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07 fevereiro 2016







Volta à amada em uma semana





No primeiro dia eu disse para mim mesmo
que o amor era a casa da minha vida.


No segundo dia as maravilhas
do amor quase me cegavam.


Guardei o terceiro dia para meditação.
Precisava reentrar em mim.


No quarto dia senti-me sábio,
cheio de janelas e fragrâncias.


Ó quinto dia, gritei, nunca tu viesses,
dominador, devorador!


Mas no sexto dia eu era um oceano
banhando esse país rumorejante


aonde, com a guitarra ao ombro,
aportei no sétimo dia.







Fernando Assis Pacheco







23 janeiro 2016






Um campo batido pela brisa





A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.








Fernando Assis Pacheco








17 julho 2015





Esta areia fina




Não sei
se o que chamam amor é este apaziguamento.
Não sei se comias fogo. Tuas abelhas
voam agora em círculos tranquilos.
Mães serenam seus filhos no ventre,
não sei se o que enfim chamam
amor é esta areia fina.

Agora estamos um dentro do outro,
fazemos longas visitas deslumbradas
porque «o nosso prazer lembra um rio vagaroso
no meio de juncos ao cair da tarde.»

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
falaríamos melhor de tudo isto.
Não sei se o que chamam amor
é a cama desfeita o sol fugindo,
uma vontade louca de beber
a grandes goles a noite entorpecente.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:
morremos a meio do filme
simples, calada, delicadamente.
Eras tu, amor? - Era eu, era eu!

Um barco junto à margem. E cegonhas.






Fernando Assis Pacheco






18 junho 2015







Fala-se de amor para falar de muitas

coisas que entretanto nos sucedem.

Para falar do tempo, para falar do mundo

usamos o vocabulário preciso

que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor

as estradas que servem o meu território.

Quer dizer: eu estou mais acordado,

não me enredo nas silvas, não me enredo,

não me prendo nos cardos, não me prendo.

Quer também dizer: amar-te-ei

cada dia mais, estarei cada dia
 mais
acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme

definitiva irremediável morte,

do carro tombado na valeta

sacudindo uma última vez (fragilidade)

as rodas acendedoras de caminhos

- eu lembraria que o amor nos dá

uma forma difícil de coragem,

uma difícil, inteira possessão

de nós próprios, quando aveludada

a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento

às coisas regulares e irregulares do mundo. 

Ou também: eu envio o amor

sob a forma de muitos olhos e ouvidos

a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo

da escuridão do mundo.

Porque tudo se escreve com a tua letra.







Fernando Assis Pacheco






09 janeiro 2013











Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.


Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.


Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de miostérios e imprecisões.
Engolirá fogo.


Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.








Fernando Assis Pacheco









06 dezembro 2012











Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.


Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.


Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.









Fernando Assis Pacheco









11 setembro 2012










os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves


eu vivo atado às tuas mãos suaves
num nó de que este corpo já não sai
ferve o arco de sol a tarde cai
ardem voando pelo céu as aves


mágoas outrora muitas fabriquei
e em países salobros jornadeei
ao dorso das tristezas almocreves


a vez em que te amei um outro fui
comigo fiz a paz nada mais dói
e os trabalhos de amor nunca são graves










Fernando Assis Pacheco










10 março 2012





Com a tua letra




Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.


Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.





Fernando Assis Pacheco