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13 junho 2017





... e, no dia em que se celebram as tuas cento e vinte e nove risonhas primaveras,
apeteceu-me, fernando antónio, recordar uma das tuas (minhas) fábulas de lisboa: 




  rua  garrett






e então sonhava ser um faraó quando éramos muitos dentro de mim
alberto, ricardo e álvaro falavam-me sempre no nobre porte de kheops
e bernardo achava que o meu perfil lhe lembrava muito o grande ramsés
mas eu sabia que se tivesse conhecido tutankhamon teria sido mais feliz
na certeza de ter encontrado uma improvável alma gémea longe do nilo
à beira-tejo neste rio à beira-sonho que desagua tão perto do à beira-eu

agora, mumificado para sempre na memória dos que sobem a rua garrett,
espero… mas sei que ninguém se sentará ao meu lado neste vale dos reis

  







30 novembro 2015









não me digas outra vez, fernando antónio, que andam todos por aí a comentar que desapareceste faz hoje oitenta anos.
mas, sabes, já nem adianta repetir vezes sem conta que não é verdade, que ainda há pouco estive sentado contigo numa esplanada no chiado, onde uma rapariga te ofereceu duas flores - e que pousaste uma delas na aba do chapéu.







13 junho 2015







Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade 
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.







Fernando Pessoa





[cumpre hoje cento e vinte e sete risonhas translações solares o senhor nogueira pessoa. muitos parabéns, fernando antónio, que contes muitas] 


30 novembro 2014







Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.






Fernando Pessoa







[os que gostam de efemérides, assinalarão que faz hoje setenta e nove anos que nos deixou. mas é mentira: 
ainda hoje passei à porta de sua casa, na rua coelho da rocha em campo de ourique, e vi-o nitidamente, a espreitar por uma janela]

23 novembro 2014

08 março 2014






e o dia triunfal da minha vida, vai ser quando?





um dos senhores pessoa, o que assinava fernando antónio e era correspondente comercial em diversas firmas com escritório na baixa lisboeta, sentou-se em frente da sua máquina de escrever no dia 13 de janeiro de 1935 (o ano da sua morte) e, até porque “escrever à máquina é para mim pensar” como confessou, dirigiu uma extensa carta ao seu amigo adolfo casais monteiro. nessa carta, que veio a tornar-se célebre, revela claramente a sua natureza plural e explica com um certo detalhe a génese dos seus irmãos-em-si, dando o seu próprio testemunho sobre as suas (deles) razões de ser. com uma precisão incrível (dado terem entretanto passado mais de vinte anos) escreve:

“levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. e escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. abri com um título, o guardador de rebanhos. e o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de alberto caeiro. desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. foi essa a sensação imediata que tive. e tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a chuva oblíqua, de fernando pessoa. imediatamente e totalmente... foi o regresso de fernando pessoa alberto caeiro a fernando pessoa ele só. ou, melhor, foi a reacção de fernando pessoa contra a sua inexistência como alberto caeiro. aparecido alberto caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. arranquei do seu falso paganismo o ricardo reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. e, de repente, e em derivação oposta à de ricardo reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a ode triunfal de álvaro de campos — a ode com esse nome e o homem com o nome que tem. criei, então, uma coterie inexistente. fixei aquilo tudo em moldes de realidade. graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. parece que tudo se passou independentemente de mim. e parece que assim ainda se passa. se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre ricardo reis e álvaro de campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.”

cem anos depois, parece virtualmente impossível ter escrito tanto apenas num só dia, é verdade, e ele próprio o parece confessar quando afirma que aparecido alberto caeiro, tratei logo de lhe descobrir uns discípulos, o que indica claramente uma elaboração prévia e premeditada, mas não é por isso que escrevo agora, não em pé nem acercado de uma cómoda alta. o importante é haver em nós, os que escrevemos, a memória de um dia especial, em que conseguimos transformar algo nosso em palavras escritas, alinhadas em frases que nesse instante sabemos serem maiores que a soma das letras que lá estão, que outros irão ler e guardar para si, como se essas palavras passassem a ser uma parte sua, é desse momento mágico que falo. não é frequente, mas por vezes penso nisso – e então ocorre-me a pergunta em título:







13 junho 2013










Santo António





Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante… Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.
Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não consertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz,
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto; é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo? O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas ou não-coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arroste
Na nora de erros duns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história
Quem foste tu ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E, cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Por que demónio
É que foram pregar contigo em santo?









Fernando Pessoa

























[ faz hoje precisamente cento e vinte e cinco anos: 
nascia, naquele quarto andar do largo de são carlos, uma irmandade infinita de pessoas que veio a ser de poetas ]










20 maio 2013










A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.


Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.


Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,


Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.








Fernando Pessoa








28 abril 2013










Meus versos são meu sonho dado.
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.


O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.


Se alguém sabe sentir meu canto
Meu canto eu saberei sentir.
Viverei com minha alma tanto
Tanto quanto antes vivi.








Fernando Pessoa









17 março 2013











Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.










Fernando Pessoa










29 janeiro 2013










Liberdade






Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.


Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.


O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...









Fernando Pessoa