31 julho 2023

 





leituras  de  julho





 


 


 


 


 


 


 




:: notas ::

  

the heart of man

jon kalman stefánsson

ed. maclehose press

 

terceiro e último acto deste romance passado há cem anos numa islândia remota. o rapaz (o seu nome nunca é pronunciado) e o carteiro chegam a uma estranha povoação, ali surge um novo amor, cartas são escritas, segredos revelados e tudo se encaminha para um final que para mim não constituiu uma surpresa. e stefánsson mantém a simplicidade na narrativa mas uma grande beleza poética na expressão das emoções. um belo e trágico final para esta saga moderna.


 

the cambridge centennary ulysses

james joyce

ed. cambridge univ. press

 

um must para qualquer argonauta do bloomsday, esta edição comemorativa do centenário do original com a chancela da parisiense shakespeare & co. segue-se o facsimile de 1922, com ensaios e anotações em cada capítulo, num enorme volume de capa dura, de mil páginas e mil e uma aventuras.



dar a cara

larry brown

ed. cutelo

 

os contos de brown têm um denominador comum: personagens em situações emocionais extremas. são histórias curtas apresentadas com realismo cru e alguma violência, por vezes inesperada ou chocante. frequentemente comparado a outros escritores “sulistas” (cormac mccarthy, harry crews, entre outros), a sua voz tem algo de único e esta colectânea é uma boa amostra.


 

o capote

nicolau gogol

ed. publicações europa-américa

 

não sou muito de andar à procura de edições antigas, vasculhando alfarrabistas em demandas insanas. porém há anos que procurava este livrinho, editado no final de 1953 e coincidindo com a estreia nacional da adaptação cinematográfica assinada por alberto lattuada - e com o bónus da inclusão de diversos fotogramas retirados do filme. esta novela curta é uma das obras-primas da literatura russa e, como disse um dia dostoievsky (referindo-se a si próprio e a tolstoi): vimos todos do capote de gogol.


 

monsieur teste

paul valéry

ed. allia

 

releitura rápida do testemunho de um anti-herói, que soube aproveitar o seu tempo não procurando ser bem sucedido. depois, há sempre aquela frase: “achar não é nada, o difícil é somar a si o que se encontra”... e como resisitir à capa desta edição?


 

the world’s most beautiful libraries

massimo listri

ed. taschen

 

reedição (menor formarto, “para pobres como eu”) de um dos mais belos livros visuais sobre bibliotecas. há duas portuguesas (óbvias) mas na referência a praga falta a superlativa klementinum. 



1913

florian illies

ed. clerkenwell press

 

franz kafka está apaixonado pela ideia de estar apaixonado e escreve cartas de amor a felice bauer, louis armstrong foi castigado mas recebe um trompete na casa de correcção, sigmund freud (e os seus) zanga-se definitivamente com carl jung (e os dele), charlie chaplin assina o seu primeiro contrato com um estúdio de cinema, marcel proust inicia a sua demanda escrita à procura de um tempo perdido, um pintor de aguarelas chamado adolf hitler tenta vender os seus trabalhos pelas ruas de viena, rainer maria rilke passeia pela europa e escreve, igor stravinsky estreia em paris a sua sagração da primavera, um bailado coreografado por nijinsky, perante um público dividido entre apupos e aplausos (na plateia encontram-se jean cocteau e uma jovem costureira, coco chanel, que virá a ser amante do compositor)... e tudo isto se passa durante 1913, o ano anterior à morte de uma era.









26 julho 2023

 


 

 

Qual  é  a  tua  razão  de  ser ?

 

 


À vinda do supermercado
diz-me o pequeno monstro 
que às vezes me faz companhia:
«E qual é a tua razão de ser?» 

Na rua, a tarde rola devagar 
entre prédios murchos — e ele
acrescenta: «Não me digas 
que são os versos.»

E ri-se.


 

 


Rui Pires Cabral

 

 






10 julho 2023

 



 

 

Lisboa  sob  névoa

 

 

 


Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba. 
Informes, as casas 
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada, 
as paredes são menires, 
pedras antigas, vagas 
sem princípio, sem fim.

 

 

 

 

Fiama Hasse Pais Brandão

 






30 junho 2023






leituras  de  junho





 


 


 


 


 


 


 




:: notas ::

 

time shelter

georgi gospodinov

ed. weidenfeld & nicolson

 

um personagem enigmático abre na suíça uma “clínica para o passado”, que oferece a quem sofre de alzheimer um tratamento promissor: cada piso e cada quarto reproduzem uma determinada década com minucioso detalhe - e isso permite transportar os doentes para o passado, ajudando a recuperar memórias e bem-estar. porém, à medida que tudo se torna cada vez mais convincente, vai crescendo o número de pessoas saudáveis que procuram internamento na clínica, esperando que ela seja um “abrigo temporal”, desejando que ali resida um meio de fuga aos horrores do presente - um efeito inesperado em que o passado vai invadir o presente e eliminar o futuro... este argumento brilhante constitui a 1ª parte do livro (e essas páginas mereceram ganhar o international booker prize deste ano). depois, infelizmente, o autor perde-se em devaneios sobre a política europeia actual e isso, para mim, torna o livro algo datado. é pena, a primeira parte é um clássico distópico instantâneo.

 


windswept & interesting

billy connolly

ed. two roads

 

divertida, por vezes hilariante, a autobiografia de um dos meus comediantes preferidos. origem familiar pobre, criança abandonada, adolescente vítima de abuso sexual, aprendiz de soldador nos estaleiros de glasgow - nada, mas mesmo nada, poderia prever aquilo que billy conseguiu ao longo da sua vida.

 


shy

max porter

ed. faber&faber

 

pequena-grande novela sobre algumas horas na vida de um adolescente problemático. terá ele fugido da casa de reeducação para “jovens perturbados” ou não? depois encontra o pequeno lago, algo inesperado acontece e todos os seus pensamentos, traumas, medos e ódios são-nos revelados em diversos planos (a diferenciação gráfica é brilhante), até tudo - quase num anti-climax - voltar a ser o que era. entrar na cabeça de um adolescente e conseguir encontrar as palavras certas - hats off for max porter.

 


nada, nada, nada

francis picabia

ed. snob

 

influenciado pelo impressionismo e depois pelo cubismo, francis picabia cedo percebeu que a sua alma estava noutro sítio. o encontro em nova iorque com duchamp e man ray e o posterior contacto com tristan tzara e outros membros do célebre cabaret voltaire transformam-no no arauto ideal para um novo ideal de quatro letras: dada. e picabia desenha, pinta e, sobretudo, escreve. neste livro, retrato da sua loucura sã, esconde-se e revela-se um manifesto-feito-corpo-feito-mecanismo-feito-dada. são textos de análise crítica e panfletária sobre o que é dada e não dada, o ser tudo e ser nada, repletos de dadaforismos sarcásticos e hilariantes: “a arte é um produto farmacêutico para imbecis”, “eu sou a favor da incineração que conserva no formato menos volumoso ideias e indivíduos”, “ a arte está por toda a parte excepto nas galerias dos marchands e nos templos da arte”, “paris é maior do que picabia, mas picabia é a capital de paris”, “dada é contra a carestia da vida” (nisso somos todos dada!)... mais tarde criticou o cubismo (“picasso acaba de comprar um citröen que trepa maravilhosamente às árvores; segundo conta, ele vem mijar-lhe na mão”), aproximou-se e afastou-se dos surrealistas e, claro está, acabou por se renegar: “francis picabia vira-se sempre contra si mesmo”. porém, como se sabe, ele não sabia nada, nada, nada.

 


gargântua e pantagruel

françois rabelais

ed. e-primatur

 

mais um triunfo para a e-primatur, a edição deste clássico, após os contos de cantuária de chaucer e os ensaios de montaigne. com uma boa e divertida tradução (o espírito rabelaisiano inundou o tinteiro de manuel de freitas) e as inigualáveis gravuras de gustave doré, este é um texto que se revela surpreendentemente actual, um bom antídoto, mordaz e sempre cómico, contra o politicamente correcto e a falta de graça actualmente vigentes. não me espantava se um dia destes fosse “re-escrito”... mas pelo menos esta edição já não estragam.

 


primeiros trabalhos (1970-1979)

patti smith

ed. traça

 

rimbaudependente confessa, patricia lee smith quis reinventar para si aquele bizarro romantismo francês e essa sua quase-obsessão está bem presente nestes primeiros trabalhos, que abarcam toda a década de setenta, os anos de um rito de passagem da obscuridade para o mediatismo-culto e da criação da persona patti. e neles se antevê claramente o impacto que iria ter na cena literária mais fora-da-caixa e no mundo rock mais underground. não há medo de experimentar e testar limites nesta recolha de textos onde se incluem anotações de diários, poemas (muitos em prosa), críticas e reflexões. é de saudar o voluntarismo de mais uma editora independente - sem elas nunca teríamos traduções como esta.

 


the wager

david grann

ed. simon & schuster

 

o ‘wager’ era um veleiro de três mastros que zarpou de inglaterra em 1740, integrando uma pequena esquadra numa missão secreta que envolvia uma viagem à américa do sul, dobrando o cabo horn e subindo a costa chilena. dois anos depois, aparece um pequeno barco na costa brasileira com trinta sobreviventes da tripulação. e com eles uma narrativa dos acontecimentos. mas pouco tempo depois aparece numa ilha chilena um bote com outros três sobreviventes que, por fim repatriados, contam uma história muito diferente. o almirantado nomeia um tribunal marcial para apuramento da verdade: naufrágio? motim? assassínio? muitas questões sem resposta óbvia até ao presente, porém ficam certezas evidentes: as deploráveis condições a bordo, a tirania hierárquica, o quão selvagens somos sob condições limite... muito para lá de uma aventura marítima, uma grande fábula sobre o comportamento humano.








29 maio 2023






leituras  de  maio





 


 


 


 


 


 




:: notas ::

 

the life and death of ancient cities

greg woolf

ed. oxford univ. press

 

o que nos leva a ser gregários? por que razão, após milhares e milhares de anos de individualismo nómada, nos fixámos em pequenos grupos em torno de terra arável? e o que aconteceu a algumas aldeias para se tornarem centro urbanos? este livro interessantíssimo explora essa “história natural” - a do nascimento, apogeu e queda das grandes cidades da civilização, sobretudo das mediterrânicas, e proporciona pistas para possíveis respostas. apenas um reparo: como é possível que um livro com a chancela de oxford veja a luz do dia contendo tantas falhas gramaticais e gralhas tipográficas?


 

how words get good

rebecca lee

ed. profile books

 

livros sobre livros... como resistir? este é fascinante do ponto de vista editorial (“onde as palavras se tornam boas”), desde o texto inicial até ao aparecimento do livro numa montra. repleto de referências a escritores, pequenas anedotas sobre falhas gramaticais, plágios, as inevitáveis gralhas, o mistério das notas de rodapé, passando pelo drama das traduções, até se chegar à concepção do produto final com a escolha de tipos gráficos e imagens para a capa, ao longo deste livro percebemos como ele nasceu e cresceu, num relato divertido e muitíssimo informativo.


 

levar caminho I

manuel de freitas

ed. averno

 

reunião dos livros iniciais, primeiro de pelo menos três volumes (saga interminável?)

 


whale

cheon myeong-kwan

ed. europa

 

até ao momento, o livro do ano. estamos numa aldeia remota da coreia, num passado recente. e vamos conhecer a vida de geumbok, que persegue um sonho desde que viu uma baleia no mar, e a da sua filha chunhui, que nasceu muda e só consegue comunicar com elefantes. entretanto, uma mulher vende a sua filha a um apicultor por dois potes de mel, uma tempestade revela uma fortuna escondida num telhado, ficamos a saber que a rapariga controla as abelhas, a aldeia ganha uma fábrica de tijolos e um cinema em forma de baleia - palco de uma tragédia anunciada. esta é uma novela maravilha, com algo que lembra o realismo mágico sul-americano, porém narrada com uma originalidade surpreendente, um fresco épico repleto de aventuras bizarras e humor perverso. está na lista restrita para o booker deste ano. sinceramente, gostava que ganhasse.

 


the sorrow of angels

jón kalman stefánsson

ed. maclehose press

 

passaram algumas semanas desde que o rapaz regressou, para devolver ao velho capitão o livro de poesia co-responsável pela morte do seu amigo bárdur. e agora vai acompanhar o carteiro jens numa viagem que vai ser um desafio contra a morte de ambos... segundo livro desta magnífica trilogia, passada no início do séc. xx numa islândia remota, um belo exercício sobre o poder das palavras e a magia da literatura, num texto sempre brilhante que justapõe o diálogo, o monólogo interior e o fluxo de consciência.

 

 

 




15 maio 2023

 

 

 

 

Dentes  podres  em  Lisboa


 

 

 

O poeta medíocre

encheu os pulmões

de ar maligno
e disse para as paredes

que como sempre

o cercavam:

“chega de poemas de amor”.

 

Não demorou a perceber,

o poeta medíocre,

que sem poemas de amor

ele não existia sequer

- ou era ainda,

na melhor das hipóteses,

mais medíocre

do que se acostumara a ser.

 

As palavras afluíram-lhe então

como um vómito frio e cansado,

dentes podres de uma musa

“que já foi com todos”

e com ele também.

 

 

 



Manuel de Freitas