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08 janeiro 2014








dissipação






Os livros são de natureza mineral.
Em alguns se lava, outros se proliferam
como água. Raros pedra,
areia sedimentando eras.  
Rocha da onde brota a sua pele
passa por cima uma formiga.
Há capins vibrando
vento e sol com sombra
o musgo cresce, um mosquito
entra na sua boca e você cuspindo
cai na água que alguém
numa cidade adiante
distante, talvez
sem mágoa
vira a página
bebe.









Júlia de Carvalho Hansen











02 novembro 2013








alforria blues







aceitei que o mar é a única escrita que existe, antes disso
tinha firmado o corpo todo dentro dele até a cintura
sentia o bom sentir que é só sensação
o coração muito arraigado e estriado
o coração como uma batata crescendo na terra

tão contente que desconfiava
dos vaticínios, dos oráculos,
dos conselhos, dos pais,
das leis, dos sãos, afiava
todo o porvir em rios

de ervas - mananciais do ritmo.

então dei a ponta do meu dedo ao céu
e ele, em fluxo, retribuiu.
sopraram-me ao ouvido:
escreva nos bastidores do vivo.

e eu senti a rasante do pássaro que vem me ver.










Júlia de Carvalho Hansen









22 setembro 2013









Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo vivo em mim
como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias.

O mar guardado em tuas gavetas.










Júlia de Carvalho Hansen








25 julho 2013









amor

(fragmento)





vim andando de longe, pensando, pensando

é para os rochedos entre o mar que o amor se vai

quando acaba?

ou é na vida sem lógica sentimental dos peixes?

uma casa em que se tirassem as paredes e o ar caísse

sobre nós?









Júlia de Carvalho Hansen









09 julho 2013









Então olhei pro mar e disse:
tua umidade não me impressiona
as cavidades do meu corpo
contigo dividem
a salina memória do futuro.
A começar pelo coração
granito da tua sístole-diástole
o recorte verde onde acaba a praia
e recomeça o teu dia a dia.
Sou incapaz de assustar o caminho de alguém
mas tão facilmente
vou ferir a fera que vive em ti.
Posso fazê-lo em sonoridade.
Mergulhar
dentro do meu tórax
vivem canivetes que te assaltam
quando respiro
o amor que não me dás.








Júlia de Carvalho Hansen