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17 julho 2024

 

 

 

Deus  nos  livre

 

 

 

Deus nos livre da erisipela

e do encosto, dos metais leves,

do engaranho e do farfalho, do vaso

revirado e da retórica, do Terreiro

do Paço e das más Companhias,

do mal da toupa,

do veneno do lacrau.

 

 

 



José Carlos Barros

 

 

 




29 agosto 2023

 

 

 

 

Pessoas

 

 

 

Lugares donde se levam

coisas: electricidade, volfrâmio,

lítio, granito, resina.

Dizê-lo em voz alta,

em coro, em repetidas

vozes: electricidade, volfrâmio,

lítio, granito, resina,

 

pessoas.

 

 

 



José Carlos Barros

 






14 novembro 2021

 



 

Penélope  escreve  a  Ulisses

 

 



e se quando regressares

o mundo já não

existir?

 

 

 

 



José Carlos Barros

 






27 agosto 2021




 

 

É  pouco  o  que  te  der

 

 

 

 

É pouco o que te der. É sempre pouco.
Há sempre uma palavra, há sempre um gesto,

há sempre um nome em falta. Há sempre o resto.

Por isso o que te der é sempre pouco.

 

Às vezes imagino que o teu nome

é feito dos silêncios da floresta.

Às vezes adormeço: é sempre o que me resta

nos dias em que o mar traz o teu nome.

 

Assim pudesse dar-te o que é do mundo:

navios, uma estrela, nebulosas

planetárias. Ou transformar em rosas

a luz das supernovas que há no mundo.

 

Assim pudesse dar-te a vida toda

e mais ainda. O resto que se foda.





José Carlos Barros

 






01 agosto 2020





A  ditadura  dos  hipermercados



no mundo há cinco Continentes
na Baixa da Banheira
vai abrir
o sexto





José Carlos Barros






18 setembro 2019

21 julho 2019






Não  inventes




Não venhas cá com merdas. Não inventes. 
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas. 
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas. 

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim: que tudo esquece; 
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece. 

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros, as esculturas em pau-santo,
os discos, os retratos, o bilhar. 

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor. 





José Carlos Barros