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16 maio 2022

 




Em  parte  incerta

 

 

 

 

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista

ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada

por um vento que soprasse às avessas.

 

Desde então tem estado

em parte incerta.

 

Mas pelo menos podia telefonar.

 

 

 



A. M. Pires Cabral







19 agosto 2019






Musa  de  braço ao  peito



 
A minha musa anda de braço ao peito.
Tropeçou numa metáfora imprevista,
estatelou-se, fracturou um braço.
Por azar, o direito.

O que quer dizer
que terá de passar a masturbar-me
com a mão esquerda.

O que não sei se será a mesma coisa.

Um azar do caraças.





A. M. Pires Cabral






11 janeiro 2016







Epígrafe




Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.







A.  M. Pires Cabral







04 janeiro 2015






Defeito de fabrico




Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.







A. M. Pires Cabral



14 dezembro 2013








Do mal o menos






Trago assanhada a veia da poesia.
Respinga como um falo escandecido
gotas de sémen, poluindo
tudo em redor. Uma vergonha.

Mas enfim, do mal o menos:
sempre é melhor trazer a poesia
assanhada do que ter, por exemplo,
a aorta dilatada.










A. M. Pires Cabral










05 dezembro 2013










A terceira via






Do alto deste monte, numa manhã assim,
só há duas coisas a fazer:
chatear deus ou deixar deus em paz.

Minto.
É claro que há uma terceira via
(mas dá muito trabalho):

fingir que não o vejo nem o oiço
do alto deste monte
na luz desta manhã.









A. M. Pires Cabral








03 abril 2013









foi para isso que os poetas foram feitos






semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos









A.M. Pires Cabral