23 agosto 2014






a única novidade vinda de baltimore e digna de registo é que no dia vinte e um de dezembro de mil novecentos e quarenta ali nasceu frank vincent zappa. a resposta é dada por uma composição em duas partes: a primeira é um exemplo do que ele era como compositor inovador; após dois minutos, temos um bom exemplo do que ele era como guitarrista, com um dos seus antológicos "solos infinitos". tive a sorte de o ter visto tocar ao vivo e sei que não volto a ouvir ninguém assim.








22 agosto 2014






Parábola das mãos




Esta mão pega num fruto,
A outra afasta-o.
Uma mão recebe o falcão, tira uma luva,
A outra afugenta-o, pega numa tocha.
Uma mão escreve cartas de amor
Que a sua equívoca siamesa enche de injúrias.
Uma mão bendiz, a outra ameaça.
Uma desenha um cavalo,
A outra, um puma que o assusta.
Pinta um lago a mão direita:
Afoga-o num rio de tinta, a esquerda.
Uma mão desenha a palavra pássaro,
A outra escreve a sua jaula.
Há uma mão de luz que constrói escadas,
Uma sombra que solta degraus.
Mas chega a noite. Chega
Quando cansadas de se agredir
Fazem trégua na sua guerra
Porque procuram o teu corpo.







Juan Manuel Roca





20 agosto 2014






A cidade líquida




A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida? 
(Eu tentava sustentar-me como um barco.)
 As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios, os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas. Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade líquida.
 (Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)





Filipa Leal











[ montras de lisboa ]





19 agosto 2014





fábula  para  borges *




construíste buenos aires num mapa mitológico que só tu vias
e muito antes da cidade perceber que se identificava com ele,
imaginaste alfabetos secretos nas manchas de um jaguar
e confessavas por vezes teres pena de não teres nascido tigre.
gostavas de histórias em que um homem sonha com outro
até perceber que ele próprio é um sonho pelo outro sonhado,
compreendias que ser cego é ser fácil perder-se em labirintos
e temias os espelhos por ignorares o que estaria do outro lado.

desejavas que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca
porque te sabias um livro escrito e ainda por escrever,
admitias que a linguagem só pode simular a sabedoria
e disseste que com o tempo o poema se converte em elegia.
citavas de cor passagens dos livros que outros te leram:
em ti se repetia de novo um antigo diálogo com as palavras.
talvez por isso também gostasses de imaginar um universo
em que os livros não fossem necessários, por nele qualquer um
ser capaz de qualquer frase ou um novo verso, em qualquer língua,
e reconhecias que cada livro contém a promessa de todos os outros.

enfeitiçado pelos paradoxos do tempo e pela magia do fantástico
foste procurar esse texto infinito, que contém todas as combinações
possíveis de todas as letras e palavras em todas as linguagens,
a biblioteca ideal, a tua biblioteca de babel, esse infindável acervo
incluindo todos os livros concebíveis, passados, presentes ou futuros…

mas creio que no fim percebeste que o oposto era mais que provável:
todos os livros poderiam ser apenas um, e nesse haver uma só palavra.






*  para todos os borges em nós borges







[ ruas de lisboa ]




18 agosto 2014





como aqui já disse, dá-me um prazer especial constatar uma adesão inesperada aos azuis.
um bom exemplo é esta contribuição, com assinatura do guitarrista dos extintos dire straits.




You can't fool a fooler
, I can tell
When a John got jazzed by a Jezebel

You can't beat the house, 
you can't beat the house

Tell the man somebody, 
you can't beat the house

When these horn dogs
 get lucky with dough

They'll blow it on the rooster 
and the girls of Smokey Row

You can't beat the house,
 you can't beat the house

Now tell the man somebody,
 you can't beat the house

You want to buy you a dance 
don't buy it in here

It's all skin games and jelly roll
 red-eye and beer

They're all as mean as rat snakes 
all got knives in their boots

Even the piano player, man,
 he don't care who he shoots



See that little home wrecker
 in the backroom

She'll pick your pocket
 with her pet raccoon

You can't beat the house, 
you can't beat the house

Tell the man somebody, 
you can't beat the house










le temps est un bateau
karine léger




17 agosto 2014




creio que aquilo a que hoje chamamos ragtime já existia antes de scott joplin, mas foi ele que lhe definiu os contornos e fixou as regras de um género que se tornou popular. são de sua autoria os famosos "maple leaf rag" e "the entertainer" (celebrizado pela banda sonora do filme "the sting"), mas a minha composição preferida é este tranquilo "solace", onde o típico ritmo sincopado quase está ausente, parecendo por vezes mais um tango.







15 agosto 2014





Coração habitado





Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.







Eugénio de Andrade










quase trinta anos depois, já posso confessar à vontade: 
aprendi a não confiar em quem não gosta dos smiths…



call me morbid, call me pale
i've spent six years on your trail
six long years on your trail

call me morbid, call me pale
i've spent six years on your trail
six full years of my life on your trail

and if you have five seconds to spare
then i'll tell you the story of my life :
sixteen, clumsy and shy
i went to london and i
i booked myself in at the y... w.c.a.
i said: "i like it here - can i stay?
i like it here - can i stay?
do you have a vacancy
for a back-scrubber?"

she was left behind, and sour
and she wrote to me, equally dour
she said : "in the days when you were
hopelessly poor
i just liked you more..."

and if you have five seconds to spare
then i'll tell you the story of my life :
sixteen, clumsy and shy
i went to london and i
i booked myself in at the y... w.c.a.
i said: "i like it here - can i stay?
i like it here - can i stay?
and do you have a vacancy
for a back-scrubber?"

call me morbid, call me pale
i've spent too long on your trail
far too long chasing your tail

and if you have five seconds to spare
then i'll tell you the story of my life :
sixteen, clumsy and shy
that's the story of my life
sixteen, clumsy and shy
the story of my life
that's the story of my life




14 agosto 2014








betty joan perske  a.k.a.  lauren bacall
bert six








"You don't have to say anything and you don't have to do anything. Not a thing. Oh… maybe just whistle… You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and... blow…"







05 agosto 2014






fábula  contendo  sinais  de  amor






(exclamar um amor admirado!
tentar amar sem reticências…
como ignorar as interrogações?)

o que faria se lhe pertencessem
o til do seu cabelo de romã
a cedilha da sua pele de açafrão
o apóstrofo dos seus olhos d’água?

desconhecia que o amor
é agudo por ser único,
circunflexo por ser sôfrego
e se esconde (entre parênteses);

mas como amá-la lhe era vedado,
(((((( imaginou-se a beijá-la ))))))
num amor proibido. ponto final.







04 agosto 2014







avenue de l'opera
camille pissarro









um azul standard para marcar o início de férias. escrito por james b. oden, também conhecido por st. louis jimmy, é dos que tem mais covers gravadas. as mais famosas têm a assinatura de howlin' wolf, b.b. king, jimmy witherspoon e little walter, mas a minha preferida é a de william thomas dupree, que veio a ser um dos mais famosos pianistas de sempre, merecendo o nome de champion jack dupree.




I have had my fun

If I don't get well no more

My health is failing me

And I'm going down slow

Please write my mother

Tell her the shape I'm in

Tell her to pray for me

Forgive me of all my sins

Tell her don't send no doctor

Doctor can't do me no good

It is all my fault

I didn't do the things I should

On the next train south
Look for my clothes, home
If you don't see my body
All you can do is moan

Mother, please don't worry

This is all in my prayer
Just say you got a son
Out of this world somewhere






03 agosto 2014







É a prata da minha amada





É a prata da minha amada.
Dir-lhe-ei docemente adeus,
e que não arranque os espinhos da primeira rosa,
subindo pela vida.
E quando eu caminhar pelo vale da sombra,
ela descerá ao pequeno porto, descalçando as sandálias,
mergulhando no mar,
repetindo os nomes de todos os que partiram,
de todos os que a amaram,
hesitando à entrada da taberna,
vendo o meu lugar vazio, o violino sobre a mesa, um
silêncio maior que a lentidão das praias,
e pensará em tudo, em cada som, em cada lágrima, em
nada.
Ela voltará as costas.
Nunca fomos deste mundo, dir-lhe-ei por fim, ao fechar
a última porta.







José Agostinho Baptista














samuel l. jackson
platon antoniou




02 agosto 2014






As carroças da rua sonsonam, sons separados, lentos, de acordo, parece, com a minha sonolência. É a hora do almoço mas fiquei no escritório. O dia é tépido e um pouco velado. Nos ruídos há, por qualquer razão, que talvez seja a minha sonolência, a mesma coisa que há no dia.
(…)
Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito então parece-me a eternidade.







Bernardo Soares













[a fugaz livraria do desassossego ]