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02 setembro 2013









Já que não posso mudar o mundo

deixa-me sacudir a areia

das tuas sandálias. 









Casimiro de Brito










16 julho 2013









Eu amo agora
eu amo a linguagem eu amo
a boca materna
mas o que eu mais amo
é o caos a nudez
o corpo original o
animal que devora
o outro animal
que se deixa comer
pelo seu desigual

Amo a língua
porque só ela
a língua de carne
a carne incendiada
pode inventar
o canto e a voz
da fonte muda










Casimiro de Brito








15 abril 2013












A minha língua já não brilha
na tua boca. Afastas-te nas fendas
do silêncio, refugio-me no mosto de palavras
cansadas. Fomos surpreendidos por pequenos nadas
que nos esmagaram - os dorsos que foram felizes
deitam-se na sombra. Os joelhos secaram.
Os ossos desfazem-se em pó, ah como doem
as pequenas transformações, a origem do vento
que nos separa. A boca morre-me de sede.
Escondes os seios, que foram floridos,
na dobra do lençol. Também eu tenho os olhos abertos
na cama desta noite que nunca mais acaba.
Fechas a porta, apagas a luz e pedes-me
que adormeça a teu lado.











Casimiro de Brito











11 abril 2013











Está um triste amante esquecendo
os dias que passou com aquela
que tanto ama. Mas como esquecê-la
se toda a sua vida foi feita
de bem querê-la? Ao frágil amante
só lhe resta partir com as águas
e as folhas caídas. Memória
será jangada bastante - e o vento
que a todos sopra.










Casimiro de Brito











01 abril 2013












Arrefece triste o sol que me incendiou
os ossos. Entre os amantes
que foram leves e quase luminosos
cai subitamente uma pedra
que num vidro invisível havia.
Ao peso do silêncio
os amantes sangram,
sangram as palavras que não disseram
quando, longe dos pequenos sismos do corpo,
em fragmentos de pó
explodiam.










Casimiro de Brito










07 agosto 2012










Amo-te porque não me amo
inteiramente. O que me faz falta
é infinito
mas tu és do bem que me falta
o enigma onde se condensam
a terra e o sol o ar as águas
invioladas
e tenho a boca cheia
de música ondulação
do teu silêncio.








Casimiro de Brito











07 junho 2012






Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
            que se desfia
pouco a pouco. Guardo
            silêncio
para que possam ouvi-lo            
            desfazer-se.






Casimiro de Brito





13 maio 2012













Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.












Casimiro de Brito













15 abril 2012





Do poema




O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.





Casimiro de Brito





03 abril 2012






Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.





Casimiro de Brito






08 fevereiro 2012