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08 março 2015






faz hoje oito dias passei a tarde no quarto
arrumando sentimentos (telefonemas
demorados caixotes de canto cheiíssimos)

o que trouxe a chave de casa as portas

do primeiro beijo. no outono caem as

folhas da estante e os livros ficam nus

solto uma fotografia entre o armário e

a parede investindo na surpresa de te

encontrar por acaso na próxima arrumação

do quarto. traço círculos a vermelho

no calendário de parede (sem pressa

de consultar os riscos dentro da mão)

os gatos sempre se deitam sobre o papel

mais necessário







João Luís Barreto Guimarães






18 maio 2014







Pão quente





Escravo do que aparece escrevo
porque acontece (a doença da poesia:
não desejo poesia a ninguém). O que
garatujas na folha ao comprar uma caneta?
Algo assim como «metáfora
resiste à metonímia» ou
«virá o dia em que o simples falar
será poesia»? Este
(com licença)
poema é uma das possibilidades:
a poesia está nas coisas
(pão quente)
destapa-a.







João Luís Barreto Guimarães








29 novembro 2013








Cerveja & remorsos







Os dias: deposito-os na pele. Deus (ou
qualquer coisa por Ele) está com certeza
por trás desta tarde de domingo (o
verão chegando ao fim imenso
em seus labirintos)
acautelamos derrotas milímetro a
milímetro. Por vezes
(mais distraídos) somos
tecnicamente felizes
abrindo nozes ao meio (quais cirurgiões das meninges)
desenrolando croissants à procura
do infinito. Mas
sabes quando sabe
a derrota apesar de ter vencido?
Não se vence por inteiro quando o
tempo é o inimigo.










João Luís Barreto Guimarães










17 novembro 2013










Decepção à regra








Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?










João Luís Barreto Guimarães










27 fevereiro 2012






Por favor não me deixes




Por favor não me deixes o
tubo da pasta dos dentes premido
do lado da ponta.





João Luís Barreto Guimarães






16 fevereiro 2012





A meias




Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.




João Luís Barreto Guimarães