já me senti mais
sozinho, mas por vezes penso numa vida a dois. voltar a ter uma, quero dizer. durante
algum tempo andei obcecado com esse conceito, o da minha cartografia emocional.
e de facto essa ideia, a de “voltar a encontrar alguém” é comum aos homens
temporariamente sós (ai que cabeças no ar…). alguns olham em redor, procuram a
eleita nos olhares trocados no metro, ou em breves trocas de palavras nos
supermercados. outros têm sempre presentes os versos daquela canção (“when i was a young boy, my mama
said to me: there's only one girl in the world for you but she probably lives
in tahiti”) e percorrem o mundo, real e figurado, numa tentativa de mapeamento
passional, sempre infrutífera. eu já fui alguns. e também outros… assim sendo,
lidos os astrolábios, interrogadas as estrelas, consultadas inúmeras cartas de
marear, consciente da existência de uma cosmogonia cada vez mais vasta (o desvio no
espectro electromagnético de emissão dos quasars mais longínquos diz-me que
o universo está em expansão…) e não parecendo ser a lua o prometido terreno fértil do ponto
de vista sentimental, talvez devesse começar a pensar nos planetas mais
próximos. vejamos…
esperada marcianita
asseguram os homens de ciência
que em dez anos mais, tu e eu
estaremos bem juntinhos
e nos cantos escuros do céu
falaremos de amor
tenho tanto te esperado
mas serei o primeiro varão
a chegar até onde estás
pois na terra sou logrado
em matéria de amor
eu sou sempre passado pra trás
eu quero um broto de marte
que seja sincero
que não se pinte, nem fume
nem saiba sequer o que é rock&roll
marcianita, branca ou negra
gorduchinha, magrinha
baixinha ou gigante
serás meu amor
a distância nos separa
mas no ano 70
felizes seremos os dois