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24 abril 2015





Eu não quero mudar o mundo.
Não tenho tempo para isso.
Quem quer mudar o lugar do mundo actua
como quem muda o lugar de um móvel:
empurra primeiro para um lado,
foi força demais,
empurra então para o outro lado,
agora com força de menos,
depois mais um pequeno toque para lá
e um ainda mais pequeno toque para lá,
e agora sim:
o móvel está no lugar.
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam
lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver?

Os copos todos partidos. Que aborrecimento.
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro.





Gonçalo M. Tavares





08 fevereiro 2015





E os poetas desapareceram.
De facto, o que alguém quis dizer,
e tinha razão, foi que a poesia limpa e belíssima é inaceitável
depois do que os homens fizeram a outros homens
no século xx. É um facto, as palavras
delicadas são inaceitáveis.





Gonçalo M. Tavares





27 novembro 2014






A trégua




Havia uma desarrumação no cabelo, se tinha
Calções eles caíam; puxava-os para cima, não
Me penteava.
Se alguma trégua fiz com a infância foi esta:
Ainda não uso pente, os calções são calças,
mas continuam a cair. Por delicadeza,
Puxo-as para cima.






Gonçalo M. Tavares