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30 março 2017






Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar por que não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.






José Miguel Silva






23 maio 2015






Como nos bares decrépitos
do red light district, há letras
do meu nome que já não
se acendem e outras
que piscam ou
tremeluzem
a noite inteira.






José Mário Silva





25 julho 2014






rua serpa pinto, n.º 6, 2.º esq.





O corredor, a alcatifa, a mesa
da cozinha, a disposição dos
quartos, a cor dos azulejos,
o branco das paredes, a vista
para o muro das traseiras.
As casas que habitámos
ainda nos habitam.








José Mário Silva





05 julho 2014






Literatura






Esperávamos por
ela na esplanada,
sábados à tarde,
como quem espera
aquele amigo mais velho,
tão ingrato, que um dia
deixou de nos falar.








José Mário Silva








05 junho 2014






Espelho retrovisor




Quando olho para
trás, nem sempre
sei que tempo se
esconde nestes
versos.





José Mário Silva