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13 agosto 2023

 

 


Telescópio

 

 

 

Há um momento após desviares o olhar
em que te esqueces de onde estás
pois tens vivido, parece,
noutro lado, no silêncio do céu nocturno.
 
Deixaste de estar aqui no mundo.

Estás num lugar diferente,
um lugar onde a vida humana não tem sentido.
 
Não és uma criatura num corpo.
Existes como as estrelas existem,
participando na sua quietude, na sua imensidão.
 
Até que volta a estar no mundo.
De noite, numa colina fria,
a desmontar o telescópio.
 
Só depois percebes
que não é falsa a imagem
mas a relação.
 
Vês de novo como cada coisa
fica tão longe de todas as outras.
 
 
 


Louise Glück

 





17 janeiro 2021




 

 

Ítaca

 


 

 

O amado não precisa
de viver. O amado

vive na cabeça. O tear

é para os pretendentes, encordoado

como uma harpa com fio de sudário branco.


 

Ele era duas pessoas.

Ele era o corpo e a voz, o fácil

magnetismo de um homem vivo, e depois

o sonho ou imagem que se desenrola

moldado pela mulher manobrando o tear,

ali sentada na sala cheia

de homens sem imaginação.


 

Como lamentas

o mar enganado que tentou

levá-lo para sempre

e apenas levou o primeiro,

o actual esposo, tens de lamentar

estes homens: eles não sabem

para o que estão a olhar;

eles não sabem que quando alguém ama assim

o sudário se torna um vestido de noiva.

 

 

 



Louise Glück






(tradução imperfeita minha)


11 dezembro 2020

 

 

 

A  mágoa  de  Circe

 


 

 

No final, dei-me a conhecer
à tua esposa, assim como

um deus faria, na sua própria casa, em
Ítaca, uma voz

sem um corpo: ela fez

uma pausa na sua tecelagem, virando a cabeça

primeiro à direita, depois à esquerda

embora é claro não houvesse maneira

de associar aquele som a qualquer

fonte objectiva: duvido

que ela volte ao seu tear

com aquilo que sabe agora. Quando

a vires de novo, diz-lhe

que é assim que um deus se despede:

se estiver para sempre na sua mente

estarei para sempre na tua vida.

 

 



Louise Glück

 

 


(tradução imperfeita minha)

27 novembro 2020

 


 

A  fogueira

 


 

Se tivesses morrido quando estávamos juntos
eu não teria querido nada de ti.

Agora penso em ti como morto, é melhor.

 

Muitas vezes, nos frescos crepúsculos da primavera

quando, com as primeiras folhas,

tudo o que é mortal entra no mundo,

faço uma fogueira para nós, de madeira de pinho e macieira;

repetidamente

as chamas flamejam e diminuem

à medida que a noite vem, na qual

nos vemos tão nitidamente -

 

E nos dias contentamo-nos

como antigamente

na relva alta,

nas portas e sombras verdes do bosque.

 

E tu nunca dizes

deixa-me

porque os mortos não gostam de estar sós.

 

 



Louise Glück

 

 


(tradução imperfeita minha)