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09 agosto 2022

 



  

Canina

 

 

 

 

Outra criatura se recorta nos meus gestos.

Outra que a devassa
a natureza, a melancólica prática da carne

acesa em lanhos vivos,

beiços, o mínimo arroubo de dentes

no escuro. Outra criatura pousa.
Come e dorme com regalo,
pela tarde beberica
esparsas brisas no caramanchão.
Odeia uns quantos, ladra muito.
Também ama, se entre o medo
um soldado lhe desarticula a alma,
e sente-lhes o cheiro quando à terra
chegam ossos de indigesto esplendor.

 

 

 



Andreia C. Faria

 






25 julho 2019






Caligrafia




Mesmo agora, que degenera, a caligrafia
é o menos erótico dos desportos
É, como o ténis, capaz
de cindir um pulso, e discreta e melancólica
como a masturbação - na página
desmaia a breve tinta, o obtuso instante
em que a língua molha os lábios e pende
para a pressa ou para a abstracção

E exige ainda assim disciplina histórica,
fluência
entre a mão e o pensamento,
o bom entendimento de cada caracter
Quase já só a usam os velhos merceeiros
no vagar da penumbra, ou por capricho
os noivos em convites de casamento

Não, nem sequer é um desporto
Ninguém se adestra
numa prática de solidão





Andreia C. Faria





13 julho 2019





Flúor



Agradeço-te, mãe, o flúor 
que até aos seis anos tomei em comprimidos
Serve de herança a melhor dentição
Deste-me as falhas, também 
o carácter, mero utensílio
da sorte com que encarar os dias
o silvar nas frinchas
da fala
as dores
e o ranger da criação

Se pela bica começasse
a alma a abrir-se e por tal paisagem
divisasse eu primeiro
a oclusão do céu deixando
intacta na terra
a geração dos vivos
poderia (e tu pela raiz)
salvar-me antes mesmo
de aprender a ler




Andreia C.  Faria





24 junho 2019






Avis  rara



Dizem que é do clima, que o tempo está a mudar.
O ovo entristece a andorinha.
O corvo já é só um emblema. Lá em cima
os aviões transportam toda a carne
outrora cobiçada pela águia-real.

E o que é que as aves têm que ver com isto?
Nenhuma é rara, se lhe perguntam.
Nenhuma, como eu, acólita
do vento em não-lugares.




Andreia C. Faria





17 dezembro 2018






Tinhas as bocas cosidas num sopro

Tinhas nas coxas,
no correr inflamado das ondas, a quebra
maleficente das ostras

Tinhas por dentes
linho, pérolas e fímbria
Por todo o corpo pintavam-te de Índia -

(o pano, dobrado,
unia ponta com ponta,
seios com sexo e boca)

Tinhas as duas bocas
abertas juntas na minha
opus nocturna




Andreia C. Faria





04 setembro 2018






Sou a mulher que se mata por amor a ti
e a mulher por amor de quem se morre
Sou o rapaz que há como uma água turva
na mulher por quem se morre
o bucal húmido do telefone onde ela expia
pensamentos violentos como plumas
Sou a pluma que lhe abre os lençóis
a lasca de madeira sobre a mesa
a lâmina à espera
que a nudez dê frutos
Sou aquilo que fere o rapaz
e a roupa que o tapa
Sou o brilho da janela onde a mulher
se balança




Andreia C. Faria