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24 agosto 2017






“Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles.
Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sempre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imaginação, me estorvou a sequência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma.”




- Bernardo Soares, Livro do Desassossego





03 julho 2015






"Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança d'elles. 
E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem."




Bernardo Soares




15 janeiro 2015





"Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até d’este quarto andar sobre a cidade se pode pensar no infinito. Um infinito com armazens em baixo, é certo, mas com estrellas ao fim... É o que me ocorre neste acabar de tarde, à janella alta, na insatisfação do burguez que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser."





Bernardo Soares





02 agosto 2014






As carroças da rua sonsonam, sons separados, lentos, de acordo, parece, com a minha sonolência. É a hora do almoço mas fiquei no escritório. O dia é tépido e um pouco velado. Nos ruídos há, por qualquer razão, que talvez seja a minha sonolência, a mesma coisa que há no dia.
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Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito então parece-me a eternidade.







Bernardo Soares













[a fugaz livraria do desassossego ]




09 julho 2014





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Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes – portos que fossem apenas o entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios, estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. É que nunca viajastes como eu. 
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Bernardo Soares





09 maio 2014







"Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde."





Bernardo Soares









20 agosto 2013









Todas as naus são naus de sonho logo que esteja em nós o poder de as sonhar.

(…)
O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.









Bernardo Soares










07 agosto 2013









Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.
Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.








Bernardo Soares







13 junho 2013







"Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo."




- Bernardo Soares 






(fernando antónio, um dos irmãos de bernardo, festeja hoje cento e vinte e cinco risonhíssimas primaveras. saudades do tempo em que festejavam o dia dos seus anos...)

08 abril 2013









(…)

Se não fosse o sonhar sempre, o viver num perpétuo alheamento, poderia, de bom grado, chamar-me um realista, isto é, um indivíduo para quem o mundo exterior é uma nação independente. Mas prefiro não me dar nome, ser o que sou com uma certa obscuridade e ter comigo a malícia de me não saber prever.

Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.

(…)







Bernardo Soares








29 outubro 2012










(…)
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que não podia imaginar.
(…)








Bernardo Soares









20 setembro 2012











Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. (…) Um romance é uma história que do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso. (...)








Bernardo Soares







05 agosto 2012








A minha imagem






A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
Deus é o existirmos e isto não ser tudo.







Bernardo Soares










07 julho 2012





(…)

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
(…)
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas.
(…)









Bernardo Soares







10 maio 2012





(…)
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.
(…)





Bernardo Soares






02 maio 2012





(…) Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Medito, então, em uma modorra de físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer.
O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia (…)




Bernardo Soares