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29 março 2026

 




Os justos




Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.






Jorge Luis Borges








14 maio 2025

 



Não entres como turista no coração de uma mulher

 

a tirar fotos

deixando latas de cerveja

procurando só catedrais imensas

e estátuas transparentes

 

com a mochila cheia de mapas
e a fazer refeições rápidas

 

há um país

sete cidades

uma cordilheira e um inverno

no coração de uma mulher

 

não bebas só um copo de mar ali

 

não entres no avião

apanha o comboio da meia lua

não reveles ali as tuas fotografias numa hora

 

se não fizer demasiado frio

entra nu

 

não leves guarda-chuva

 

e sobretudo não cortes árvores

no coração de uma mulher

 

não costumam voltar a crescer.

 

 

 



José María Zonta






08 abril 2025

 





Imunidade

 

 

 

 

Salto aquela parte em que é

preciso lavar as mãos antes

 

do acto. Entro directamente

na parte das bactérias em

 

que o sujo é belo e a vida

não admite lavagens.

 

 

 

 


Maria F. Roldão







11 janeiro 2025

 


 

Estes poemas, disse ela

 

 

 

Estes poemas, estes poemas,

estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor neles. Estes são os poemas de um homem

que abandonaria mulher e filho porque

faziam barulho no escritório. Estes são os poemas

de um homem que assassinaria a sua mãe para reclamar

a herança. Estes são os poemas de um homem

como Platão, disse ela, significando algo que eu não

compreendi mas que mesmo assim

me ofendeu. Estes são os poemas de um homem

que preferiria dormir consigo do que com mulheres,

disse ela. Estes são os poemas de um homem

com olhos como canivetes, mãos como as mãos de um

carteirista, poemas tecidos de água e lógica

e fome, sem nenhum fio de amor neles. Estes poemas

são tão cruéis quanto o canto dos pássaros, tão sem sentido

quanto folhas de olmo, os quais, se amarem, amam apenas

o amplo céu azul e o ar e a ideia

das folhas de olmo. O amor próprio é um fim, disse ela,

e não um princípio. Amar significa o amor

da coisa cantada, não da canção ou do canto.

Estes poemas, disse ela... Tu és, disse ele,

bela. Isso não é amor, disse ela com razão.

 

 

 



Robert Bringhurst

 






01 agosto 2024

 

 

 

Istambul

 


 

Não sabia que um dia

te compararia a esta cidade.

Também não sabia que viria visitá-la sozinho

nem que te escreveria esta carta

para te dizer

que quando está frio num país de calor,

penso em ti.

Que quando vendem

no bazar fruta que não é da época,
penso em mim.

Que quando alguém paga mais do que deve
e é enganado por não saber o troco,

penso em nós.

 

 

 


Manuel Forcano

 





24 julho 2024



 

 

 

Teoria  do  caos

 

 


 

Na superfície

da minha pele humana

há restos

de saliva, beijos, carícias, mordidelas,

esperma,

chupões,
cortes, feridas, golpes, chagas,

suor, cicatrizes,
esfoladelas, sangue, crostas, pisaduras, lesões,

arranhões,

bofetadas,

varizes, bolhas e queimaduras.

 

Não preciso de perfurações nem de tatuagens,

 

o meu corpo

é um mapa.

 

 

 



Anna Gual

 

 

 




10 junho 2024


 


 

Ficções

 

 


 

Podes sempre ler Pessoa sem nunca tentares ser Pessoa

Citá-lo até à idiotia que nada te acrescenta
Cada um de nós tem os seus teatros internos

Alter egos monstruosos que tricotamos numa manta

Ponto por ponto

Cada escritor é apenas leitor de si mesmo

Como Dom Quixote foi leitor de Cervantes

E Hamlet espectador de Shakespeare

Disse Borges 

Em Outras Inquirições

Um escritor pode ser apenas a ficção de um leitor

O leitor a ficção de um escritor

O resto é literatura

Ou poesia se quisermos

Pensei nisto enquanto comia um sonho com açúcar e canela

À mesa da pastelaria.

 

 

 


Ana Paula Jardim

 





17 fevereiro 2024

 


 

 

Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do chão.

 

 

 


Daniel  Faria

 

 

 


 



12 novembro 2023

 



 

Sei que soa igual

 

a análise
sintáctica

ou a de urina

ou a morfológica

ou a de sangue

oferecem resultados idênticos

 

mas não te enganes:

tu e eu já não falamos o mesmo idioma.

 

 

 



José María Zonta

 





10 outubro 2023

 

 

 

 

A  minha  heroína

 

 


Quando a lebre está a cortar a linha de chegada,

a tartaruga pára mais uma vez

na berma,
desta vez para pôr o pescoço de fora

e mordiscar um pouco de erva adocicada,

contrariamente à vez anterior

em que foi distraída

por uma abelha a zumbir no coração de uma flor silvestre.

 

 



Billy Collins

 






29 agosto 2023

 

 

 

 

Pessoas

 

 

 

Lugares donde se levam

coisas: electricidade, volfrâmio,

lítio, granito, resina.

Dizê-lo em voz alta,

em coro, em repetidas

vozes: electricidade, volfrâmio,

lítio, granito, resina,

 

pessoas.

 

 

 



José Carlos Barros

 






17 agosto 2023



 

 

 

Alto  mar

 


 

 

Quando estiver no alto mar e tudo

for água à minha volta, água salgada,

atirarei a vida borda fora.

Quando os meus olhos só puderem ver

a espantosa quantidade de pranto

que constituiu os mares deste mundo,

atirarei a vida borda fora.

Entre esses biliões e biliões

de lágrimas vertidas por alguém,

atirarei a vida borda fora.

E que os inexpressivos tubarões

destruam com os seus dentes o que fui.

 

 

 



Amalia Bautista

 

 





13 agosto 2023

 

 


Telescópio

 

 

 

Há um momento após desviares o olhar
em que te esqueces de onde estás
pois tens vivido, parece,
noutro lado, no silêncio do céu nocturno.
 
Deixaste de estar aqui no mundo.

Estás num lugar diferente,
um lugar onde a vida humana não tem sentido.
 
Não és uma criatura num corpo.
Existes como as estrelas existem,
participando na sua quietude, na sua imensidão.
 
Até que volta a estar no mundo.
De noite, numa colina fria,
a desmontar o telescópio.
 
Só depois percebes
que não é falsa a imagem
mas a relação.
 
Vês de novo como cada coisa
fica tão longe de todas as outras.
 
 
 


Louise Glück

 





26 julho 2023

 


 

 

Qual  é  a  tua  razão  de  ser ?

 

 


À vinda do supermercado
diz-me o pequeno monstro 
que às vezes me faz companhia:
«E qual é a tua razão de ser?» 

Na rua, a tarde rola devagar 
entre prédios murchos — e ele
acrescenta: «Não me digas 
que são os versos.»

E ri-se.


 

 


Rui Pires Cabral

 

 






10 julho 2023

 



 

 

Lisboa  sob  névoa

 

 

 


Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba. 
Informes, as casas 
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada, 
as paredes são menires, 
pedras antigas, vagas 
sem princípio, sem fim.

 

 

 

 

Fiama Hasse Pais Brandão

 






15 maio 2023

 

 

 

 

Dentes  podres  em  Lisboa


 

 

 

O poeta medíocre

encheu os pulmões

de ar maligno
e disse para as paredes

que como sempre

o cercavam:

“chega de poemas de amor”.

 

Não demorou a perceber,

o poeta medíocre,

que sem poemas de amor

ele não existia sequer

- ou era ainda,

na melhor das hipóteses,

mais medíocre

do que se acostumara a ser.

 

As palavras afluíram-lhe então

como um vómito frio e cansado,

dentes podres de uma musa

“que já foi com todos”

e com ele também.

 

 

 



Manuel de Freitas

 





05 maio 2023

 


 


 

Tece perfumes e rendas, dobra palavras, efémeros silêncios.
Para o corpo pede uma qualquer hora de encanto, um olhar.

Falo da beleza dos seus olhos e o rosto estremece, cúmplice.

 

 





Helga Moreira

 






11 abril 2023

 



 

 

de tanto correr

a fugir do meu inimigo
esqueci-lhe o rosto

agora receio

encontrá-lo de frente

e não o reconhecer

 

 

 


Ferran Fernández