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26 junho 2015





Navegações doentes




Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluidos
e o devaneio em barcos de desejo

Os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

Tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos







Ana Luísa Amaral






29 agosto 2014







A mais perfeita imagem





Se eu varresse todas as manhãs as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o chão
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.






Ana Luísa Amaral





06 fevereiro 2014









(...)
Se soubesses (que nunca soubeste) como te amei. Ou não era amor, era paixão. Apaixonada por ti, passava dias a pensar se vier, se não vier. E uma palavra tua: mais que um sol inteiro.
(...)
Ao meu lado, hoje, olhava a tua nuca. A minha mão à distância possível, mas à distância toda da impossibilidade, do que não posso, não devo, não ouso. Mas quero.
(...)
Por que te permiti que entrasses, porquê um telefonema, porquê continuar em folhas (tantas) uma amizade que eu só queria amizade, mesmo querendo amor? Desejava tanto só amizade. Ser capaz de te amar só assim. Sem este tremer de vela que eu não sei apagar. Não sei. Não sou capaz. E nunca to direi, nunca a coragem de uma confissão.
(...)
Queria beijar-te. Como não deve ser, mas como deve ser. Sabes como me sinto quando falas assim, em displicência e riso, de coisas tão de corpo?
(...)









Ana Luísa Amaral

(excertos de Coisas de rasgar, em “Ara”)










24 agosto 2013










Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti.

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda es-
tragada quando te penso amor.

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.










Ana Luísa Amaral 












[ lê-se melhor aqui ]

20 fevereiro 2013









Tento empurrar-te de cima do poema







Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.









Ana Luísa Amaral









[ lê-se e vê-se muito melhor aqui ]


31 janeiro 2013











Reflexos







Olho-te pelo reflexo

Do vidro

E o coração da noite

E o meu desejo de ti

São lágrimas por dentro,

Tão doídas e fundas

Que se não fosse:

o tempo de viver;

e a gente em social desencontrado;

e se tivesse a força;

e a janela ao meu lado

fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo

e em estilhaços de vidro

mergulhava em ti.










Ana Luísa Amaral











24 agosto 2012










Um céu e nada mais








Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.











Ana Luísa Amaral












17 julho 2012











Título por haver







No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)


Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)


Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso









Ana Luísa Amaral










30 março 2012






Lua de papel





Se eu cantasse o amor sem resultado ou causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados


Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em luas-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor


Assim o que me resta é lua cheia a trans-
bordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa a insistir papel. E amor.






Ana Luísa Amaral