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11 outubro 2015








“Ler para Borges era ouvir os comentários de Borges sobre aquela leitura. Quando lemos para nós escolhemos os livros, damos uma certa entoação ao texto, descobrimos coisas por nós, reflectimos sobre o que estamos a ler. Nada disto acontecia quando eu lia para Borges. Estava apenas a emprestar-lhe os meus olhos. A escolha do texto era dele, o tom era o dele e, sobretudo, os comentários eram dele. Não era um acto colaborativo – era simplesmente Borges. Ele dizia, “começa”, e eu lia duas linhas e ele mandava-me parar e fazia um comentário, mas o comentário, ainda que fosse dito alto, era para ele próprio, não para mim. Por isso tive esta estranha experiência de ser a testemunha da leitura privada de alguém – e não era qualquer um, mas um dos maiores leitores de todos os tempos. Isso foi um grande privilégio”.






Alberto Manguel






07 outubro 2015






hoje na gulbenkian, durante o lançamento da sua "história da curiosidade", alberto manguel contou-nos um pormenor absolutamente delicioso. ao falar sobre o papel da linguagem e a escolha das palavras referiu que jorge luis borges 
- para quem leu durante alguns anos quando já se encontrava cego - lhe contara que no seu soneto sobre os antepassados portugueses (uma maravilha que já por aqui apareceu), aquele penúltimo verso havia sido escrito inicialmente como "son el rey que en el mágico desierto", porque sempre tinha imaginado o nosso d. sebastião como um jovem adolescente, mas que alguém lhe contara mais tarde que o rei morrera com vinte e quatro anos, o que o fizera modificar o adjectivo para "son el rey que en el místico desierto"






14 setembro 2015





[ leituras ]








“uma história da curiosidade”
alberto manguel
ed. tinta da china



conheci manguel pelo seu dicionário de lugares imaginários, depois pela sua história da leitura e, mais tarde, através do seu relato dos tempos em que leu para um borges já cego - e tive agora a confirmação da profunda influência que o ouvinte exerceu sobre o leitor.
numa edição cuidada e graficamente apelativa, este é um livro pouco comum nos tempos que correm. um crítico citado refere ser um livro infinito, no sentido borgesiano, e tem toda a razão. ficamos imediatamente presos a este texto: um encantamento similar ao da primeira leitura de um dos antigos clássicos, como foi mágico esse momento - e como ainda o recordamos, tão nítido... 
manguel apoia-se em dante e, numa espécie de redescoberta da divina comédia, vai tecendo uma rede em torno da nossa ideia de curiosidade, fundindo literatura, arte e filosofia. aprisionados nessa teia ficamos a conhecer um pouco mais de shakespeare, diderot, são tomás de aquino, oscar wilde, ulisses, sherlock holmes, tennyson e tantos outros, num desfile interminável de personagens de um país das maravilhas, em que a maior é a curiosidade pela curiosidade.
embora acabe por ser de algum modo um relato autobiográfico, é também muito mais do que isso: são muitos livros num só. 

e, à semelhança dos ensaios de montaigne - o leitor actual mantém a sensação de que foram escritos ontem para serem lidos hoje por si e para si - há parágrafos verdadeiramente geniais, como o que transcrevo em seguida.












“A arte de ler é, em muitas maneiras, contrária à arte de escrever. Ler é um ofício que enriquece o texto concebido pelo autor, aprofundando-o e tornando-o mais complexo, concentrando-o para que reflicta a experiência pessoal do leitor e expandindo-o para que alcance os mais longínquos confins do universo do leitor e mais além. Escrever, ao invés, é a arte da resignação. O escritor tem de aceitar o facto de que o texto final não será mais do que um reflexo turvo da obra que concebera na mente, menos iluminado, menos subtil, menos pungente, menos preciso. A imaginação de um escritor é todo-poderosa e capaz de sonhar as criações mais extraordinárias em toda a sua desejada perfeição. Depois, vem a descida à linguagem e, na passagem do pensamento à expressão, muito – muitíssimo – se perde. Quase não há excepções a esta regra. Escrever um livro é resignarmo-nos a falhar, por muito honroso que seja esse falhanço.”







Alberto Manguel







16 julho 2012













(…) 
Há ocasiões em que é ele próprio quem escolhe um livro de uma das estantes. Sabe, evidentemente, onde está cada exemplar e dirige-se ao respectivo sítio, infalivelmente. Mas por vezes encontra-se num lugar onde as estantes não lhe são familiares, numa livraria nova por exemplo, e sucede então qualquer coisa de inquietante: Borges percorre com as suas mãos as lombadas dos livros, como abrindo caminho com o tacto pela superfície acidentada de um mapa em relevo e, embora desconheça o território, a sua pele parece decifrar a geografia. Fazendo correr os seus dedos por livros que nunca antes abriu, qualquer coisa de semelhante à intuição de um artífice lhe dirá de que se trata o volume que está a tocar. Chega a ser capaz de decifrar nomes e títulos que com certeza não pode ler.
(…)








Alberto Manguel