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26 fevereiro 2016






Oferta




Até aqui a rosa. Para além
fica a imagem que nos traz o dia,
a mesma sombra, a curva que contém
tudo o que nela aumenta e não havia.
Um frémito, um vestígio como a renda
que nasce com os gestos, o tecido
em que as mãos (já unidas) são a senda
que nos leva ao limite pressentido:

uma outra rosa, aquela que habitava
nas sementes de tudo o que te dava.






Fernando Guimarães







08 agosto 2015





Velhice




os barcos da idade, o último aceno
devagar recolhido e a que pertence
o sulco de outra casa, cujo centro
se aviva em qualquer rosto, e eram redes

de veias, neste azul, ao percorrerem
o sono, onde começa o tão funesto
brilho dos olhos que se oculta e veste
de sombra os nossos corpos, a que o tempo

já distende o seu círculo, para abrirem
da casa maternal os ramos leves
e frustes que tocaram este espaço

porque mais nada existe: assim as ondas
que cercam só a margem de chegar
junto a um desenho calmo, se era o mar.






Fernando Guimarães




27 julho 2015





Arte poética




Tu lês este poema. E para quê?
Que procuras tu nele? O movimento
dos mesmos lábios, sombra que se vê
cair sobre as palavras, o tão lento
bafo animal pela atmosfera fria
ou talvez, junto a um rio, esta viagem
que ignoramos e cerca a noite e o dia
com outra face? A metáfora, a imagem?

Lê o poema, escuta a própria voz
dele, que não é minha, e só existe em nós.






Fernando Guimarães






10 julho 2015






Num poema não se deve repetir o que já foi escrito, nem o que nunca será escrito.






Fernando Guimarães






02 julho 2015






Nudez




Vertical, pelo corpo
a nudez principia
como a primavera no tempo
ou a luz junto aos olhos.

Pressentida verdade
que nos une. Em silêncio
regressamos à origem
dessa praia longínqua.

Ali, nenhuma imagem
altera o seu destino.
Como um fruto, procura
a direcção da terra.

Apenas as nossas mãos
ignoradas desprendem
os cabelos: memória
de remotos vestidos.







Fernando Guimarães





17 maio 2015







Árvore





Conheço as suas raízes. É tudo o que vejo.
Há um movimento que a percorre devagar. Não sei
se ela existe. Imagino apenas como são os ramos,
este odor mais secreto, as primeiras folhas
aquecidas. Mas eu existo para ela. Sou
a sua própria sombra, o espaço que fica à volta
para que se torne maior. É assim que chega
o que não passa de um pressentimento. Ela compreende
este segredo. Estremece. Comigo procuro trazer
só um pouco de terra. É a terra de que ela precisa.






Fernando Guimarães






[para a Rosa]

24 julho 2012

19 junho 2012




Post Coitum Animal Triste












Em ti o poema, o amplo tecido da água ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensão e principias a entregar

os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.




Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as árvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestígio dos últimos peregrinos, aves nuas

que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.




Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos

perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.




Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico

junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.













Fernando Guimarães









11 junho 2012





A verdade cabia nos teus olhos




A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?






Fernando Guimarães