27 abril 2018






Frutos do acaso





Tal como tudo
o cheiro do lápis acabado de afiar
vai-se embora.
No cinzeiro
a ponta do cigarro que arde
desperta o cedro.
Tal como tu
o cheiro regressa. 





Marta Chaves



20 abril 2018





eu usava uma armadura
que me traiu duas vezes:

foi insuficiente para defender o golpe
foi eficaz a esconder a ferida.






André Tecedeiro






12 abril 2018





{ a  fábula  que  a  minha  mãe  merecia }





era uma lenda fabulosa, em que a minha mãe me contava histórias
enquanto passava a sua doce mão pela minha cabeça. narrativas e
viagens jamais realizadas mas que, por uma outra mão, a da sua voz,
aconteciam mesmo, caminhadas escritas com essas mesmas palavras.
e eu queria como o almada que ela atasse as suas mãos às minhas e
desse um nó cego e muito apertado, para nunca delas me separar. as
suas mãos eram o meu refúgio e todo um mundo ainda por descobrir,
quando ela passava a sua mão pela minha cabeça era tudo tão verdade.
mas depois senti que a tinha traído, porque o eugénio me lembrou que
ao crescer tinha deixado de ser o retrato adormecido no fundo dos seus
olhos meigos, embora eu ainda fosse aquele menino que adormecera
no seu olhar. o meu corpo é que crescera, saíra da moldura e voara com
as aves. só queria que soubesses que não me esqueci de nada, mãe, as
tuas mãos continuam nas minhas, as histórias hão-de ser escritas e nem
as palavras se perderam, pois guardei sempre a tua voz dentro de mim.