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29 dezembro 2018






Cicatriz



A cicatriz das tuas derrotas
é o tapete que te leva
ao prado onde floresce
o jacinto azul





José Tolentino Mendonça




10 abril 2014








Muitas vezes Deus prefere
entrar em nossa casa
quando não estamos








José Tolentino Mendonça











[ palavras sem clorofila para a rosa em seu jardim ]  

14 março 2014







O meu desejo na primavera:
que mesmo as flores selvagens
venham florir à minha porta







José Tolentino Mendonça









09 setembro 2013









Fogueiras e gelos





Contra o coração
abraçava ramos de flores magras e azuis
sentimentos muito triviais
e por vezes a maior escuridão

Perseguia sem cessar certos gestos
que na paz 
seriam seus








José Tolentino Mendonça










21 abril 2013









Dentro de casa





Todas as casas se parecem
com um naufrágio ou um saque
testam sucessivamente a elasticidade de gerações
compõem-se de heranças, jogos descasados,
cinco ou seis cores que vão ficando
sinais de um poder apenas atenuado

Quando estamos fora
à mercê dos elementos
o mundo celebra em nós
aquilo que se extingue








José Tolentino Mendonça








12 dezembro 2012









Murmúrios do mar








«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

 
O Inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro


 
Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem


 
Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois


 
«Pago-te um café se me contares
o teu amor»










José Tolentino Mendonça










27 novembro 2012











Da verdade do amor







Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito


pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados


não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor










José Tolentino Mendonça












 

14 outubro 2012










Isto é o meu corpo






O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhes aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me
aprendo a cair e a perguntar








José Tolentino Mendonça












25 maio 2012






A noite abre meus olhos





Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado


Ferrugens cintilam no mundo
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes


A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta


o amor é uma noite a que se chega só






José Tolentino Mendonça






18 abril 2012





Para ler aos noviços




Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender
a escuras perícias


A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito


Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas do bosque
te cubram






José Tolentino Mendonça






07 fevereiro 2012








O poema







O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de
incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do
apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há
poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O
poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos
nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no
mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O
poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agi-
tação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o
inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina
o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que
o mundo repudia.








José Tolentino Mendonça