16 janeiro 2015






ouvi hoje esta canção, na sua edição original. e depois recordei a versão "orquestrada" para a colectânea the love songs. 
há sempre qualquer coisa intemporal na voz de hammill, como se fosse outra vez a primeira vez que se ouve. 
é isso um clássico?



Drawing back the curtains, sluggish city daylight in the afternoon...


Here's that special silence, just before you walk out of the hotel room.


Each time we're so close I assume 
that we'll never be again -

oh, how long must we pretend
 that we're just good friends?




A casual affair is all that you can spare 
from your emotional change;


A calendar of meetings,
 strangers on the street,
 the best we ever arrange.


Now I just can't stand all the pain,
 all the constant make and mend;


how long can we pretend
 that we're just good friends?




I gave you my devotion,
 hiding nothing up my sleeve -


If I walked clean out of your life 
would you even notice me leave?


So much tangled-up emotion,
 should I stay or should I go?


If I walked clean out of your life 
how long would it take you know?


(are we such good friends?)


How sordid this has become
 as the means approach the end – 
And how long can we pretend…











le siècle des lumières
rené magritte




15 janeiro 2015





"Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até d’este quarto andar sobre a cidade se pode pensar no infinito. Um infinito com armazens em baixo, é certo, mas com estrellas ao fim... É o que me ocorre neste acabar de tarde, à janella alta, na insatisfação do burguez que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser."





Bernardo Soares












plage à marée basse
edgar degas





14 janeiro 2015

13 janeiro 2015





fábula da  pérola





sabes que há uma âncora ainda por içar neste meu coração de veleiro num cais
que há um sonho de viagens sem norte ao sabor de ondas que só falam de ti?
que quando leio cartas de marear só encontro rumo para o mapa do teu nome
que essa palavra se abre como uma ostra e no lugar da pérola estás sempre tu?







12 janeiro 2015





partiu cedo leroy arthur carr, um alcoólico anónimo no verdadeiro sentido da palavra. nunca foi visto embriagado em público mas descobriu-se depois da sua morte prematura aos trinta anos, devida a insuficiência renal e hepática, que passava as noites sozinho em casa, sempre a beber. foi um pianista inovador e ray charles referia-o como uma das suas grandes influências. deixou-nos alguns azuis que hoje são verdadeiros clássicos, como este, gravado há quase noventa anos - aqui numa cover tranquila de eric clapton.



How long, baby how long,
Has that evening train been gone?
[Chorus]: How long, How how long, Baby how long?

Went to the station, didn't see no train.
Down in my heart, I have an aching pain.
[Chorus]

I feel disgusted, I feel so bad
Thinking 'bout the good time that I once have had.
[Chorus]

I could see the green grass growing on the hill;
I ain't seen no greenback on a dollar bill.
[Chorus]

You're gonna be sorry, you'll feel so blue.
When you want me, baby, I declare I won't want you.
[Chorus]

Don't have no money for to ride the train.
I would ride the rods, baby, to be with you again.
[Chorus]

How long, baby how long
Must I keep my, my watch in pawn?
[Chorus]




11 janeiro 2015








kerstin "anita" marianne ekberg
(1931-2015…(… 










Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo uma cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede,
sonho-me a adormecer em Maio e acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.







Miguel Martins












[largo do picadeiro, noite]




10 janeiro 2015





[resolução de ano novo: deixar-me beijar por lisa carol fremont]














james stewart, grace kelly e alfred hitchcock nas filmagens de "rear window"
phil stern








[resolução de ano novo: não voltar a pintar no mural canções dos elbow]



I live and die by the hot and cold in strangers’ eyes
But danger lies behind the tape across my door
I know a place where angels lace the lemonade
And I cannot stay where all the broken plans were made

Broken devotion
Can I jump in the gun
And fly over the ocean
Can I jump in the gun
And string up a net across Lafayette
And sing of my deeds while I’m gone
And I'll spin some lies to tell you upon
My return from the ends of the earth

She and I would death defy and promenade
She and I were profligate as de rigueur
She and I were for a Burton Taylor made
She and I won't find another me and her

My sunflower
My ringpip
Oh love like a sundown harbour
Oh love like a falling bomb
Oh my love
Give her wings and armor
Oh my love
Gotta be long gone




09 janeiro 2015





Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!

Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.

Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou,
Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos?

Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, À busca de não buscar,
À busca só de partir.
À busca só de não ser
À primeira morte possível ainda em vida —
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.

Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.

Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem.
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!






Álvaro de Campos











[cais das colunas]




08 janeiro 2015





festeja hoje oitenta risonhíssimos invernos o rapaz de tupelo, mississippi que em bom rigor não inventou o rock’n’roll mas foi quem o corporizou com visibilidade e, graças à sua postura e estilo pessoal, em pouco tempo lhe deu uma dimensão verdadeiramente planetária. estou a ouvir-te nalguns velhos êxitos e, digo-to com sinceridade, estás na mesma. parabéns e que contes muitos, elvis aaron.



Well, since my baby left me,

I found a new place to dwell.
It's down at the end of lonely street

at Heartbreak Hotel.



Heartbreak is so lonely baby,

Heartbreak is so lonely,

Heartbreak is so lonely I could die.



And although it's always crowded,

you still can find some room.

Where broken hearted lovers
 do cry
away their gloom.



Well, the Bell hop's tears keep flowin',

and the desk clerk's dressed in black.
Well they been so long on lonely street

They ain't ever gonna look back.



Hey now, if your baby leaves you,

and you got a tale to tell,
Just take a walk down lonely street

to Heartbreak Hotel.



You'll be so lonely, baby

You'll be so lonely

You'll be so lonely you could die



Although its always crowded

You still can find some room

For broken hearted lovers 
to cry
away the blues












Tisana 69



. a história é infinita. podemos interceptá-la em qualquer ponto. era uma vez uma cidade onde os habitantes sabiam tanto do sofrimento humano que quando acordavam deitavam-se logo.





Ana Hatherly













girl with closed eyes
lucian freud





07 janeiro 2015








je suis charlie
ผม charlie
i am charlie
我是查理
yo soy charlie
मैं चार्ली हूँ
ich bin charlie
私はチャーリーです
io sono charlie
ég er charlie
მე ვარ charlie
jo sóc charlie
Είμαι ο Τσάρλι
Ik ben charlie
мне Чарли
eu sou charlie
...
(completar a gosto)










se não tivesse ouvido, nunca acreditaria que a voz de miss thorn ligaria bem com o som dos massive attack. a verdade é que esta pequena obra-prima, mesmo ouvida agora, anos e anos depois, parece tão certa que nunca conseguiria pensar nela cantada por outra pessoa. e este (arquitectural, encantado, ortogonal, mágico, impossível, sei lá mais o quê...) videoclip é talvez o meu favorito de sempre.



This girl I know needs some shelter 
She don't believe anyone can help her 
She's doing so much harm, doing so much damage But you don't want to get involved 
You tell her she can manage
 And you can't change the way she feels 
But you could put your arms around her

I know you want to live yourself 
But could you forgive yourself 
If you left her just the way You found her


I stand in front of you
 I'll take the force of the blow
 Protection


You're a boy and i'm a girl
 But you know you can lean on me
 And I don't have no fear 
I'll take on any man here
 Who says that's not the way it should be


I stand in front of you 
I'll take the force of the blow Protection


She's a girl and you're a boy 
Sometimes you look so small, look so small
 You've got a baby of your own 
When your baby's gone, she'll be the one 
To catch you when you fall


I stand in front of you 
I'll take the force of the blow 
Protection


You're a girl and i'm a boy


Sometimes you look so small, need some shelter 
Just runnin' round and round, helter skelter
 And I've leaned on me for years
 Now you can lean on me

And that's more than love, that's the way it should be
 Now I can't change the way you feel
But I can put my arms around you
 That's just part of the deal
 That's the way I feel 
I'll put my arms around you


I stand in front of you 
I'll take the force of the blow 
Protection













[rua augusto rosa]





06 janeiro 2015







pequena  fábula  interplanetária






enquanto vénus reclamava: neptuno, os peixes andam com mercúrio
lá na terra já só se falava nos divórcios de saturno, esse cabeça na lua
por júpiter! exclamou marte quando soube, assim vai perder os anéis















[jardins gulbenkian]





05 janeiro 2015





e no ano novo recordo um bluesman que nos deixou no ano velho, o texano albino johnny winter, um dos mais versáteis guitarristas de sempre, que nunca esqueceu as origens e confessou um dia gostar mais de azuis que de rock’n’roll.


Lord knows I've tried 
to do what's right

One whole year of stayin' home 
both day and night
'Cause I smell a mean trouble
 way over yonder, 
you know I heard a mean,
Always in trouble people 
Lord, they just won't let me be

The people talk about me
 both night and day

I said, Lord, please forgive them 
and go the other way
'Cause I smell a mean trouble 
Lord, I smell trouble 
ahead of me
Oh, yeah, always in trouble 
Lord, they just won't let me be

And from now on
 I will not run and hide

I'll face trouble with a smile
 and hope it pass me by
'Cause I smell a mean trouble
 way over yonder 
I say, I heard a mean

Yes, always in trouble, they just won't
 Lord, they just won't
 let me be










ad marginem
paul klee




04 janeiro 2015






Defeito de fabrico




Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.







A. M. Pires Cabral










ben watt
edward bishop






03 janeiro 2015






é um dos mistérios da música. há nomes do passado que se calam, ficam mudos durante anos a fio e depois, quando já nem os lembrávamos, ei-los de volta. e por vezes com um regresso tão belo quão inesperado. é o que me ocorre ao ouvir ben watt (metade dos everything but the girl), aqui em estúdio com a ajuda da slide-guitar de david gilmour (um quarto dos pink floyd, já agora).


Your state agent's been over, I've resurfaced the driveway

I'm selling flowers round the pavement, made it nice up the place

I'm up the selling of business, my heart is an ended

Without your face over the counter, without your face

Some nights I'm out there on the levels

Through the village, pass the church where we got married

And I can see for miles

Now, there is the future, what's it standing in my way?

Right now it's my past, and it's not moving forth

Some nights Im out there on the levels

And the ditches and the fields are flooded by the river

And I can see for miles

And I know its only daylight that we all walk through

And everybody has wounds that heal in time

And I’ll get over mine

Some nights I'm out there on the levels

And were talking like we used to

And its me who does the talking

Are we out there for a while?
And I can see for miles