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26 março 2020







O  fio  da  fábula




O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.


(Cnossos, 1984)




Jorge Luis Borges







07 novembro 2017






«Yo no creo en la revolución política, yo creo en la re-evolución poética. La poesía salvará al mundo, es decir, la belleza, porque todos los problemas son por fealdad.»



- Alejandro Jodorowsky





01 setembro 2017

24 agosto 2017






“Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles.
Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sempre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imaginação, me estorvou a sequência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma.”




- Bernardo Soares, Livro do Desassossego





14 fevereiro 2017





e (como aqui contei há já dois anos) por hoje ser o dia do cabrão do love & coiso...














14 dezembro 2016





Desilusão


Quando me ofereceram O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, procurei imediatamente na letra B o verbete sobre o autor.



Afonso Cruz






19 agosto 2016







"There once was a man whose wife was dead. She was dead when he fell in love with her, and she was dead for the twelve years they lived together, during which time she bore him three children, all of them dead as well, and at the time of which I am speaking, the time during which her husband began to suspect that she was having an affair, she was still dead."




- Kelly Link
 
in "The great divorce"






30 abril 2016







"A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso."




(excerto de "Morrer é mais difícil do que parece")
Paulo Varela Gomes (1952-2016…(







21 janeiro 2016






Isa escondia palavras dentro de bocados de pão e depois atirava-os aos pássaros, e era assim que as suas palavras voavam por cima da sua aldeia, como fazem as nuvens carregadas de poemas quase a chover.





Afonso Cruz






01 janeiro 2016






Usher inventou poemas de levar água à boca. Um vidraceiro, séculos mais tarde, chamou-lhes copos, mas o carácter lírico de um objecto daqueles mantém-se com a mesma persistência da sede. E, de cada vez que levamos à boca um copo de água, há ali uma espécie de poema: sabemos que a água não tem sabor e, no entanto, não há líquido que sacie da mesma maneira. Usher sabia que o vazio que a água contém, algo tão neutro como uma página branca, tinha, em si, o mesmo potencial: a ideia de tudo, a possibilidade de ser tudo.
Disse-o: O poema de levar água à boca encerra todo o espaço e todo o tempo possíveis.







Afonso Cruz





20 dezembro 2015







"Merovech, o sábio, tinha uma pena com que escrevia memórias. Um dia, a tinta acabou e ele começou a escrever com o próprio sangue, até a tinta acabar, o que, no fundo, é o que fazem todos os escritores."





Afonso Cruz






06 novembro 2015







“There comes a time when you look into the mirror and you realize that what you see is all that you will ever be. 
And then you accept it. Or you kill yourself. Or you stop looking in mirrors”.





Tennessee Williams







30 outubro 2015






Housekeeping observation




Under all this dirt
the floor is really very clean.





Lydia Davis





25 outubro 2015






“I’ve been working on the same Olympus Typewriter since I was 16. All of my films were written on that typewriter, but until recently I couldn’t even change the color ribbon myself. There were times when I would invite people over to dinner just so they would change the ribbon. It’s a tragedy.”




Woody Allen






11 outubro 2015








“Ler para Borges era ouvir os comentários de Borges sobre aquela leitura. Quando lemos para nós escolhemos os livros, damos uma certa entoação ao texto, descobrimos coisas por nós, reflectimos sobre o que estamos a ler. Nada disto acontecia quando eu lia para Borges. Estava apenas a emprestar-lhe os meus olhos. A escolha do texto era dele, o tom era o dele e, sobretudo, os comentários eram dele. Não era um acto colaborativo – era simplesmente Borges. Ele dizia, “começa”, e eu lia duas linhas e ele mandava-me parar e fazia um comentário, mas o comentário, ainda que fosse dito alto, era para ele próprio, não para mim. Por isso tive esta estranha experiência de ser a testemunha da leitura privada de alguém – e não era qualquer um, mas um dos maiores leitores de todos os tempos. Isso foi um grande privilégio”.






Alberto Manguel






07 outubro 2015






hoje na gulbenkian, durante o lançamento da sua "história da curiosidade", alberto manguel contou-nos um pormenor absolutamente delicioso. ao falar sobre o papel da linguagem e a escolha das palavras referiu que jorge luis borges 
- para quem leu durante alguns anos quando já se encontrava cego - lhe contara que no seu soneto sobre os antepassados portugueses (uma maravilha que já por aqui apareceu), aquele penúltimo verso havia sido escrito inicialmente como "son el rey que en el mágico desierto", porque sempre tinha imaginado o nosso d. sebastião como um jovem adolescente, mas que alguém lhe contara mais tarde que o rei morrera com vinte e quatro anos, o que o fizera modificar o adjectivo para "son el rey que en el místico desierto"






14 setembro 2015







“A arte de ler é, em muitas maneiras, contrária à arte de escrever. Ler é um ofício que enriquece o texto concebido pelo autor, aprofundando-o e tornando-o mais complexo, concentrando-o para que reflicta a experiência pessoal do leitor e expandindo-o para que alcance os mais longínquos confins do universo do leitor e mais além. Escrever, ao invés, é a arte da resignação. O escritor tem de aceitar o facto de que o texto final não será mais do que um reflexo turvo da obra que concebera na mente, menos iluminado, menos subtil, menos pungente, menos preciso. A imaginação de um escritor é todo-poderosa e capaz de sonhar as criações mais extraordinárias em toda a sua desejada perfeição. Depois, vem a descida à linguagem e, na passagem do pensamento à expressão, muito – muitíssimo – se perde. Quase não há excepções a esta regra. Escrever um livro é resignarmo-nos a falhar, por muito honroso que seja esse falhanço.”







Alberto Manguel







30 agosto 2015





"Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s'ouvraient tous les coeurs, où tous les vins coulaient.
Un soir, j'ai assis la Beauté sur mes genoux. - Et je l'ai trouvée amère. - Et je l'ai injuriée.”




Arthur Rimbaud – Une saison en enfer







10 julho 2015






Num poema não se deve repetir o que já foi escrito, nem o que nunca será escrito.






Fernando Guimarães






03 julho 2015






"Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança d'elles. 
E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem."




Bernardo Soares