21 julho 2019






Não  inventes




Não venhas cá com merdas. Não inventes. 
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas. 
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas. 

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim: que tudo esquece; 
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece. 

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros, as esculturas em pau-santo,
os discos, os retratos, o bilhar. 

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor. 





José Carlos Barros






17 julho 2019






padecer  de  um  distúrbio




a música de bach, os jogos de cores de vermeer,
a mudez das pedras da calçada, o eco do mar
nos búzios, as fotografias a preto e branco, o
cheiro dos livros, tudo isso me enlouquece.


há uma vertigem, um desvario, quando ouço
miles davis ou inalo um perfume, quando
provo um vinho velho, ou toco nas estantes
de bibliotecas e vou admirar silenciosamente
os portulanos em velino que a cartografia nos
legou sem que deles fôssemos merecedores.


e sinto-me um demente indefeso perante certos
poemas, como aquele da cristina rossi em que
ela assegura não conhecer essa arte de navegar
quem nunca navegou no ventre de uma mulher
e naufragou e sobreviveu numa das suas praias, 
porque não é preciso ter escrito algumas cartas 
de marear para saber que é tudo tão verdade.


de ti não gosto, nem penso em ti. por isso não 
me parece sequer justo mencionar-te na mesma
página em que tentei enumerar tudo aquilo que 
mais me convence de padecer de um distúrbio.






13 julho 2019





Flúor



Agradeço-te, mãe, o flúor 
que até aos seis anos tomei em comprimidos
Serve de herança a melhor dentição
Deste-me as falhas, também 
o carácter, mero utensílio
da sorte com que encarar os dias
o silvar nas frinchas
da fala
as dores
e o ranger da criação

Se pela bica começasse
a alma a abrir-se e por tal paisagem
divisasse eu primeiro
a oclusão do céu deixando
intacta na terra
a geração dos vivos
poderia (e tu pela raiz)
salvar-me antes mesmo
de aprender a ler




Andreia C.  Faria





09 julho 2019





Meter em verso as pequenas coisas
mais fáceis de se perderem


Palavras: todas a um tempo
é ao coração, é em vão que falam




Rui Caeiro





07 julho 2019





joão gilberto
(1931-2019...




soube há pouco e fiquei triste. para mim, com o adeus de joão gilberto 
a música brasileira acabou. não me venham com o chico e o caetano e
a betânia e não sei mais quem. não sei explicar, mas nunca gostei do
que se costuma chamar de "música popular brasileira" - e, todavia,
a-d-o-r-o bossa nova. para mim é como o jazz ou os meus queridos
azuis e toda a música que realmente importa. como diz o meu primo
fernando, poucas vezes na história da música um simples intérprete
terá conseguido subverter o cânone e tornar-se ele próprio o cânone. 
ele era apenas aquela dupla, feita de voz e violão, o triunfo inesperado
da simplicidade envolta num lirismo sonhador. e graças a ele todos nós
pudemos ser heróis por um dia, nós os milhões de desafinados que no
banho arriscávamos trautear as suas canções. a bossa nova não passou a
velha, simplesmente deixou de ser, porque ele é irrepetível. e fiquei triste.











03 julho 2019





O  pouco que  sei 




Sei que a pena não vale a pena.

Sei que a alegria não pode ser dita.

Sei que o amor, essa missão selvagem,
delicada, impossível, é a única forma
de estar neste mundo sem errar. 

Sei que a morte não resolve todas as coisas.
Sei que a morte, não, quero dizer a vida,
é um pardal numa árvore despida
ou numa amendoeira em flor,
cantando à luz,
dando graças aos céus por tudo
sem o saber.




Juan Vicente Piqueras





26 junho 2019






no final do ano passado elaborei a habitual e fatídica lista de livros, e
formulei o desejo de ler mais, sobretudo poesia. não sei bem explicar
como tal foi possível mas tenho-o feito e, chegados a meio do ano, lá
me convenci a deixar aqui apenas uma breve lista dos livros de poesia
que de algum modo mais me entusiasmaram ao longo destes seis meses.





collected poems - ron padgett - coffee house press


os cães ladram facas - charles bukowski - alfaguara


todos los poemas - joan margarit - austral


da poesia - hilda hilst - companhia das letras


fuera de campo - pablo garcía casado - visor


o livro da pobreza e da morte - rainer maria rilke - snob


cuaderno de campo - maría sánchez - la bella varsovia


the cinnamon peeler - michael ondaatje - vintage


arca e usura - marcos foz - ed. de autor


ya nadie baila - elvira sastre - valparaíso


a garganta inflamada - vv. aa. - companhia das ilhas


a arte da fuga - andré tecedeiro - do lado esquerdo


complete poems (1904-1962) - e.e.cummings - liveright


alegria para o fim do mundo - andreia c. faria - porto editora


o sangue a ranger nas curvas apertadas do coração - rui caeiro - maldoror







24 junho 2019






Avis  rara



Dizem que é do clima, que o tempo está a mudar.
O ovo entristece a andorinha.
O corvo já é só um emblema. Lá em cima
os aviões transportam toda a carne
outrora cobiçada pela águia-real.

E o que é que as aves têm que ver com isto?
Nenhuma é rara, se lhe perguntam.
Nenhuma, como eu, acólita
do vento em não-lugares.




Andreia C. Faria





18 junho 2019






Não, isto não é o cais das colunas
não, aqui não há índias nem brasis para encontrar.
Não, isto aqui não é o "Ca d'Oro" 
da longínqua e sumptuosa Veneza
que enriqueceu com as especiarias.
Aqui falamos banalmente
de sargos e enguias.
E na maré baixa,
quando muito baixa,
de lodo.




Fernando Gandra




10 junho 2019






ó  pátria


  

entre as brumas da memória
ó pátria, confessa que já não 
sabes lá muito bem quem és
dou-te um conselho gratuito
toma memofante, pequena,
toma memofante ou gingko
biloba ou magnésio ou uma
vitamina do vasto complexo 
bê ou até extracto de ginseng
caso não queiras tratamentos
com fosfatidilserina, os velhos
ácido fólico ou pregnenolona
depois, ó pátria sente-se a voz
mas muito rouca e nota-se a
garganta inflamada, dás por
ti dependente de pastilhas e
xaropes, descrente no futuro
desanimada, cada vez menos
valente, cada vez mais mortal





09 junho 2019





pus-me a recordar velhos discos dos elbow, 
dei com isto e agora não me sai da cabeça...










07 junho 2019






Entrar em casa, ligar o portátil
e a impressora, rasgar
o que não se aproveita, pegar de novo
no que pode ter alternativa, carregar
de um lado para o outro, do corpo
para o papel e do papel
para o corpo, esmagar uma revolta e propagar
a respectiva contra-revolta, vingar os mortos
e os feridos de ambos os partidos,
jogar o corpo fora, estragar papel.





José Ricardo Nunes




03 junho 2019






fábula  da  ilha  dos  amores 





também de pouco serviu ter-me alimentado de
poesia, bebido os versos até me sentir inebriado,
procurar a aura mágica no espanto das palavras.
e, sem o querer ou ansiar, acabei por memorizar
inúmeros poemas, muitos sem saber até porquê,
saboreando sons, recitando-os de cor para mim.


reuni na memória um acervo tal que nenhuma
editora desdenharia transformar em colectânea,
talvez crente em que essas imagens poéticas dos
outros pudessem ilustrar as minhas, e desejando
convencer-me de que a leitura de paixões alheias
iria tornar ainda mais perfeita a que sentia por ti.


depois, quando partiste e me abandonaste nesta
ilha dos amores só nossa, tratei de esquecer essas
noventa e cinco estrofes em oitavas decassilábicas
que perfazem o canto nono de uma epopeia menor.