Mostrar mensagens com a etiqueta inês lourenço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta inês lourenço. Mostrar todas as mensagens

12 março 2022

 

 



Da  epistolografia

 

  

 

Chegou uma carta. Trazia

muitas folhas escritas. Só uma delas
vinha em branco, não sei se

por esquecimento ou cortesia, a oferecer

um vestíbulo para os olhos

incinerados.

 

 

 



Inês Lourenço

 






29 julho 2019





Ítaca  sem  gatos



Nenhum gato reconheceu Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato.




Inês Lourenço





10 junho 2013








Consoantes átonas






Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência


tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.










Inês Lourenço









28 janeiro 2013









Ária





É belo o tempo de Inverno,

no silêncio, a lenha húmida

das maternas canções da chuva.

Na lentidão de Janeiro

fica mais longe a morte. As aves

habitam nos beirais

como príncipes destronados.







Inês Lourenço







01 maio 2012





Silêncio




Falas muito
de silêncio, nos
teus livros, como
alguém que jejua
entregue a lautos
banquetes. É essa
a contradição do poema. Nasce
para a mudez, mas
como a música, respira
por sons.





Inês Lourenço