade. quinze meses após as “fábulas de lisboa” aventurei-me de novo a escrever um livrinho. e, em resumo, este consiste no recontar de alguns conhecidos mitos gregos clássicos (rapto de europa, minos e pasífae, teseu e o minotauro, a queda de ícaro…) dentro de uma espécie de biografia de dédalo, o conhecido inventor/arquitecto/engenheiro, para sempre ligado à concepção do labirinto de cnossos. é uma edição totalmente de autor, sem qualquer apoio de uma editora. estou orgulhoso do resultado.








e, claro, estão todos convidados para uma breve e indolor sessão de lançamento:






[o texto inclui uma "nota ao leitor" final, de onde retirei este pequeno excerto]


(…) e logo me ocorreu que a história poderia ser a do confronto
entre dois homens, e também que dédalo teria sido vítima
da sua brilhante inteligência, por ser alguém preocupado
com essa integridade interior, devotado à salvaguarda
não apenas do seu espírito criativo mas também da liberdade
de poder pensar por si, desejando proteger de tudo e todos
os seus pensamentos mais profundos, o mais íntimo da alma.
e nisso teria decerto sido muito semelhante a montaigne,
que consagrou toda uma vida a observar-se, crítico de si
mas vivendo-se em si e permanecendo sempre ele próprio,
passando para o papel essa observação da condição humana,
fiel às suas ideias e íntegro para com a sua consciência.
julguei ainda possível que alguma da poesia oriental,
presente mas dispersa e mascarada ao longo desta história
e que muito mais tarde nos trouxeram kabir e tagore,
fosse igualmente já conhecida na orla do mediterrâneo,
talvez propagada por actores, arautos de uma tradição oral
num tempo anterior ao do livro escrito, artistas que nas tragédias
gregas souberam encontrar um veículo para nos contarem os mesmos
episódios, e que tentei homenagear recriando de forma grosseira
os sumarentos diálogos retratados nessas antigas peças teatrais.
e, mantendo aberta a possibilidade de tudo imaginar,
creio que perante a criatividade polifacetada de dédalo
jamais o eterno labirinto da heteronímia pessoana
poderia ser tomado como uma ambiguidade inconcebível,
e vim descobrir um paralelo com aquele desconsolado
guarda-livros que à sua maneira foi um ulisses moderno,
à deriva por lisboa em busca de uma ítaca inatingível
e também ele um minotauro no labirinto do seu desassossego. (…)