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27 junho 2017






fábula de uma lisboa mais amarga




era um sítio mágico, suspenso no tempo, ao fundo daquela avenida inundada de jacarandás. 
e quem olhava para o edifício nunca adivinhava os segredos escondidos no seu interior. 
ali pude ver bom teatro e ouvir boa música, foi naquele bar que reencontrei amigos 
que não via há trinta anos. e, claro, jamais esquecerei que naquelas salas foram lançados 
os meus dois (três) livrinhos. para além da profunda tristeza pelo sentimento de impotência
perante esta vertigem voraz do imobiliário, que vai matando lenta e inexoravelmente 
as memórias mais doces da cidade, só lamento não poder ser ali que se irão festejar 
os gloriosos duzentos e sessenta e quatro aniversários da imortal cossoul.






http://observador.pt/2017/06/26/depois-de-132-anos-a-sociedade-guilherme-cossoul-precisa-de-uma-morada-nova/






13 junho 2017





... e, no dia em que se celebram as tuas cento e vinte e nove risonhas primaveras,
apeteceu-me, fernando antónio, recordar uma das tuas (minhas) fábulas de lisboa: 




  rua  garrett






e então sonhava ser um faraó quando éramos muitos dentro de mim
alberto, ricardo e álvaro falavam-me sempre no nobre porte de kheops
e bernardo achava que o meu perfil lhe lembrava muito o grande ramsés
mas eu sabia que se tivesse conhecido tutankhamon teria sido mais feliz
na certeza de ter encontrado uma improvável alma gémea longe do nilo
à beira-tejo neste rio à beira-sonho que desagua tão perto do à beira-eu

agora, mumificado para sempre na memória dos que sobem a rua garrett,
espero… mas sei que ninguém se sentará ao meu lado neste vale dos reis

  







30 novembro 2015









não me digas outra vez, fernando antónio, que andam todos por aí a comentar que desapareceste faz hoje oitenta anos.
mas, sabes, já nem adianta repetir vezes sem conta que não é verdade, que ainda há pouco estive sentado contigo numa esplanada no chiado, onde uma rapariga te ofereceu duas flores - e que pousaste uma delas na aba do chapéu.







21 novembro 2015

08 abril 2014

[ outra fábula de lisboa esquecida ]








na  morte  de  de  coninck







dizem que veio sombrio avisar: morrerá um poeta vivo nestas ruas
e alguém fechará os seus olhos, que ele desejava abertos sobre o mar


e pareceu ser verdade: a chuva lava o nome do teu corpo agora feito chão
olhado por uns e pisado por outros - afinal esse o destino de um poema


não sei que blues se ouviram no dia em que saíste do mundo
apenas vejo esse anjo a tocar um lamento por ti na harpa fria


mas caíste em lisboa por ser a única cidade onde um poeta tomba
e logo o seu nome é escrito em letras de pedra e esculpido em nós










o poeta flamengo herman de coninck morreu tragicamente em lisboa, a caminho da fundação gulbenkian, onde iria participar num encontro sobre poesia. 
no local onde tombou, na rua marquês de sá da bandeira e entre as pedras da calçada do passeio, há uma lápide evocativa do seu nome.

08 agosto 2013






fábula da minha lisboa mais linda que a tua












a minha lisboa é mais linda que a tua porque é sempre vista a preto e branco.
sempre achei curiosa a necessidade de descrever lisboa associada às cores, 
habitualmente a uma cor apenas. há a cidade rosa, julgo que devido às telhas
- embora essas sejam mais cor de tijolo, depois a cinematográfica cidade branca
dos que acreditam que nela se escondem todas as cores possíveis, e até a cidade  
em tons pastel que é apregoada aos turistas que nela desaguam como um tejo.
ora lisboa não pode ser uma cor, é precisamente a sua ausência - e nisso é única. 
evelyn waugh dizia que oxford era uma cidade fixada num passado de aguarela 
e para mim lisboa é algo parecido, uma atmosfera em matizes de tinta-da-china, 
um rio gráfico sem rumo nem foz, a preto e branco, claro - e escuro também.






07 outubro 2012

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02 setembro 2012