10 novembro 2020

 


 

 

 

Não sei qual é o barco ou se há barco.

Sei que navegamos um no outro

que nos encontramos para a navegação.

A uma ilha rubra chamamos coração.
Entre a minha e a tua um sulco de água

se abre. Por vezes cicatriz. Ou só espuma.

E se há mar o teu é perfumado

sem rosa-dos-ventos, portulanos, astrolábios.

Puro mar salgado. Nele um marinheiro

te navega. Serei eu, um dia naufragado.

 

 

 



Carlos Poças Falcão

 

 




08 novembro 2020

 



pulvérisateur - système muratori

(breveté par vilmorin-andrieux et cie., paris)




04 novembro 2020

 


 

lost  and  found  in  translation

 

 


o tradutor perdeu um blusão de camurça
e foi procurá-lo aos perdidos e achados,

um edifício obscuro numa rua esquecida.

no balcão envidraçado podia ler-se: "fale

aqui, diante do hygiaphone". bons tempos,

pensou, em que os diálogos eram audíveis

mas se evitavam a todo o custo os nefastos

perdigotos. e obediente inclinou-se para a

frente, explicou que a peça de roupa agora

em falta era de uma camurça de tonalidade

bege, fazendo até pandã com os sapatos que

trazia calçados. o funcionário do outro lado

da barreira de vidro debruçou-se um pouco

para observar o calçado. quer portanto dizer

o senhor que o blusão é beige e faz pendant.

como sempre acontece quando a linguagem 

oral corporiza conversas bem higienizadas, a

homofonia não foi detectada pelo tradutor.





01 novembro 2020

 



No  atingir  a  idade  de  duzentos  anos

 

 


 

Quando acordei na manhã
do meu ducentésimo aniversário,

esperava ser consultado

por suplicantes,

tal como a Sibila em Cumae.

Poderia ter-lhes dito alguma coisa.

 

Ao invés, foi o habitual:

toranja seca ao pequeno-almoço,

Mozart toda a manhã, interrompido

pelas asas das abelhas,

e fazer amor com uma mulher

de cento e oitenta e um anos de idade.

 

Na minha festa de aniversário

apaguei duzentas velas

uma de cada vez, fazendo

uma sesta a cada vinte e cinco.

Depois, fui para a cama, às cinco e meia,

no dia do meu ducentésimo aniversário,

 

e adormeci e sonhei

com uma casa não maior que a de uma pulga

com duzentos quartos dentro dela,

e em cada um dos quartos uma cama,

e em cada uma das duzentas camas

eu a dormir.

  

 

 



Donald Hall




(tradução minha)

20 outubro 2020

13 outubro 2020

  

 

 

Errata

 



 

Onde se lê Deus deve ler-se morte.

Onde se lê poesia deve ler-se nada.

Onde se lê literatura deve ler-se o quê? 

Onde se lê eu deve ler-se morte.

 

Onde se lê amor deve ler-se Inês.

Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.

Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

 

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.

Onde se lê taberna deve ler-se perdição.

Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.

 

Onde se lê Manuel de Freitas deve ser

com certeza um sítio muito triste.

 

 


 

Manuel de Freitas

 




07 outubro 2020

 


 

nova  fábula  de  adão  e  eva

 

 

 

 

após ter eliminado sindy, aquela estúpida como costumava

designá-la, barbie despiu o vestido e entrou nua no paraíso.

perto de um regato cristalino observou ken, igualmente sem

roupa, a preparar-se para mergulhar na límpida água fresca.

como te chamas, indagou, enrolando o cabelo no dedo, de

lábios entreabertos num sorriso malicioso. adão, respondeu.

ah, eu sou eva, e acrescentou, olha, não queres ir descansar à

sombra daquela nespereira, convidou. de mãos dadas a olhar

para o céu viram cair uma maçã. não pode ser, disse adão e

franziu o sobrolho. devia ser uma nêspera, não era, replicou

eva. além disso a maçã é de plástico, volveu adão, e aquela

serpente ali no ramo é de borracha. barbie, desmascarada,

ainda tentou convencê-lo a provar o fruto proibido. poderá

ser original, admitiu ken, seguro e inflexível, mas não creio

que assim possa ser considerado um pecado trincá-lo, nem

me parece falta suficiente para nos expulsarem daqui. então

ela propôs que se pendurassem na árvore como tarzan e jane

ou assaltassem bancos como bonnie e clyde, qualquer coisa

divertida que fizesse esquecer aquela paradisíaca monotonia.

 




01 outubro 2020

 


 

História

 


 

Tenho 39 anos.
Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.
Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.
Bem mais recentes são meus cabelos
e minhas unhas.
Pela manhã como um pão.
Ele tem uma história de 2 dias.
Ao sair do meu apartamento,
que tem cerca de 40 anos,
vestindo uma calça jeans de 40 anos
e uma camiseta de não mais do que 3,
troco com meu vizinho
palavras
de cerca de 800 anos
e piso sem querer numa poça
com 2 horas de história
desfazendo
uma imagem
que viveu
alguns segundos.

 

 

 

 


Ana Martins Marques

 




25 setembro 2020

(in memoriam :: juliette gréco)



 



 

fábula  de  um  amor  impossível



[ sobe o pano. é abril em saint-germain-des-prés, na paris de 1949 ]

 


julieta:
     eu nunca tinha visto um homem assim tão belo.

e não voltei a ver. ele tocava e eu observava-o de

perfil: um deus egípcio. foi michèle, a mulher de

boris vian, quem mo apresentou e eu fiquei logo

fascinada. ele tinha essa beleza e irradiava génio.

era força e estranheza ao mesmo tempo. era a

diferença e a modernidade do que ele tocava.

eu tinha vinte anos e entendia aquela liberdade.

tudo era partilhado porque não tínhamos meios,

mas estávamos apaixonados. penso que ele ficou

algo surpreendido por isso, pela minha liberdade

e pela minha ausência de opinião e perspectiva

sobre a questão racial. depois, não sei, talvez a 

música fosse nele mais forte que tudo. eu não

podia competir com um trompete e ele partiu.

 

 

romeu

a música tinha sido toda a minha vida e não tinha

olhos nem tempo nem espaço para mais nada, até

ao meu encontro com ela. ela trouxe-me isso, o que

era gostar de algo que não a música. foi a primeira

mulher que amei como um ser humano, num plano

de liberdade e igualdade. ela era tão bela, tão só ela.

e, claro, eu não falava francês, ela não falava inglês:

comunicávamos por expressões, numa linguagem

corporal. depois, já só falávamos com os olhos e os

dedos, não havia lugar para o falso. durou algumas

semanas, e então senti que ia ser como um daqueles

amores trágicos, eu só podia estar preso à música e

 fui-me embora. mais tarde, uma vez jean-paul sartre

perguntou-me por que não nos tínhamos casado.

respondi-lhe que não queria que ela fosse infeliz.

 

 

[ cai o pano sobre juliette gréco e miles davis ]

 

 




23 setembro 2020



...and she knows as she watches over the evening star
that we'll all be together no matter where we all are...








20 setembro 2020

 

 

 


Um  poema  de  Carl  Sandburg

 

 

 

Quero-te

como as raízes secas

desejam a chuva

no verão

 

como o vento deseja

as folhas
do chão

 

e perdoa

dizer tudo isto tão

depressa.

 

 

 

 

Emanuel Félix

 




12 setembro 2020





vamos  viver  para  lisboa




vamos viver para lisboa, disseste-me, e o vento forte
desalinhava-te os cabelos. haverá sempre uma cave
ou um sótão para alugar, eu posso tentar encontrar
um part-time, a faculdade não me vai ocupar assim
tanto. aqui perto da baixa, eu sei, precisas de ver a
água do rio, interrogar as mudas tágides e passar os
dias no cais das colunas à espera de qualquer coisa.
os teus olhos brilhavam e, acrescentaste, estou certa
de que terás inspiração para terminar o livro, posso
ajudar-te a rever os poemas, sinto que correrá bem.


vamos viver para lisboa, disseste-me, e o vento forte
desalinhava-te os cabelos. eu sabia que para ti toda a
cidade mais não era que um cenário no palco onde
a nossa epopeia se iria escrever. e pude ver nos teus
olhos o fulgor baço das pedras da calçada, memória
fugaz de um cais de tristes náufragos aos nossos pés.


vamos viver para lisboa, disseste-me, e o vento forte
desalinhava-te os cabelos, os dois parados no passeio
sob a janela da nossa casa, ali na esquina que a rua
áurea faz com a da vitória, na derrota desse outono.





05 setembro 2020






acreditem ou não, isto (já) tem vinte anos
felizmente, continua a ser um instant classic