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26 outubro 2022


 


olha,

eu sei que não nos queremos

foram demasiadas

as noites de artilharia

mas hoje deitei-me

eram sete da tarde

acho que sonhei contigo

(não interessa)

acho que te vi ao longe na rua
(também não interessa) 
ouço ao fundo a ambulância

e penso se ainda estarás vivo

se existe algures num universo paralelo

a versão viúva de mim

mas a luz pousa na mesa

a tarde estaciona

mesmo frente à estante

e pergunto-me se saberei confessar

que perdi o livro que me ofereceste

é esse o meu favorito

e perdi-o

mas isto nunca conto a ninguém

como não conto do teu sorriso

a vinte e três de dezembro

chovia

o número da porta

eu desconhecia

havia uma festa algures

(e isto não interessa para nada

mas ainda hoje me pergunto

como é que eu não sabia)

porque a festa

eras tu.

 

 




Francisca Camelo







04 janeiro 2020

25 dezembro 2019





o  quarto  rosa



hoje reparei que a tira magenta
da embalagem de rivotril
combina com as paredes
do meu quarto rosa:
foi a primeira vez que me deram
comprimidos com algodão
menina, é dormir tudo o que eu quero
não é morte o que vim comprar
só preciso de algum descanso,
sabe,
vou confessar-lhe,
é a dormência nas mãos
momentos antes de adormecer
sobretudo adoro
não me preocupar mais
com as horas de sono
que me restam
com os dias de vida
que me gastam
isso e veja bem a harmonia das cores
a caixinha magenta
fica tão bem
no meu quarto rosa.




Francisca Camelo





23 setembro 2019





ao  poeta  que  me  envia  árias  avulsas



andas muito lírico, amor.
não compreendo
a tua necessidade
de ouvir ópera sem parar, isso
não existe essa grandeza dos afectos essa adolescência momentânea
os corpos rosáceos
sob um tecto de estrelas
isso não existe, meu amor.
agarra-te ao trabalho no supermercado abraça a dormência da rotina
esquece os romances
deixa de escrever e sobretudo
não ouças mais ópera que isso
não existe, amor, e se existir
não é perto de nós.
paga a renda, come chocolates,
consolida, filho, consolida,
que o inverno vai ser longo e esses cravos na parede e essa força
e esse amor universal não existem
nada disso existe
por isso agarra bem os talões de desconto, serão a maior carta de amor no
teu correio, ajuda as velhas a atravessar a rua
bebe até cair
mas só a partir das oito da noite
que não te deixam sair antes do trabalho larga a literatura
deixa os clássicos para reciclagem
mas se for poesia
queima-a:
o verso livre é perigoso.
larga os amores, as flores e os cravos agarra-te ao boletim de voto e às
revisões constitucionais mas só se te deixarem sair do trabalho para as urnas.
a última vez que fodeste a sério
eras adolescente e já nem sabes
se foi assim tão bom mas
não te preocupes com mais,
o prozac não esquece a alegria,
acaba o cigarro, abotoa o colarinho
toma a certeza de que só essa cadeira
é o teu lugar no mundo:
volta para dentro sorriso
amarelo ombros
encolhidos cabeça
baixa, barba feita que
não deixam que cresça porque
fica mal, fica-te tão mal
esse pensar divergente
mas sobretudo
larga a ópera, que
andas muito lírico.





Francisca Camelo





15 agosto 2019





primeiro: o coração



primeiro: o coração. se calhar dois (um para quando se morre outro para
a espera do milagre)
e o teu sorriso icónico
já perto de desaparecer:
há coisas que só depois percebemos que devíamos
ter roubado –
e mais tarde o que me
fica nas mãos,
demasiado íntimo
para carregar comigo enquanto faço as rotinas
na loja do costume e perguntam
como vai? e sei por
dentro que o teu sexo me ficou no cheiro,
por isso sorrio e genuinamente
respondo que
muito bem, cá se vai
andando
e sorrio de novo
no meu corpo o teu rasto
o arrepio de só há pouco
teres saído:
volta, estou tão perto
(se todas as noites me visitasses seria tão fácil morrer)
enquanto por dentro falo
calada
a dizer tanto
e o corpo, o corpo e o sorriso
que não voltei a ver,
o sexo
a namorada que guardas na gaveta
lá de casa quando apareço: mas primeiro sorrio primeiro faço as compras
da loja
do costume sorrio de novo
os morangos estão fora de época
o teu sexo numa estufa
as laranjas enormes,
com uma cor de encher
os olhos, mas primeiro,
o coração.
primeiro: o coração.




Francisca Camelo