15 agosto 2020






Os nomes não designam as coisas:
envolvem-nas, sufocam-nas.

Mas as coisas rasgam
as ligaduras das palavras
e voltam a estar aí, nuas,
à espera de algo mais que os nomes.

Só pode dizê-las
a sua própria voz de coisa,
a voz que nem ela nem nós sabemos,
nessa neutralidade que pouco fala,
esse mutismo enorme onde as ondas rebentam.




Roberto Juarroz






13 agosto 2020





em demanda do nocturno mais-que-perfeito
recordei mais um standard reinventado por
esta dupla maravilha. clássico intemporal...










10 agosto 2020






Também os gritos são feitos
de palavras, isto é

de uma grande ausência
de palavras, isto é

de silêncio carregado 
de veneno




Rui Caeiro





01 agosto 2020





A  ditadura  dos  hipermercados



no mundo há cinco Continentes
na Baixa da Banheira
vai abrir
o sexto





José Carlos Barros






26 julho 2020





em demanda do nocturno mais-que-perfeito
recordei este velho standard, revisitado em
boa hora por louis armstrong e oscar peterson











23 julho 2020





a  palavra  que  faltava





eu quero apenas a palavra que ainda ninguém disse,
selvagem e indomável, isenta de voz e ausente da sua
ária, omissa nos cânticos, negligente e sem memória.
eu quero a palavra toda, capaz de descrever o nada e
o tudo que sinto quando a leio, que após ser escrita
nos obriga a imaginar que não sobram outras letras,
indecifrável nos dicionários, inaudita nos silêncios.
eu quero a palavra imprevisível que ninguém espera,
que lida hoje não será a mesma amanhã, que troca as
letras para me enganar permanentemente. eu quero a
palavra impossível, com cinco is como impingiríeis ou
inimicíssimo, nascida de horas sombrias que aprendeu
a combater sem cicatrizes visíveis. eu quero a palavra e
o seu oposto, a palavra sem rosto, a última que faltava
para completar o poema, sem o conseguir na verdade.







12 julho 2020






introdução  à  poesia




pedi-lhes para tomarem um poema
e o erguerem contra a luz
como um slide a cores


ou encostarem um ouvido à sua colmeia.


disse-lhes larguem um rato num poema
e observem-no a sondar a sua saída,


ou caminhem dentro do quarto do poema
e procurem nas paredes um interruptor.


quero que pratiquem ski aquático
através da superfície de um poema
acenando ao nome do autor na costa.


mas tudo o que eles pretendem fazer
é amarrar o poema a uma cadeira e
torturá-lo até obterem uma confissão.


começam a bater-lhe com uma mangueira
para descobrir o que ele significa mesmo.




Billy Collins




(tradução minha) 

08 julho 2020





O  soldado  na  praça  Tianamen



Olha em frente um ponto cego
um rumor que não tem pressa de ser som
nada sente nem procura
perde-se hirto no vazio
a areia do tempo cai-lhe corpo abaixo
caule sem seiva nem ramos
a cabeça indiferente numa espera inútil
flutua no verde azeitona da farda larga e triste
que a brisa solta da tarde levemente sacode
como um poste seco no deserto




José Manuel de Vasconcelos





01 julho 2020






fábula  cromossexual



o infravermelho apaixonou-se pelo ultravioleta
apesar da vasta barreira cromática entre ambos.
para se sentirem mais próximos, pois é sabido
que os extremos gostam de se tocar, decidiram
fundir-se com as cores que os separavam. e foi
assim que nasceu a famosa página em branco.







25 junho 2020






Sozinho




Nunca pensei que Michiko voltasse
depois de morta. Mas se o fizesse, sabia
que seria como uma dama num longo vestido branco.
É estranho que tenha voltado
como o dálmata de alguém. Encontro
o homem que a traz pela trela
quase todas as semanas. Ele diz bom dia
e eu inclino-me para a acalmar. Uma vez
disse-me  que ela não se comporta assim com
outras pessoas. Por vezes está presa
no quintal dele quando passo. Se ninguém
está por perto, sento-me na relva. Quando ela
finalmente se acalma, põe a cabeça no meu colo
e olhamo-nos nos olhos enquanto sussurro
nas suas orelhas macias. Não lhe interessa
o mistério. Ela prefere quando
lhe toco na cabeça e lhe conto as coisas
pequeninas dos meus dias e dos nossos amigos.
Isso fá-la feliz como sempre fez.





Jack Gilbert





20 junho 2020






recordei hoje esta bela homenagem de marsalis a joe
"king" oliver, o primeiro grande trompetista de jazz











18 junho 2020

10 junho 2020






Deus  rebelde




Se eu fosse Deus, chamaria os anjos uma noite
para libertar o sol redondo na fornalha da escuridão,
zangado ordenaria aos servos do jardim do mundo
que podassem do ramo da noite a folha amarela da lua.

À meia-noite entre as cortinas do meu divino palácio
iria revirar o mundo nos meus dedos furiosos
e com as mãos, cansadas da imobilidade milenar,
enfiaria as montanhas nas bocas abertas dos mares.

Desamarraria os pés de mil estrelas febris,
espalharia o sangue do fogo pelas veias mudas das florestas,
rasgaria as cortinas de fumo para que no rugido do vento
a filha do fogo se pudesse lançar ébria nos braços da floresta.

E sopraria a flauta mágica da noite
até que os rios se erguessem dos leitos como serpentes sedentas
e exaustos por uma vida a deslizar sobre um peito sem alento
se derramassem no escuro pântano do céu nocturno.

Docemente invocaria os ventos para soltar
os barcos de perfume de flores nos rios da noite.
Abriria os túmulos para que inúmeras almas errantes
pudessem uma vez mais procurar a vida no limite dos corpos.

Se eu fosse Deus, chamaria os anjos uma noite
para ferver a água da vida eterna no caldeirão do inferno,
e com uma tocha ardente expulsaria o rebanho virtuoso
que pasta nos prados verdejantes de um céu impuro.

Farta de ser puritana, buscaria a cama de Satanás à meia-noite
e encontraria refúgio na descida à infracção das leis.
Alegremente trocaria a dourada coroa da divindade
pelo abraço sombrio e dorido de um pecado.




Forough Farrokhzad 





(tradução minha)

05 junho 2020






mais uma vez ocupado na interminável tarefa de tentar
de algum modo ordenar os meus velhos discos de jazz,
pude de novo constatar que é o género de música ideal
para demonstrar o segundo princípio da termodinâmica:
a quantidade de entropia tende a aumentar com o tempo,
mesmo quando se ouve um quase esquecido lee morgan...